O epílogo do meu telemóvel

As novas tecnologias, para além de tudo o mais, trouxeram também novos dramas. Por exemplo, tivemos que aprender a dizer adeus aos nossos telemóveis quando eles passam aquela fronteira da usabilidade para um ponto de não retorno. Ou, em linguagem de pessoa normal, quando se rebentam todos e não há forma de os salvar.

Há casos em que a culpa é do equipamento e do facto de muito pouca coisa nos dias de hoje ser feita para durar. Mas, não raras vezes, a culpa é nossa e isso aumenta a angústia, pois geram-se perfeitos episódios dignos de noticiários da TVI, com afogamentos na sanita, atropelamentos e fuga e saltos para um fim inevitável, muitos metros abaixo do ponto de partida.

A mágoa surge, era um companheiro de várias horas, tinha lá tantas fotos e mensagens que davam para fazer livros ou novelas de cariz deveras modernos. Surgem as soluções milagrosas, as juras que um pacote de arroz é a salvação e que há um tipo no Centro Comercial Babilónia na Amadora que traz telemóveis de volta à vida. Há decerto quem tente de tudo e decerto com alguns resultados paranormais.

Tech-on-Vacation-phone

Zé Smartphone na sua última foto antes de ser trucidado por uma Moto Quatro à beira-mar.

 

No meu caso, não tendo tempo para floreados, passo de imediato às linhas que traduzem o epílogo do meu telemóvel há uns quantos dias:

 

Indivíduo vai de férias para destino balnear, com pouca vontade de andar com coisas nos bolsos.

Os calções de banho, contrariando-o, têm bolsos e é ai que a mini-carteira e o telemóvel passam a residir durante a semana.

Até ao último dia tudo corre bem. Os artefactos da civilização avançada saem do bolso quando o indivíduo vai a banhos e tudo corre como previsto.

No último dia, o indivíduo resolve mostrar a razão pela qual já foi craque de ténis de mesa. Não a conseguindo encontrar, indivíduo sua apenas de um lado para o outro da mesa, culpando a raquete por muita ferrugem e alguma inépcia.

Depois deste regabofe, o indivíduo resolve ir mergulhar na piscina, fazendo o descanso do guerreiro em dia de despedida.

Belo estilo de mergulho, braçada vigorosa, apneia de eleição e, passados cinco minutos, algo a vibrar no bolso.

Indivíduo fica maravilhado – “Fogo, o meu telemóvel está a tocar depois de cinco minutos dentro de água”.

Duas centésimas de segundo depois, indivíduo apercebe-se do seu acto ignóbil e sai da piscina qual foca em fuga de tubarão. O telemóvel não estava a vibrar, era apenas a bateria a descarregar depois daquele banho de água e cloro.

Lembra-se então que também mergulhou com a carteira. Tem agora a escorrer uma tosta mista de documentos e dinheiro.

O conteúdo da carteira seca, mas esta não sobreviverá à viagem.

Telemóvel regressa a casa, mas sem grande esperança de sobrevivência. Indivíduo conta agora episódio como se fosse uma anedota que não lhe faz doer o coração.

É declarado o ponto final do telemóvel, depois de várias tentativas.

Indivíduo conforma-se com a situação e crava emprestado um aparelho para não ficar desligado do mundo.

Indivíduo procura um cantinho por debaixo de uma antena de telecomunicações na mata para se despedir do seu fiel amigo.

O pior está para vir – indivíduo faz anos daqui a poucos dias. Não tem contactos de 85% das pessoas que antes constavam da sua lista. Começa a preparar um longo circo de telefonemas, circo e tentativas de adivinhar quem fala antes que alguém dê por isso.

 

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