O Senhor Abel compra corações usados

Uma vez por semana lá está ele a percorrer as ruas do bairro, com um molho de papel nas mãos e outro tanto na sacola. Sempre de casaco e camisa, esta última não raras vezes às riscas, diz ele que por andar todo o dia na rua não tem de se vestir como se vivesse nela.

A cada quatro ou cinco passos, o gesto do Senhor Abel é automático, debruça-se levanta a escova do vidro traseiro do carro e deixa lá o seu pequeno folheto impresso. No vidro da frente não? Não, no vidro da frente as pessoas muitas vezes já nem olham, arrancam e pronto e olhem que ele já viu quem consiga fazer isso com o carro em andamento. Além disso, diz o Senhor Abel com um sorriso tímido, as pessoas que podem estar interessadas passam mais tempo a olhar para trás, coisas da vida diz ele enquanto coloca mais um folheto.

Ler um dos folhetos é fácil, poucas linhas, tipo de letra quase infantil e gigante, como se a importância se revelasse em função do tamanho da letra. Eis o que lá diz:

 

Compro corações usados.

Compro todo o tipo de corações usados, com ou sem garantia, partidos pelo desgosto, cansados da vida, vítimas do amor e por aí em diante. Só trato com o próprio.

Pago na hora e não faço perguntas.

Ligar para o senhor Abel – XXX XXX XXX

 

Mas esse negócio é coisa que exista? Há quem esteja disposto a isso? O Senhor Abel diz que sim, acena a cabeça e aponta a linha onde diz não faço perguntas. Quero saber como é possível dar um preço a algo como um coração, ainda que usado. Ri-se novamente o Senhor Abel, diz que viver sem coração, livre de tudo o que este possa causar e sem pensar duas vezes no que este oferece, para alguns é um preço justo.

Desconfio do negócio, mas o Senhor Abel não quer saber, o telemóvel está a tocar. Parece que alguém com urgência, um caso de sofrimento. São os negócios mais rápidos, diz-me ele depois de desligar. Pergunto-lhe o que faz com os corações usados e ele encolhe mais uma vez os ombros, “Ajudo a vida a resolver-se, quando outros não resolvem a sua vida”.

Não sei o que isso quer dizer, mas não creio que para ele isso tenha grande importância. A rua ainda é comprida e há muito carro estacionado à espera do folheto do Senhor Abel, o tal que compra corações usados.

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