O meu alter ego nos dias difíceis

Quando o trabalho se acumula, a tensão ameaça fazer explodir meio mundo e o tempo parece passar três vezes mais depressa do que eu gostava, muitas vezes transformo-me em algo assim:

conan

 

 

Obviamente, não me refiro ao Conan do tio Arnold, mas sim ao cavalo da esquerda que, com um ar abatido, mediante o peso das circunstâncias, mesmo que se sinta desanimado enfrentará as circunstâncias e lidará com o destino, seja ele qual for.

Relincha porco.

Contas à vida

Uns multiplicam dramas, outros estão cada vez mais divididos, somam-se contrariedades e subtrai-se cada vez mais ao que já anda abaixo de zero.

Num país onde cada vez menos se percebe de matemática, como é que alguma vez as contas da vida haviam de bater certo?

O (des)conforto de certas bandas sonoras

Acabei recentemente de ver a primeira temporada de The Leftovers, mas sobre isso já falei com mais detalhe noutras paragens. O que me traz aqui é o facto da visualização da série me ter deixado no ouvido “Retrograde” de James Blake, aqui na versão ao vivo. 

Ora eu, que sou pouco dado a este tipo de música sofrida, acreditando que se é para misturar sofrimento e cantoria me basta abrir a boca e tentar cantar, acho-a no entanto bastante interessante. É muito provável que seja pelo facto de a ter absorvido através da série, nomeadamente no trailer onde o seu impacto está estudado ao pormenor para nos bater nos sítios certos.

Bem vistas as coisas, nada disto é novidade, o impacto da música no cinema e na televisão está mais que provado e é essencial para a sobrevivência de ambos. Contudo, afirmo eu enquanto tento reproduzir os uhh-uhhh-uhhhhs de James Blake, não me deixa de espantar a forma como o impacto dos conteúdos visuais nos levam a “adoptar” músicas e artistas a que muito normalmente torceríamos o nariz noutras circunstâncias.

A minha desmultiplicação prova que não sou bom a Matemática

Tanta coisa para escrever, entre trabalho e coisas próprias, que às vezes penso que me dava jeito um grupo de clones como os que o Michael Keaton tinha num filme deveras lamentável. Mas depois penso no grau de transtorno que clones meus iriam dar e penso que é melhor continuar a ser eu o único transtornado.

E isto serve para dizer o quê?

Simplesmente que, para além de tudo o mais, estou a contribuir (ou a tentar) para o andamento do Cardinal, com ajuda de uma rapaziada (e raparigada) que certamente alguns de vós podem reconhecer de outras paragens.

Portanto, para além de passarem por aqui, aproveitem e passem por lá. Há cultura pop, há desporto e espaço para coisa engraçadas de várias formas e espécies. E, é claro, há espaço para vocês.

A correr nem o rei da minha rua consigo ser

Das várias vezes que escrevi sobre a minha ligação com a corrida, deixei sempre bem claro – corro porque me dá gozo e, em termos de superação, corro porque gosto de (re)descobrir os meus limites. Não corro para perder peso, para me sentir enquadrado nas tendências, nem corro sequer como forma de doutrina quase religiosa da vida saudável.

Também é verdade que, para já, não me vejo a ir tão longe como este homem, que em menos de um ano passou da primeira maratona a uma ultra de 80kms Douro acima e abaixo, com todo o esforço, dedicação e preparação que isso exige se não nos queremos transformar em mortadela fatiada e estropiada, pelo menos de forma mais permanente.

Além disso, também não me vejo como outros amigos que tenho e que todas as semanas estão a fazer uma prova algures, sejam 40kms de Trail em Mogadouro, seja a Meia Maratona de Santiago do Cacém na semana a seguir. Gosto de ir escolhendo as minhas provas, espaçadamente, pois também me dá gozo a corrida sem objectivos competitivos.

No entanto, verdade seja dita, sou uma pessoa competitiva e já há algum tempo que uso a aplicação Strava para correr. Esta aplicação, de entre as milhentas que existem para auxiliar a controlar registos/ritmos/percursos de corredores, tem a vertente engraçada de definir segmentos dentro de cidades e locais e, dentro deles, eleger os melhores tempos dos corredores que por lá passam e que também usam a aplicação. Por norma, não forço a barra para subir nos rankings, se a coisa se proporcionar dentro de um treino normal, melhor ainda. Mas, há que confessar que já acelerei num segmento ou outro, só para ver até onde chegaria na tabela.

O problema, se é que há um problema, é que vivo e treino por norma numa área bastante populada em termos de corredores de boa cepa (Campo Grande – Cidade Universitária), o que torna virtualmente impossível sonhar com ser o “rei” de certos percursos. Se conseguir ser um peão ou uma torre no grande xadrez do tabuleiro de corrida já será uma sorte. Mas aceito a coisa com desportivismo, mesmo que às vezes jure “Este palhaço deve ter feito o percurso de bicicleta, a correr isto não é humano”.

Portanto, estou a pensar expandir-me e se porventura também usam o Strava e correm por Lisboa, por favor recomendem-me percursos, ruas, vielas ou becos, onde o corredor em 1º lugar tenha o ritmo de um idoso que se mova de andarilho. Já que não consigo ser o rei da minha rua, talvez me decida a ir gastar sola para outras freguesias.

Sei quem escolheu o teu toque de telemóvel

No Metro, uma senhora dos seus 50 e poucos anos vai em pé à minha frente. Começa a tocar um telemóvel com a cantilena “I don’t care, I love it” de Icona Pop e eu sei que não é o meu (sou mais elitista, tenho como toque “A morena do kuduro”, do José Malhoa).

A senhora tem um ar aflito e começa desesperadamente a procurar o seu telemóvel. Sim, Icona Pop vem do seu tamagochi, e ela tenta atender o mais rápido que possível. Vê-se que a preocupação é mais pelo toque do que pela conversa que se segue. Volta a guardar o telemóvel na mala.
Dois minutos depois, Icona Pop volta a dar-lhe forte e feio. O desespero da senhora repete-se e olha para mim. Faço aquele sorriso compreensivo que às vezes me faz pensar que podia ter tido uma carreira no clero. A minha estação aproxima-se e penso por segundos dizer-lhe “Nunca deixe que sejam os seus filhos a escolher o toque para o seu telemóvel”.

Mas depois penso, I don’t care…i love it.

E saio ao som de mais uma chamada de Icona Pop.

Tipos de pessoas que regressam de férias

Tenho a vantagem de estar de férias a escrever isto enquanto a chuva lá fora debita gotas de raiva e angústia na cabeça dos que regressaram esta semana ao trabalho (e, no geral, em todos os que já regressaram de férias). Este começo podia dar origem a comentários desdenhosos, sobre chuva, férias ou o conceito “estar a escrever sentadinho ao computador em dias de tempo livre” mas isso passa-me ao lado.

Contudo, gostava apenas de deixar umas breves notas sobre aqueles que considero os três grandes tipos de “regressados de férias” e o seu impacto no ambiente profissional em que se inserem:

O dramático-pessimista
É um caso estranho, pois por um lado estas pessoas ostentam o mau humor típico das crianças a quem retiraram o brinquedo favorito, neste caso as férias, mas o seu fluxo de conversa põe em relevo tudo o que correu mal, mais as desgraças e despesas que as suas férias geraram. É como se o negrume do regresso às lides, tivesse efeito retroactivos, mesmo que tenham sido três semanas, com viagens a destinos paradisíacos e por aí em diante, pois haverá sempre algo de mau a salientar. Como é óbvio, tornam-se instantaneamente chatos para quem os tem que ouvir.

O épico-extravasante
Pode ter apenas estado fora três dias, mas tem 800 fotos no Instagram, 228 posts no Facebook e horas de conversa consecutiva para mostrar que as férias foram épicas, tenham sido em Formentera, no Dubai ou em Armação de Pêra. O problema, para além da avalanche de momentos, de restaurantes, de spots e de cenas divinais, é que em virtude desse frenesim das redes sociais, nós já sabemos tudo o que queríamos e não queríamos sobre essas férias. E vamos ter que ouvir tudo de novo ou mostrar skills na arte da evasão social. Como seria de esperar, também se tornam quase instantaneamente chatos para quem os tem que ouvir.

O “já foram”
Trata-se da malta que responde com saudade e evita grandes descrições. “Já foram”, “Foi bom mas acabou-se”, “Serviram para aquilo que era suposto” são generalismos que usam para se escudarem de entrar em grandes detalhes, concedendo aqui e ali perante pessoas mais insistentes e, estranhamente, perante amigos ou pessoas mais próximas. Como é previsível, tornam-se imediatamente chatos para os dois grupos anteriores, que perdem assim margem de manobra para manifestarem as suas visões sobre férias e regresso.

As férias e o fim do mundo

Confesso que sou capaz de ficar chateado se me disserem:

“Epá meu, que pena que vais de férias logo agora que se sabe que na próxima sexta vem aí um cometa que vai dizimar a Terra. Bem, pelo menos o que restar dela, já que há oito alertas de tremor de terra, nove tsunamis em perspectiva aqui para a nossa zona lá mais para quarta. Mas pronto, se calhar isso até já nem vai importar porque entre segunda e terça prevê-se que uma epidemia de zombies que começou num talho para os lados de Linda-a-Pastora já se tenha alastrado e entre em conflito com o surto de ébola que entrou em Portugal através de uma festa especial do Preço Certo em Euros. Isto para não falar de um concerto do Melão em Águeda já este domingo que só por si é praga para superar as outras duas juntas e banhadas a tsunami.”

Agora se for por causa de chuva? Isso é só água e não me parece que faça encolher as férias.

Santos, pecadores e nuvens

Esta é das peças mais interessantes que li sobre o “escândalo” das fotos de celebridades nuas que estavam na cloud da Apple e que foram hackeadas. A quem interessar, recomendo que o leia e tire as suas conclusões.

Da minha parte, preparava-me para mandar um ou outro bitaite sobre isso, depois de nos últimos dias ter visto/ouvido muito regabofe à minha volta sobre isso. Dos vários ângulos destaco sempre aquele do “Como é possível, parece que só eu é que ainda não vi essas fotos. Alguém arranja aí o link?”. Uma vez parece natural, repetido sete ou oito vezes, cheira a rebarba ou voyeurismo agudo.

O que me fez repensar a necessidade de ser mais um a falar da nudez (física ou mental) de outros foi a Eva Green que, como fiz menção em posts passados, é uma rapariga cujos atributos captam a minha atenção. Tendo eu visto o Sin City 2 há coisa de poucos dias, posso dizer que fiquei desiludido com a edição do mesmo (as conclusões das três histórias que o filme percorre não estão na ordem que deviam, a meu ver) mas, por outro lado, não me posso queixar das doses de Eva Green servidas.

O cachet deve ter sido elevado, pois dar o corpo ao manifesto é aqui um claro eufemismo e isto não é uma queixa. Li depois uma entrevista da senhora, em que se confessava tímida e que aquele tipo de cenas não era algo que encarasse com grande à vontade, mas que o realizador e o resto da malta envolvida tinham sido espectaculares, and so on.

Não entrando em filosofias, a questão é “aquilo é um papel, mas não deixa de ser um claro acto de exposição do corpo”. A quem o tenha visto e apreciado, teria dado mais gozo se fosse uma imagem tirada da vida real? Seria realmente mais “real” e a timidez soaria mais “falsa”?

A exposição de figuras públicas dá um novo carimbo de aprovação ao voyeurismo nas suas mais diversas facetas? Não sei, até porque as barreiras entre o “sem querer”, o “propositado” e o “planeado ao detalhe para parecer casual” são coisas cada vez mais difíceis de distinguir no mundo de cortinas de fumo e imagem-dependência em que vivemos.

Do meu ponto de vista, fico satisfeito por ter visto o que vi da Eva no contexto em que foi visto. Não preciso de entrar em meandros extra para tentar ganhar uma satisfação que não está lá. Há coisas que se calhar têm mais valor e o devido encanto quando são vistas de uma determinada distância e tentar chegar mais perto só ajuda a borrar a pintura.

E agora seria bonito terminar com o link para as fotos gamadas da cloud.

Mas não, é só um sublinhado numas palavras a azul.