Promessas de um gajo que corre

De vez em quando dá-me para arrancar a correr pela fresquinha rumo à zona saloia. Quando desço a Calçada de Carriche, olho para os montes lá ao fundo e penso “Daqui a bocadinho já lá estou”. Tudo bem que o “bocadinho” inclui subidas que colam chumbo às minhas pernas, minutos a pensar “És tão estúpido, o jogo da malha é tão mais a tua cara” e a sensação que estou a suar o triplo do meu peso em água.

Depois chego lá ao topo da pequena serra, já em zona semi-urbana, semi-campestre e contemplo de um lado os dormitórios que se espalham à volta de Lisboa e do outro vales, colinas e outras serras onde as casas se contam pelos dedos, onde as há.

Desta vez no regresso resolvi fazer algo que tinha dito que não faria nos dias em que fosse correr 30kms ou perto disso. Olho para a encosta da Serra da Luz e penso “O Paço do Lumiar e Telheiras não são assim tão longe. E esta subida se calhar não é tão puxada como me pareceu da última vez…”

Deixa-se o Senhor Roubado para trás e lá vou eu a controlar as casas que parece coladas na encosta. Já levo 21, 22kms nas pernas quando começo a subir e torna-se impossível fazê-lo a correr de forma contínua e, sem problema, intervalo passo rápido e corrida. Cada vez mais percebo que gerir esforço obriga a que aquela noção orgulhosa de “Andar nunca” seja metida no saco em prol de um bem maior.

Finalmente chego ao topo e faria corar de vergonha alguns camelos que me vissem a emborcar água como o fiz. Depois tudo parece simples e fácil, passo o Cemitério de Carnide, o campo de golfe, os empreendimentos modernos e o Centro de Triagem. Já estou de novo no Lumiar e já não falta muito. Cruzam-se comigo uns tipos que vão fresquinhos a bom ritmo, certamente irão descer a encosta. Trocam-se os bons dias e eu prometo a mim mesmo “Já faltou mais para subir a encosta sem parar. Pode ser que para a próxima…”

 

E depois deixo-me de filosofias e acelero rumo a casa. Três horas no bucho e eu para aqui com cantigas épicas. O mais certo era vender a alma por um banho e um litro de água fresquinho.

Lições de sofrimento pintadas a azul-belém

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Gosto bastante de futebol mas, traço geral, estou longe de ser um sofredor nato nessa matéria. Talvez seja por não ser o meu desporto de eleição, esse é o basket, com anos de prática oficial e depois amadora, quase sem interrupção desde os treze anos.
No entanto, sou do Belenenses e isso, para além da essência em si, acresce na dose de sofrimento para quem cresce em Lisboa longe da malha de Sporting e Benfica. Se a isso juntar o carinho especial que também tenho para com o Atlético, então a festa está feita.

Mas cresci não muito longe do Estádio do Restelo e desde a primeira vez que lá fui fiquei fascinado com uma das mais deslumbrantes vistas que um estádio pode ter e que tantas vezes ajuda a atenuar a tristeza de resultados menos conseguidos no relvado. Por isso, apesar de basicamente até hoje só ter visto o meu clube a conquistar um título, não consigo deixar sempre de acreditar em algo maior e algo melhor para o futuro do Belém.

Por várias razões nunca fui sócio mas há poucas semanas mudei de ideias. Infelizmente, a pessoa com quem gostaria de partilhar a notícia já não está presente mas, de certa forma, se alguma coisa pudesse dizer para um ínfima compensação, é que o clube assim não perdeu um sócio.

Hoje fui ao estádio, sempre demasiado vazio para a grandeza e espírito do clube, e aproveitei para conversar com um amigo de longa data. Salvaram-se esses momentos, porque em campo a festa foi para quem veio de Guimarães. Há sempre um velhote do Restelo, não um velho porque lhes falta maldade para isso, que se indigna e encontra a injustiça mesmo onde ela não há – perdemos 3-0 e perdemos bem, quando as falhas são maiores que as virtudes não há muito para fazer.

Como é tradição, sabendo-me no estádio, amigos de Sporting e Benfica aproveitam logo para molhar a sopa – é fácil, há sempre uma boa margem para tentar abalar a fé dos pastéis. Mas, o que eles não entendem é que, para quem é um verdadeiro adepto do Belenenses (e eu gosto pouco das teorias do “clube simpático” ou do “é o meu segundo clube”, mas não me vou alargar agora sobre isto), esse manancial de gozo é uma gota no oceano de sofrer por um clube que terá sempre que penar para singrar e que, quanto mais singrar, mais as hipóteses de penar irão aumentar, pelo facto de ser sempre uma terceira via ao lado de uma auto-estrada de duas faixas.
Não saí do Restelo contente é certo, mas não me revejo na essência de derrotado. Ser do Belenenses é saber que há sempre uma grande probabilidade de cair mas nunca deixar de tentar arranjar forças para se levantar.

E depois amanhã corro 29kms de manhã e arranjo logo forma de diluir a azia.

A vida pendurada no botão do refresh

Primem-se botões, fazem-se reloads, os dedos suspiram em ecrãs tácteis e as respostas procuram-se no outro lado dos ecrãs. É este o resultado do “refresh”, o espelho da ansiedade dos tempos modernos. A paciência nunca foi o forte de muita gente mas agora, a impaciência está à distância de um clique ou de um swipe.

É o problema da proximidade constante controlada à distância por telemóveis, computadores, tablets e afins. São eles que prometem que alguém do outro lado está activo, que a mensagem foi recebida e que o destinatário foi avisado. Prometer não é cumprir e a tecnologia não mudou essa premissa.

Mas isto é a lógica a falar e já se sabe que tecnologia é um bom bode expiatório 2.0 mas está longe de ser a culpada de expectativas, ansiedades e, por vezes, do desespero que é transferido para um refresh que se repete em loop em busca de respostas ou novidades que podem não chegar, simplesmente porque não existem. Creio até que hoje em dia, há quem vá para além desse patamar e recorra ao refresh como analgésico para tudo o resto à sua volta, ao jeito de reflexo mecânico.

É um caminho sem retorno? Não sei, mas vou fazer refresh para ver se algures daí surge uma resposta.

Preto e branco a la Jonathan Glazer

Ainda antes de trabalhar em publicidade já via anúncios. Mas, como tudo o que se torna alvo de defeito de observador profissional, é natural que os visse de forma diferente mas não sei bem ao certo de que forma os via e também não há maneira de ir ao passado perguntar-me essas questões.

Contudo, há algo que sei, no cruzamento entre a estética e o valor da história há coisas que me ficam para sempre na cabeça. E do Jonathan Glazer é muito difícil que me esqueça, mesmo que ele agora ande a realizar filmes que não me seduzam particularmente. Tal como Spike Jonze ou Michel Gondry (com a diferença que estes dois têm carreiras cinematográficas mais consistentes), o tio Jonathan fez crescer a sua reputação a realizar videoclips e spots de publicidade. E este é possivelmente o primeiro de que me lembro:

Para mim é o cruzamento perfeito entre a metáfora que se tira do anúncio, a estética, a sonorização e a transposição entre aquilo que terá sido o guião e o trabalho do realizador a dar vida ao mesmo. E, com a nuance de preto e branco que a mim me delicia.

Quem estiver interessado, pode usar o link inicial para ver outros trabalhos, para vários gostos, cores e feitios. Mas, os que vos deixo nesta pequena colheita são todos a preto e branco a la Jonathan Glazer, como eu gosto de dizer.

Algures entre as seis e muito e as sete e picos

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Há uma espécie de limbo em que se vive nos segundos que se sucedem ao toque do despertador, no qual se trava uma batalha. Há quem goste daquela alegoria do diabinho e do anjinho, cada qual puxando a brasa à sua sardinha, um deles dizendo “só mais cinco minutos” (ou, em situações desesperadas, “só mais uma hora”) e o outro tentando despertar o nosso lado racional expondo-lhe tudo o que há para fazer e as razões pelas quais ficar na cama não é uma solução viável. É uma negociação constante, à qual cada um junta as suas nuances de personalidade para temperar a coisa.

No meu caso o tabuleiro de jogo, nesses segundos/minutos de limbo, tem outros personagens que não o típico “eu diabinho, vestido de lycra vermelha com um tridente maroto e uns corninhos” e o “eu anjinho, com uma túnica à Andanças e umas asas de anjo amarfanhadas nas costas”. E são eles:

 

O sindicalista – Reivindica sempre mais para ti na relação com a tua cama. Seja porque tu mereces mais descanso, mais sono ou mais…cenas que se adequam ao cenário. Além disso, combate os argumentos dos outros dois com palavras de ordem contra o patronato, contra os excessos do desporto, sem em prol dos direitos do corpo, do espírito e do teu bem-estar. Tal como alguns sindicalistas do mundo real, a sua força reside mais na repetição veemente dos argumentos do que na justificação dos mesmos.

O moralista – Este sabe que dificilmente conseguirá estabelecer um argumento racional quando a consciência ainda só está semi-desperta, há possíveis vestígios de baba na almofada e a inércia é rainha e senhora. Como tal, o moralista aponta mais para a frente, compreendendo sempre que esta é uma fase difícil, mas que se tirar o cu da cama daqui a meia hora vai saber mesmo bem estar a correr com as ruas ainda vazias ou que vai ser espectacular tomar o pequeno almoço em casa em amena cavaqueira em vez de fazer como as hordas bárbaras que atafulham elevadores empresariais com sacos de papel e copos de plástico. O moralista é compreensivo mas por vezes chato, pois fala sempre do futuro num palco do presente.

O contabilista – Acima de tudo, tenta ser isento e negoceia em minutos e oportunidades. Através de fórmulas preparadas para serem compreendidas por indivíduos que não sabem bem se ainda estão a dormir ou se já acordaram, ele expõe cenários que se vão alterando conforme adias ou adiantas uma decisão. Vais ter X minutos, se fizeres Y dentro de Z, caso contrário segundo a raiz da besta quadrada que estás a ser, sobram-te T minutos que não vão chegar para L cenas. Sabendo que sou um gajo de letras, mas que adora teorias de custo de oportunidade, etc, ele planeia cenários à medida da evolução das coisas, sabendo que despertar o meu interesse é despertar-me e exagerar nos números é dar-me sono.

 

Consoante as horas, os dias ou momentos, varia o formato das suas apresentações. Às vezes, sabendo que não há tempo a perder, falam todos ao mesmo tempo, tentando fazer valer os seus predicados. Noutras alturas é tipo apresentação sequencial, com direito a Powerpoint (Keynote para os mais criativos) de apresentação e tudo. E dias há em que um ou outro estão de folga, deixando para os restantes o direito ao limbo onde tudo se decide ao nível do despertar, muitas vezes algures entre as seis e muito e as sete e picos.

Nascer em Agosto

Habituei-me a nascer em Agosto e, desde então, tornou-se algo costumeiro renascer por estes dias finais de um mês que é mais associado a férias e a silly season do que a outra coisa qualquer. Digo renascer em vez de comemorar/festejar aniversários porque um tipo tem que ser hipster em qualquer coisa para não se atrasar em relação ao pessoal da frente e, assim sendo, toca de escolher um conceito alternativo para o dia que me diz respeito.

Primeiro que tudo, não se trata de uma cena espiritual ou a cheirar a incenso e yoga. Como bolo de aniversário como toda a gente, estou com amigos e família quando tal se proporciona e, ocasionalmente, até festejo à bruta e cometo excessos.

Também não se trata de uma cena dramática “estilo criancinha de Agosto”, habituada a fazer anos nas férias, onde a maior parte das pessoas estão longe, não há escola e os aniversariantes, tristes e isolados na casa dos avós, vão para um qualquer promontório ventoso usar um canivete enquanto se dedicam a esculpir pequena figuras que tanto podem ser da mitologia nórdica como de um Happy Meal.

Basicamente este renascimento é um balanço (também sem carga de resolução de Ano Novo, a cheirar a champanhe, passas e falta de memória duas semanas mais tarde). E este balanço trata de tentar cortar com o que foi nocivo ou me puxou para trás ao longo do último ano e decidir, de forma realista onde vou estar daqui a um ano, quando toda a gente for de novo ao Facebook dizer que sou o maior e me cobrem de beijos e likes de parabéns.

Não se trata só de correr mais 10kms, escrever finalmente algo de mais consistente , abanar a árvore do humor ou se é legítimo entender certas saudades como coisas do passado ou  se são para manter como recordações para o futuro. É apenas tentar pensar que ingredientes são precisos para fazer uma receita que, daqui a um ano, seja o mais positiva possível.

Às vezes 90% dos ingredientes são iguais aos do ano passado, noutros casos é metade/metade e noutros deixa ver. Não me preocupo muito com isso, afinal de contas nasci em Agosto e estou habituado a ser paciente até às coisas começarem finalmente a mexer. Este fim de semana que passou foi só o alinhar dos ponteiros.

A angústia da lista de Scorsese

Li no Público que Martin Scorsese respondeu ao pedido de um jovem entusiasta/estudante de cinema que lhe pediu indicações de filmes para melhorar a sua “educação cinematográfica” com uma lista.

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Sabendo que as listas têm o problema que têm – podem sempre ser acusadas de redutoras, que lhes falta isto ou que lhes escapou aquilo, são uma visão parcial de uma área rica e gigantesca como o cinema – esta lista causa-me alguma angústia.

Não tenho ambição de cinéfilo-mor, mas sou uma pessoa que lhe dedica bastante tempo. Infelizmente fiquei recentemente sem o amigo a quem mais recorria e a quem reconhecia um saber muito acima da média nessa área, com o bónus essencial de que não era elitista ou centrado unicamente em panoramas intelectuais ou “filmes que fica bem dizer que se viu”. O que quero dizer com isto é que, compreendendo perfeitamente a recomendação de Scorsese, focada no cinema europeu e japonês, indo buscar às raízes e fazendo com que o filme mais recente dessa lista seja quase da minha idade – algo que faz pleno sentido para um jovem americano à procura de referências.

Devo ter visto talvez pouco mais de um terço dessa lista, contudo fico essencialmente angustiado não porque me faltam ver cerca de dois terços, mas porque acho que me falta ver muito mais. Se tiver em conta todo o universo anglófono para trás de 1979 que falta na lista e a mim, para não falar nos europeus que ali faltam e depois somar o boom de produção cinematográfica a partir dos anos 80 no mundo inteiro, lá vem a constatação que na volta devemos ficar contentes por termos acesso a uma poule microscópica, para não ficarmos deprimidos pela vastidão do que nos escapa.

E é por essa mesma razão que aqueles livros de 1001 cenas para fazer/ver/ler/ouvir antes de morrer, incluindo os que lá estão em casa, me deixam cada vez mais raivoso. Obrigadinho Scorsese, que bela prenda me arranjaste.

Quando Murphy vai à mesma loja que tu

Large group of people waiting in line

Para quem tenha problemas com a autoridade, ter que olhar com respeito para uma grandeza ao género da Lei de Murphy não é algo agradável. É por isso que tento não lhe dar demasiada importância, deixando que vença as suas batalhas, mas nunca lhe declarando guerra. No entanto, há situações em que fico sempre com a noção que devia quebrar esse princípio, nomeadamente quando recorro a lojas/serviços que só uso de longe em longe.

Aqui há uns dias tive que ir a uma reprografia, para verificar e recolher um trabalho simples que lá tinha sido encomendado. Ao aproximar-me da entrada vejo que está uma pessoa a ser atendida e, pela forma como manuseia tshirts parece estar em processo um orçamento de impressão. Nada está perdido, pois há outro funcionário disponível e, se eu for o próximo a entrar sou atendido de imediato. O problema é que se aproxima outra figura pela direita e, só de olhar para ela – homem na casa dos 50 e tal, pasta de couro antiga e ar cansado, parece-me do género que ainda envia faxes e faz do mais simples trabalho uma tarefa hercúlea.

Tenho duas opções: acelero descaradamente, ultrapassando-o à bruta e garantindo uma passagem rápida e eficaz pela loja ou então mantenho o modo tranquilo, deixo o homem da pasta de couro entrar à minha frente e espero que o universo me recompense pela minha postura.

Deixei que o anjinho no meu ombro falasse mais alto e foi isso mesmo que fui – anjinho.

A senhora das tshirts lá continuava, pedindo orçamentos, exemplificando modelos imaginários com os braços e a coisa prometia não ficar por ali. Assim que o homem da pasta de couro a abriu, vi logo o tormento nos olhos do funcionário da loja que se reflectia também na minha paciência. De lá iam saindo molhos, molhinhos e molhadas de folhas, presas com clips e pequenas notas manuscritas a acompanhá-las. Como se de novos mandamentos se tratassem, o senhor lá iam dizendo “É para digitalizar tudo em PDF. Mas atenção às notas escritas, pois há folhas do molho A que depois devem também acompanhar o molho B e depois tem que se aplicar o mesmo ao C, D e E. Também tem que ver que…”

O rapaz da loja interrompeu-o e eu pensei que lhe ia dizer, venha apenas na sexta, entre as 10 e as 11, que é o nosso horário especial para trabalhos que não lembram ao demónio. Mas não, pediu-lhe apenas clemência e para lhe ir passando a tarefa molho a molho.

Observei o cenário à minha frente e vi nitidamente Murphy a rir-se para mim, pelo meio de prints em tshirts e papelada infinita a espreitar numa pasta de couro. Depois fiz o que toda gente hoje em dia faz – enterrei a cara no telemóvel e tentei procurar coisas interessantes para fazer esquecer a seca que ia passar.

O tempo passou, mais de vinte minutos dele, finalmente foi a minha vez, mas eu não esqueci. Aliás, aprendi também – na próxima até uma rasteira passo, para garantir que se o gajo das leis do fatalismo se quer rir, não sou eu que o vou ajudar a isso.

Músicas que não se explicam, sentem-se.

Entristece-me, mas não num sentido triste, deixa-me a pensar, sem que precise de perceber em quê e deixa-me um eco de um desafio qualquer que me faz cerrar os lábios.

Por um conjunto de factores explicáveis ou não,  esta versão ao vivo, com o bónus da imagem causa em mim esse efeito. Nunca me preocupei em querer analisar ou racionalizar a coisa. Quando me apetece, oiço e pronto.

 

Acho que às vezes as coisas, só por si, são suficientes. Sem necessidade de conclusões ou morais da história.

O epílogo do meu telemóvel

As novas tecnologias, para além de tudo o mais, trouxeram também novos dramas. Por exemplo, tivemos que aprender a dizer adeus aos nossos telemóveis quando eles passam aquela fronteira da usabilidade para um ponto de não retorno. Ou, em linguagem de pessoa normal, quando se rebentam todos e não há forma de os salvar.

Há casos em que a culpa é do equipamento e do facto de muito pouca coisa nos dias de hoje ser feita para durar. Mas, não raras vezes, a culpa é nossa e isso aumenta a angústia, pois geram-se perfeitos episódios dignos de noticiários da TVI, com afogamentos na sanita, atropelamentos e fuga e saltos para um fim inevitável, muitos metros abaixo do ponto de partida.

A mágoa surge, era um companheiro de várias horas, tinha lá tantas fotos e mensagens que davam para fazer livros ou novelas de cariz deveras modernos. Surgem as soluções milagrosas, as juras que um pacote de arroz é a salvação e que há um tipo no Centro Comercial Babilónia na Amadora que traz telemóveis de volta à vida. Há decerto quem tente de tudo e decerto com alguns resultados paranormais.

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Zé Smartphone na sua última foto antes de ser trucidado por uma Moto Quatro à beira-mar.

 

No meu caso, não tendo tempo para floreados, passo de imediato às linhas que traduzem o epílogo do meu telemóvel há uns quantos dias:

 

Indivíduo vai de férias para destino balnear, com pouca vontade de andar com coisas nos bolsos.

Os calções de banho, contrariando-o, têm bolsos e é ai que a mini-carteira e o telemóvel passam a residir durante a semana.

Até ao último dia tudo corre bem. Os artefactos da civilização avançada saem do bolso quando o indivíduo vai a banhos e tudo corre como previsto.

No último dia, o indivíduo resolve mostrar a razão pela qual já foi craque de ténis de mesa. Não a conseguindo encontrar, indivíduo sua apenas de um lado para o outro da mesa, culpando a raquete por muita ferrugem e alguma inépcia.

Depois deste regabofe, o indivíduo resolve ir mergulhar na piscina, fazendo o descanso do guerreiro em dia de despedida.

Belo estilo de mergulho, braçada vigorosa, apneia de eleição e, passados cinco minutos, algo a vibrar no bolso.

Indivíduo fica maravilhado – “Fogo, o meu telemóvel está a tocar depois de cinco minutos dentro de água”.

Duas centésimas de segundo depois, indivíduo apercebe-se do seu acto ignóbil e sai da piscina qual foca em fuga de tubarão. O telemóvel não estava a vibrar, era apenas a bateria a descarregar depois daquele banho de água e cloro.

Lembra-se então que também mergulhou com a carteira. Tem agora a escorrer uma tosta mista de documentos e dinheiro.

O conteúdo da carteira seca, mas esta não sobreviverá à viagem.

Telemóvel regressa a casa, mas sem grande esperança de sobrevivência. Indivíduo conta agora episódio como se fosse uma anedota que não lhe faz doer o coração.

É declarado o ponto final do telemóvel, depois de várias tentativas.

Indivíduo conforma-se com a situação e crava emprestado um aparelho para não ficar desligado do mundo.

Indivíduo procura um cantinho por debaixo de uma antena de telecomunicações na mata para se despedir do seu fiel amigo.

O pior está para vir – indivíduo faz anos daqui a poucos dias. Não tem contactos de 85% das pessoas que antes constavam da sua lista. Começa a preparar um longo circo de telefonemas, circo e tentativas de adivinhar quem fala antes que alguém dê por isso.