Uma teoria de probabilidades aplicada aos senhores que dão folhetos de mestres africanos à saída do Metro

Há dois momentos passíveis de causar ansiedade quando começamos a subir a escadaria que nos leva do Metro até à rua – O primeiro tem que ver com a possibilidade de estar a chover e a nossa displicência não acompanhar o ritmo de chapéus de chuva que se começa a abrir, essencialmente porque não temos um exemplar connosco. O segundo está ligado ao exército de distribuidores de folhetos que se posiciona estrategicamente no topo das escadas, com destaque para a tropa do Professor Bambo, do Mestre Sané, Doutor Kabungo e afins.

Aqui vamos trocar o nosso ponto de vista, pelo do distribuidor ao serviço do vidente. Se eu trabalhasse para um vidente, primeiro que tudo iria querer ter uma política de eficiência na distribuição associada à clarividência do serviço que oferecemos. Certamente que, muito antes dos folhetos terem sido sequer impressos, o Grande Mestre Galafuné já sabe que 90% deles vão acabar no lixo segundos depois de serem distribuídos. Como tal, tendo essa ideia em mente, deve haver alguma forma do Mestre-Professor passar dotes para o folheto ou sabedoria para o distribuidor para ele melhorar a eficácia da distribuição.

Se isso se verificar o distribuidor, ao ver aproximarem-se quatro pessoas a subir a escada, tem que tomar uma decisão rápida – vai para a senhora com ar cansado com um filho pela mão, pelo idoso da roupa gasta e braguilha aberta, pela jovem com look new age ou por mim, marmanjão de look dinâmico-pós-moderno, barba de três dias e livrinho na mão. Tecnicamente, diria que deveria ser a última opção, mas ele parece achar que preciso de resolver problemas de sorte, amor, dinheiro e falta de ritmo para danças africanas.

Confesso que lhe complico a vida, pois há um gesto educado de semi-levantar a mão no sentido de agradecer e recusar ao mesmo tempo que o leva a debruçar-se na minha direcção, perdendo timing e oportunidade, confundido também por um sorriso que é uma recusa. Tal gesto faz perder desde logo 75% da vaga, pois a jovem new age é lesta nas suas sandálias de couro 100% vegetal, a mãe perde-se no combate de intenções com o filho e, depois da minha recusa, só lhe resta o velhote com ar perdido, que continua com a braguilha aberta. É nele que terá que depositar as esperanças ou aguardar por nova vaga.

Diariamente, vejo más escolhas de auxiliares de Bambos, que investem claramente nos cavalos errados, em decisões chave. E isso dá má imagem aos homens que representam pois, se de facto fossem videntes assim tão poderosos, saberiam que boa parte da malta, na qual me incluo, não vale o esforço e o valor do folheto (que é perto de nulo). Isto em termos de angariação de potenciais clientes.

Ou então não há critério e é tudo uma questão de massificação a ver quem cai na rede, um conhecimento impulsionado por mais de 50 anos de experiência em 42 de vida.

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4 pensamentos sobre “Uma teoria de probabilidades aplicada aos senhores que dão folhetos de mestres africanos à saída do Metro

  1. O pior é que não estás a lidar com representantes dos mestres/professores mas com os próprios académicos da adivinhação. Ou seja, não é um problema de recrutamento, é mesmo uma falha na vocação.

  2. O estudo desta fauna daria um ensaio interessante. Em Entrecampos adoptaram uma táctica ligeiramente diferente. São dois ao fundo das escadas para o metro. O simples esquivar fica mais difícil. Tens sempre de passar pelo meio. Adoptei esse levantar da mão, mas uns quantos incautos são obrigados a aceitar pela inexistência de fuga. Agradece o Mambo, choram as árvores.

    • O Mambo das árvores dá uma espécie de documentário angolano bastante interesante, apesar de boa parte destes profissionais ser oriundos da Guiné, Senegal e arredores.

      Já a técnica da correia de distribuidores, opto pelo truque de me colar ao cone de vento da pessoa que vai antes e apostar no factor surpresa.

Tens a certeza disso que dizes?

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