É cada vez mais difícil lembrar o que não se quer esquecer

remember

Numa altura em que possuímos cada vez mais dispositivos e tecnologia com capacidade para nos ajudar a lembrar de coisas, a verdade é que o esquecimento faz cada vez mais parte das nossas vidas.

Talvez seja o facto de o tempo não ter esticado e não faltarem estímulos à nossa volta que nos obrigam a dispersar a nossa atenção, mas o que vejo é a constante queixa de gente que ainda está longe da idade em que isso poderia ser natural a dizer coisas como “Já não me consigo lembrar de nada”, “Esta cabeça já não fixa o que quer que seja” ou “Onde é que foi/deixei/conheci/falei qualquer coisa que pode ir do filme que se viu ontem, às chaves do carro ao nome daquela pessoa que em tempos foi tão essencial”.

Pode ser que nos seja cada vez mais difícil levar coisas da memória de curto prazo para a de longo prazo porque o disco está cheio ou isto já não era como dantes e não dá para comprar uns 800Gigas extra para colocar atrás da orelha.

Pode ser das falhas de concentração, do cansaço, da camada do ozono ou do aquecimento global, isto para não falar de tantas coisas que já nem me lembro. Se calhar é pura e simplesmente a nossa consciência das coisas que está a mudar.

Hoje em dia não me assusta esquecer-me de uma coisa, dado o cenário global isso é perfeitamente possível até para quem como eu se orgulha de se recordar de coisas que não interessam nem ao menino Jesus. Mas o que fica é aquela sombra de “E se isto não foi só uma coisa? E se isto foi o princípio do fim da minha memória? E se, em vez de correr, esquecer passar a ser o meu desporto de rotina?”.

A verdade é que a nossa percepção de memória está a mudar e, creio eu, cada vez mais cedo cedemos à preguiça da resolução rápida ao exercício do estímulo. Usamos o Google como muleta em discussões, desenterramos em discos, pastas e dvd’s, fotos acumuladas de férias passadas só para termos certezas para além da primeira, que é nunca termos arranjado tempo para as vermos antes.

As coisas já não caem no esquecimento, são comodamente embaladas no mesmo com a esperança de que ninguém se esqueça de lá colocar um rótulo para um dia as irmos lá buscar se tal for preciso.

E, no final de contas, continuo a acreditar que esquecer algo é cada vez mais perfeitamente natural, reflexo da forma como estamos cada vez mais rodeados (e por vezes enebriados) de estímulos, necessidades e preocupações. Menos natural será nem sequer ter a vontade de nos lembrarmos que há certas coisas que valem o esforço de não as querer esquecer e/ou fazer o caminho mais duro para que isso aconteça.

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