Roubaram-me um bocadinho do coração e eu só consigo escrever

Hoje desapareceu alguém que considero um grande amigo. Digo “considero” porque ainda me recuso a falar dele no passado e acho que há coisas que transcendem os limites que a vida e a morte criam.

Hesito sempre quando se trata de partilhar aquilo que realmente mexe comigo face ao que é a espuma dos dias nas redes sociais. Mas é a escrever que sempre consegui expressar melhor o que me vai na alma e se o faço neste caso é porque penso que se a amizade é um valor que devia guiar o que nos liga nestes meandros, então são os verdadeiros amigos que merecem os verdadeiros gestos, mesmo que derradeiros e que não seja possível vê-lo responder aos mesmos com um comentário do género “Com essa prosa de biltre não vais longe puto”.

Conheço-o há mais de 25 anos, crescemos a três prédios e um toque de campainha de distância e se houve coisa que a nossa convivência me ensinou foi que a empatia instantânea é uma espécie de fórmula mágica que não se cria, vive-se. Foi por isso que ao longo dos anos, mesmo que estivéssemos separados semanas ou até meses, bastava uma hora juntos para parecer que a última vez tinha sido no dia anterior. Gostos comuns, parvoíces comuns e um conjunto de ligações que foram crescendo e amadurecendo connosco, temperadas com aquele toque especial de crianças grandes que na realidade sempre fomos. Viessem mais 25 ou 50 anos e eu diria que tudo continuaria assim, como se só uma moldura feita de cabelos brancos e crianças a brincar juntas fossem mudando os contornos à nossa volta.

Uma coisa que sempre reconheci ao meu amigo R. era daquelas coisas que quem o conheceu sabe que era impossível de fingir, pois a sua intensidade para com aquilo que o apaixonava impressionava desde o primeiro momento. Fosse o Belém, uma discussão sobre cinema, o quiz ou os reflexos maiores dessa faceta, na forma da família e do pequeno grande campeão que é o seu filho.

Por isso e por muito mais, gostava de te poder dar mais um calduço e dizer-te para trabalhares menos e zarpares para casa, pois sei bem que por vezes contavas os minutos até estares com o teu puto e a tua mulher. De te puxar para os projectos que fomos sempre adiando, mas que nunca deixámos de discutir. De te contar mais um trocadilho ou uma piada tosca, só para te ouvir rir, com aquele ar de puto malandro e dizer “És tão estúpido”, sabendo que era disso mesmo que nós gostávamos. Mas tudo isso sou eu, que sou egoísta e sei bem que não precisaria de nada dessas coisas se soubesse que estavas junto dos teus, ocupado a ser feliz e que talvez daqui a uma ou duas semanas me dissesses qualquer coisa. Nunca tivemos horas marcadas, não havia de ser agora que iríamos começar.

Como sempre, escrevi demais e infelizmente já passou demasiado tempo para ainda poder acreditar que se trata de um pesadelo ou da pior piada de mau gosto de todos os tempos. De bom grado gostaria que assim fosse e de o ouvir dizer “Lello, que grande testamento. Não há pachorra para ler uma coisa assim”. E, uma vez mais, terias toda a razão.

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Um pensamento sobre “Roubaram-me um bocadinho do coração e eu só consigo escrever

  1. tenho a certeza do que digo, sendo que sei bem como um se sente quando um amigo é assim ceifado sem milagre de retorno.Pelo que não há palavras e poucos gestos, além de lidar com o luto a seu tempo e forma, como tu aqui, escrevendo ou correr e correr sem parar. Nada nem ninguem o substitui, mas estamos aqui para ti.

Tens a certeza disso que dizes?

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