Tempo não é dinheiro. É algo melhor.

A expressão “tempo é dinheiro” cada vez menos me faz sentido. Tempo não é dinheiro, é algo melhor e é também a essência de algo maior. Até que finalmente me apresentem uma agência de viagens no tempo funcional a minha noção é que há sempre hipótese, mesmo que ínfima de recuperar dinheiro que se perdeu ou ir buscá-lo onde antes não havia. Já o tempo, não é bem assim, tempo perdido não se volta a ganhar e tempo que não houve não se volta a repetir, no limite tenta-se “compensar”.

Vivemos cada vez mais numa sociedade movida pelo consumo e “é natural” (quando devia ser ser tudo menos isso) que troquemos o tempo que não vamos voltar a ter por momentos perdidos, a par de oportunidades e necessidades de consumo e que, em consequência disso, tenhamos que dispender ainda mais tempo em actividades que nos permitam sustentar isso mesmo.

E o que é que isso quer dizer? Vais criar um novo modelo social a meio de Agosto?

Longe de ter capacidade para isso, disponho-me apenas a lutar cada vez mais pelo equilíbrio saudável no que ao uso do meu tempo diz respeito. E é uma luta que já começou, não é algo que “lá mais à frente eu compenso”, “que se há de ver como vai ser” ou que “a ver se depois se arranca com isso”. E não é também o resultado de uma epifania perante mais uma prova da fragilidade humana. Quanto muito, estes últimos dias apenas me ensinaram que tempo para balanços e rectificações é coisa a que nem todos têm direito e não há livro de reclamações para isso.

Deixamos demasiadas coisas para amanhã, contentamo-nos com minutos quando devíamos agarrar horas e dias. E o pior de tudo isto? O facto de o fazermos a troco de algo menor, muitas vezes na forma de recompensas efémeras, o deixa andar da espuma dos dias ou noções erradas de dever e lealdade que não espelham a realidade, a menos que seja uma à imagem dos reflexos distorcidos da Casa dos Espelhos.

Desconheço em absoluto aquilo a que dão valor ou as coisas que gostavam de fazer, mas para as quais nunca parece haver tempo. Seja escalar o Kilimanjaro, transformar linhas de chat num encontro feito de conversas ao vivo ou, simplesmente, converter o “estou atrasado” de todos os finais do dia num “hoje vou chegar mais cedo”, cada um sabe o que lhe dá vontade de agarrar os ponteiros e não deixar o tempo passar.

Sei apenas que tempo vale muito mais dinheiro. E quanto depressa perceberem isso e, mais importante do que perceber, agirem em conformidade com essa noção, menos arrependimentos terão se um dia lá mais à frente tiverem tempo de olhar para trás e perceber que ele, de facto, não volta para trás.

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3 pensamentos sobre “Tempo não é dinheiro. É algo melhor.

  1. mesmo, “tempo é dinheiro” é uma expressão enviesada. Mas acho que o problema talvez não seja tanto a forma como olhamos para o tempo, ou o problema do “consumo”, mas mais nas concepções de trabalho e “produtividade” da sociedade actual. Muitas das pessoas que conheço (não todas), e que se queixam da falta de tempo, não as vejo a perder horas de vida num shopping, mas sim no trabalho. claro que isto varia de pessoa para pessoa, e claro que vai tudo entroncar à noção de uma sociedade focada no capital, no trabalho, no consumo, onde existe toda uma indústria que nos quer fazer convencer que sem o carro certo não passamos de falhados sem aspirações maiores… mas também há actividades de consumo que eu não considero perdas de tempo, como comer uma boa refeição, ir ao cinema ou fazer piões num descampado.

    Depois e é aqui que acho que a coisa se complica verdadeiramente, sinto hoje em dia começamos a ter outro problema, que é muitos de nós já nem temos o luxo de poder decidir “perder” mais tempo só porque queremos comprar um carro TDI. Numa sociedade em que um emprego é um bem escasso, e não sabemos se o podemos perder daí a um mês, ou se no ano a seguir nos cortam 20% do ordenado, ou se o cretino do nosso chefe começar a insinuar que nos despede quando trabalhamos menos de 60 horas por semana etc.etc, isto vai logo chocar com o resto da realidade que tem contas fixas e obrigações.

    Acho muito interessantes estes debates mais recentes ao redor de noções de rendimento básico garantido, semanas reduzidas, etc; a nossa forma de organizar o trabalho, sobretudo em sociedades ricas parece-me francamente desajustada. Era suposto termos carros voadores, hoverboards, e semanas de três dias. Até agora nada.

    • André, começando pelo final do teu comentário, a chave é um bocado esta “a nossa forma de organizar o trabalho, sobretudo em sociedades ricas parece-me francamente desajustada” e isso nasce nasce, a meu ver, exactamente dessa noção da escassez do emprego face aos nossos custos fixos e obrigações (e também aos nossos desejos de consumo, sejam eles estimulados ou não). O empregador controla o poder e uma combinação entre sentido de responsabilidade, dedicação exacerbada e medo, entre outros, fazem o resto. A isso junta-se muita falta de criatividade (para não dizer vontade e/ou preocupação) do lado da maior parte das chefias, que há muito tempo já deviam estar a usar medidas de recompensa em termos de flexibilidade de horário, tempo, mobilidade e por aí em diante. Não digo que não existam os que o fazem mas, na maior parte, as organizações estão mais preocupadas em sugar tempo a quem lá está e até socialmente em muitas empresas o gajo que “se limita” a cumprir o horário e sair a horas, é olhado de lado. Há ainda a tendência das pessoas para assumirem os problemas da empresa como seus (por vezes receando pelo seu futuro), ao passo que o contrário é uma raridade tipo cometa Halley.

      Se sairmos deste espectro, entre trabalho e repouso (e dormir 5 horas por noite não é, a médio prazo, suficiente), já não sobram tantas horas assim por dia. E eu continuo a achar, em relação a esta história de “ter tempo” que nós pensamos sempre que vamos ter tempo ou que se tem que arranjar tempo, mas muitas vezes o que se disponibiliza é um sacrifício e não uma troca justa. Contra mim falo, que estou aqui agora porque me apetece, mas depois disto ainda vou fazer ter que aviar uns frangos que devia ter despachado há duas horas, mas quis ir correr, jantar com um pouco de calma, ver um pouco do Lago dos Tubarões e agora estou a ver que precisava mesmo de ir descansar um bocado à meia noite e se calhar isso não vai ser bem assim.

      Só por causa disso é que deixo só este comentário curtinho 🙂

  2. exacto, claro que não é uma troca justa, sobretudo se queres construir uma sociedade de pessoas equilibradas, felizes e saudáveis. mas a minha questão “estruturalista” do tema, e que assenta na tal ideia de trabalho que nós temos e que foi construída ao longo de muitos séculos, vai desembocar exactamente neste ponto: esta conjunção de desemprego elevado e pessoas sobrecarregadas com trabalho é um fenómeno que parece ser algo inédito na história, e a solução tem de ir muito além dos gestores ou hábitos de consumos, o que seja, e tem mesmo de passar por uma mudança mais profunda na forma como organizamos o trabalho, tal como semanas de 4 dias de trabalho, rendimento basico garantido, ou outras que garantam mais emprego, e mais tempo livre em geral, etc. O problema é que a ideia de que as pessoas possam passar a ter mais tempo para estar com a familia, ou recebam um minimo de dinhero para viver com dignidade, parece ser uma afronta cultural na cabeça de muitas pessoas. Depois também há os workaholics, mas esses, do que conheço, não se queixam.

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