Paralelismo idiota entre sinceridade e diamantes

Pergunto-me se a sinceridade num estado demasiado bruto não é como os diamantes no mesmo estado, requer trabalho e lapidação até ser apreciada pelo seu real valor. É difícil chegar até às pessoas com sinceridade em bruto porque, em boa parte dos casos, não é a pureza do que é partilhado que é valorizada, mas sim o seu lado nocivo e tudo aquilo que magoa por não ser polido.

Não sei se são as pessoas que são assim, brutas na sua sinceridade (longe do patamar de bestas, título reservado para outras espécies), que precisam de aprender a suavizar o seu modo ou se são os outros, os que lidam mal com esse choque, que precisam de passar mais tempo nas minas da sinceridade, onde tudo é menos limpo, menos arejado e menos polido mas, por vezes, mais real.

 

Anúncios

Uma teoria de probabilidades aplicada aos senhores que dão folhetos de mestres africanos à saída do Metro

Há dois momentos passíveis de causar ansiedade quando começamos a subir a escadaria que nos leva do Metro até à rua – O primeiro tem que ver com a possibilidade de estar a chover e a nossa displicência não acompanhar o ritmo de chapéus de chuva que se começa a abrir, essencialmente porque não temos um exemplar connosco. O segundo está ligado ao exército de distribuidores de folhetos que se posiciona estrategicamente no topo das escadas, com destaque para a tropa do Professor Bambo, do Mestre Sané, Doutor Kabungo e afins.

Aqui vamos trocar o nosso ponto de vista, pelo do distribuidor ao serviço do vidente. Se eu trabalhasse para um vidente, primeiro que tudo iria querer ter uma política de eficiência na distribuição associada à clarividência do serviço que oferecemos. Certamente que, muito antes dos folhetos terem sido sequer impressos, o Grande Mestre Galafuné já sabe que 90% deles vão acabar no lixo segundos depois de serem distribuídos. Como tal, tendo essa ideia em mente, deve haver alguma forma do Mestre-Professor passar dotes para o folheto ou sabedoria para o distribuidor para ele melhorar a eficácia da distribuição.

Se isso se verificar o distribuidor, ao ver aproximarem-se quatro pessoas a subir a escada, tem que tomar uma decisão rápida – vai para a senhora com ar cansado com um filho pela mão, pelo idoso da roupa gasta e braguilha aberta, pela jovem com look new age ou por mim, marmanjão de look dinâmico-pós-moderno, barba de três dias e livrinho na mão. Tecnicamente, diria que deveria ser a última opção, mas ele parece achar que preciso de resolver problemas de sorte, amor, dinheiro e falta de ritmo para danças africanas.

Confesso que lhe complico a vida, pois há um gesto educado de semi-levantar a mão no sentido de agradecer e recusar ao mesmo tempo que o leva a debruçar-se na minha direcção, perdendo timing e oportunidade, confundido também por um sorriso que é uma recusa. Tal gesto faz perder desde logo 75% da vaga, pois a jovem new age é lesta nas suas sandálias de couro 100% vegetal, a mãe perde-se no combate de intenções com o filho e, depois da minha recusa, só lhe resta o velhote com ar perdido, que continua com a braguilha aberta. É nele que terá que depositar as esperanças ou aguardar por nova vaga.

Diariamente, vejo más escolhas de auxiliares de Bambos, que investem claramente nos cavalos errados, em decisões chave. E isso dá má imagem aos homens que representam pois, se de facto fossem videntes assim tão poderosos, saberiam que boa parte da malta, na qual me incluo, não vale o esforço e o valor do folheto (que é perto de nulo). Isto em termos de angariação de potenciais clientes.

Ou então não há critério e é tudo uma questão de massificação a ver quem cai na rede, um conhecimento impulsionado por mais de 50 anos de experiência em 42 de vida.

Como antecipar uma longa viagem de comboio

Não viajo regularmente de comboio, pelo que quando tenho em perspectiva uma longa viagem neste meio fico sempre apanhado pela “síndrome do viajante que vai ter de preencher umas horas”. Para quem viaje regularmente de comboio, se calhar esta sensação só se resume a viagens de avião mas, no meu caso, os meios são quase equiparáveis.

Primeiro que tudo, gosto de viajar tanto de avião como de comboio e não fico enjoado em qualquer uma das situações, o que me permite ler, ver filmes e todo um conjunto de actividades lúdicas que se podem proporcionar em viagens longas. Só não sou à prova dos enjoos causados por companhias indesejadas, pelo que tento evitá-las.

Aliás, seja em trabalho ou em lazer, a companhia é a primeira coisa de que me ocupo. Será sozinho ou posso escolher quem vai comigo? Se não puder escolher e não me agradar a companhia, como barricá-la num universo paralelo em que não me estrague a viagem? Tudo dilemas que é conveniente ter em conta, especialmente se forem tão maquiavélicos como eu.

Tratado isso, passa a questão do tempo – dormir é bom, mas normalmente as viagens de regresso podem ter esse plano de emergência, nas idas gosto de aproveitar melhor o tempo. Entre ler, escrever, ver algum filme/série em atraso ou, simplesmente, desfrutar de uma boa conversa, não há que ter horários e esquemas definidos, mas sim ter opções para o que fluir melhor na altura. Até porque sou um tipo que nunca conseguiu usar uma agenda de forma consistente ao longo da vida. E acreditem que tentei e muitos tentaram que eu tentasse, sem grandes resultados.

Dizem que em muitas coisas o importante é apreciar a viagem e é isso que pretendo fazer, mas não levo carpe diem na bagagem, que tenho pouco espaço e prefiro levar mais um par de meias e ténis que aguentem uns bons quilómetros.

 

Sábado espera-me uma longa viagem de comboio, mas pelos melhores motivos e a síndrome pode vir, que estou preparado.

O Indiana Jones das tascas

Sou um grande fã de coisas despretensiosas no que à comida diz respeito. Não quero com isto dizer que não aprecie a finesse de certos locais dedicados à nobre arte da comida, mas acho que o hype de certos sítios/conceitos acaba por tornar demasiado dispendiosa ou, de certa forma, contribuir para criar um balanço desequilibrado entre expectativas-experiência que na tasca já não existe.

E porque tudo tem o seu tempo e momento, considero mais interessante descobrir, nem que seja por acaso, uma tasquinha fora dos 500 roteiros de tascas que já não o são ou dos estabelecimentos que de tasca só têm o conceito do que ir confirmar se o restaurante de top XPTO é digno dos seus créditos ou não e a coisa é movida pela comida ou pela novidade.

Aliás, se há coisa que uma boa tasca não é, é ser novidade. A história de uma tasca ou de um restaurante que, não sendo tasca, nunca teve outra pretensão que não servir simplesmente boa comida simples e honesta, normalmente funde-se com a sua envolvência, seja num bairro típico, numa zona de trabalhadores daqueles que deitam mesmo mãos à obra ou naquele bairro residencial onde a população nunca levou a notícia da existência daquele sítio para fora dele. É raro estarmos lá quando uma boa tasca há, até porque uma boa tasca envolve também uma boa história acerca do seu surgimento e da forma como chegou até nós.

No sábado tive a oportunidade de chegar até um desses lugares que, embora não sendo tasca, tem todos os predicados de um lugar do género. Bairro residencial, localização semi-escondida e pouco divulgada, apesar de bastar entrar lá para saber que quem conhece marca presença regularmente. Cozinha de estilo familiar, empregados com anos de casa e aquela simpatia/jeito típico de empregado de mesa que, não sendo xico-esperto, tem sempre um bitaite oportuno a partilhar. A história comum entre donos-empregados com um passado que remonta a Angola e uma clientela que se vê que 80% é local e o resto anda lá perto.

Podia falar sobre a comida, mas tenho medo que o blog apanhe um vírus e eu comece a ter que tirar fotos ao que estou prestes a ingerir. Digo apenas que era caseira, na dose certa, sem ter nada ali que só estivesse para encher ou fazer bonito e que o vinho à pressão fazia jus ao que é suposto haver em sítios assim.

A curiosidade, para além da satisfação no final – ultimamente só costumo passar por aquela zona quando vou correr longas distâncias e de uma das últimas vezes que o fiz, para aí uma rua acima deste restaurante-tasca, pensei “Este bairro deve ser daqueles que ali pelo meio tem um cafézinho ou restaurante pequeno que só os Indiana Jones das tascas descobrem, se não forem daqui.

Felizmente assim foi e lá me levaram a este Cantinho em Linda-a-Velha. Pode haver quem discorde mas, para mim, é digno de outras futuras explorações.

Os genéricos sedutores

Já se sabe que os trailers de filmes e séries são como a maquilhagem, concebidos e aplicados de forma precisa para realçar o que de melhor há e disfarçar o que de menos bom possa haver. Não deve haver melhor elogio para alguém que faça trailers do que ouvir alguém dizer “Epá, o trailer era a única coisa que se aproveitava no filme”. Já com os genéricos creio que a relação é diferente, nós já estamos dispostos a ver o conteúdo seguinte e o genérico será porventura o aperitivo, aquilo que nos deixa no mood certo para acompanhar o que vem a seguir. Não deixam de ser esteticamente desafiantes e, conjugados com a música certa, podem tornar-se por si só, mini obras de arte.

 

Este foi dos melhores que tenho visto nos últimos tempos.

 

Este também é conceptualmente interessante, mas satura um pouco o abuso do recurso base. (o mesmo mal de que sofre o Game of Thrones)

Indo ao baú, este também teve nota muito elevada.

 

E se formos mesmo ao passado para pensar em algo que, derivado de um genérico, ainda hoje faz parte do nosso imaginário (e vocabulário), é impossível não passar por aqui.

 

Certamente não faltaram outros, de igual ou melhor qualidade, mas cada um sabe o que o seduz melhor.