Algures entre as seis e muito e as sete e picos

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Há uma espécie de limbo em que se vive nos segundos que se sucedem ao toque do despertador, no qual se trava uma batalha. Há quem goste daquela alegoria do diabinho e do anjinho, cada qual puxando a brasa à sua sardinha, um deles dizendo “só mais cinco minutos” (ou, em situações desesperadas, “só mais uma hora”) e o outro tentando despertar o nosso lado racional expondo-lhe tudo o que há para fazer e as razões pelas quais ficar na cama não é uma solução viável. É uma negociação constante, à qual cada um junta as suas nuances de personalidade para temperar a coisa.

No meu caso o tabuleiro de jogo, nesses segundos/minutos de limbo, tem outros personagens que não o típico “eu diabinho, vestido de lycra vermelha com um tridente maroto e uns corninhos” e o “eu anjinho, com uma túnica à Andanças e umas asas de anjo amarfanhadas nas costas”. E são eles:

 

O sindicalista – Reivindica sempre mais para ti na relação com a tua cama. Seja porque tu mereces mais descanso, mais sono ou mais…cenas que se adequam ao cenário. Além disso, combate os argumentos dos outros dois com palavras de ordem contra o patronato, contra os excessos do desporto, sem em prol dos direitos do corpo, do espírito e do teu bem-estar. Tal como alguns sindicalistas do mundo real, a sua força reside mais na repetição veemente dos argumentos do que na justificação dos mesmos.

O moralista – Este sabe que dificilmente conseguirá estabelecer um argumento racional quando a consciência ainda só está semi-desperta, há possíveis vestígios de baba na almofada e a inércia é rainha e senhora. Como tal, o moralista aponta mais para a frente, compreendendo sempre que esta é uma fase difícil, mas que se tirar o cu da cama daqui a meia hora vai saber mesmo bem estar a correr com as ruas ainda vazias ou que vai ser espectacular tomar o pequeno almoço em casa em amena cavaqueira em vez de fazer como as hordas bárbaras que atafulham elevadores empresariais com sacos de papel e copos de plástico. O moralista é compreensivo mas por vezes chato, pois fala sempre do futuro num palco do presente.

O contabilista – Acima de tudo, tenta ser isento e negoceia em minutos e oportunidades. Através de fórmulas preparadas para serem compreendidas por indivíduos que não sabem bem se ainda estão a dormir ou se já acordaram, ele expõe cenários que se vão alterando conforme adias ou adiantas uma decisão. Vais ter X minutos, se fizeres Y dentro de Z, caso contrário segundo a raiz da besta quadrada que estás a ser, sobram-te T minutos que não vão chegar para L cenas. Sabendo que sou um gajo de letras, mas que adora teorias de custo de oportunidade, etc, ele planeia cenários à medida da evolução das coisas, sabendo que despertar o meu interesse é despertar-me e exagerar nos números é dar-me sono.

 

Consoante as horas, os dias ou momentos, varia o formato das suas apresentações. Às vezes, sabendo que não há tempo a perder, falam todos ao mesmo tempo, tentando fazer valer os seus predicados. Noutras alturas é tipo apresentação sequencial, com direito a Powerpoint (Keynote para os mais criativos) de apresentação e tudo. E dias há em que um ou outro estão de folga, deixando para os restantes o direito ao limbo onde tudo se decide ao nível do despertar, muitas vezes algures entre as seis e muito e as sete e picos.

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2 pensamentos sobre “Algures entre as seis e muito e as sete e picos

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