Engordei a minha raiva com Softcakes da Triunfo

Permitam que vos diga que já não posso com a porra do vosso pré-roll do Youtube, em que me tentam convencer que aquela trampa é tão natural, tão fofa e tão saborosa que eu vou ficar cheio de vontade de ir mijar para dentro de uma fonte ou seja lá o que aquela senhora a quem pagaram uns cobres foi fazer lá para dentro.
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Primeiro que tudo, o bolo tem um ar tão apelativo como se tivessem colado dois tapetes de entrada metendo argamassa pelo meio. Lamento, mas mais facilmente como um pão seco com três dias do que isso.

Depois, o ar semi-lascivo da senhora leva-me a pensar que há algum tipo de acção a decorrer fora da nossa vista. Se ela fica assim por um bolo daqueles, nem quero imaginar quando o prato do dia for feijoada.

Finalmente, malta do marketing, o pré-roll do Youtube é uma coisa intrusiva (sim, há os ad-blocks, mas isso é outra história). Se eu quero ver basket da NBA, levo com softcakes. Se eu quero checkar um hit do Nel Monteiro, toma lá softcakes. Se vou ver pugilato num casamento romeno, incha softcakes. Não só não há critério, como arrastar esta estratégia para aí há um ou dois meses, gera o mesmo efeito que o aspecto do bolo – dá voltas ao estômago.

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Agora vou lanchar chamuças.

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Para quê ir ao teatro quando podes ir à IKEA?

Em vez de transformar uma visita à labiríntica loja sueca de mobiliário num pesadelo, descobri a solução para tirar muito mais partido da experiência, encarando-a como uma intervenção cultural/dramática inusitada.

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Mas é claro que quando vou à IKEA não faço figura de urso. Um alce é muito mais sueco.

Para qualquer tipo que não tenha um pequeno (ou um grande) designer de interiores dentro de si, a IKEA serve um pequeno lote de propósitos funcionais – adquirir mobiliário para a nossa residência, servir de transportador/carregador para alguém que nos interessa ou nos enganou bem ou, para os mais duros, viver por alguns momentos toda a adrenalina associada à vida de um fiel de armazém. Também podemos falar em salmão, almôndegas equídeas ou doce de mirtilo, mas isso já é estar a desviar a conversa.

No entanto a IKEA, através da sua disposição labiríntica, beneficiando também do efeito “arrastado” definido pelo facto do homem “A” ver mais 60% de coisas do que estava previsto por acção da mulher “B”, pode tornar-se uma experiência complicada à qual, na sua fase final, acresce ainda o bónus de “carrega lá com 2 estantes Billy, três armários Sfragglensqvist e dois puffs ZéTolen até à caixa”. Não é bonito e não sou eu que digo, são as costas de muitos portugueses.

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Como melhorar a experiência?

Pensando que, em cada visita, podemos poupar o equivalente a várias idas ao teatro.

É muito fácil, os cenários já estão montados, seja num quarto minimalista ou numa cozinha com belos acabamentos em pinheiro escandinavo. Só precisamos de deixar os actores involuntários entrar em cena e aproximar-nos o suficiente para ouvirmos tudo, mas não parecermos demasiado creepy. O que se segue é autêntico teatro experimental.

Só na minha última visita tive oportunidade de assistir a três estreias

“À espera de gordo” – Um drama sobre obesidade infantil, em que mãe e pai, tentam chegar a uma conclusão sobre a mobília de um quarto. No entanto, a conversa nunca chega a lado nenhum, porque o seu filho, uma criança a lutar contra a obesidade e a vontade de se deitar em cada cama com que se cruza os obriga a voltar atrás a cada instante, com vários guinchos e gritos pelo meio.

“Mac Betos” – Uma jovem beta trava uma batalha contra uma mãe que, aparentemente se mostra pouco disposta a financiar tudo o que a filha precisa para decorar a sua casa nova. As dificuldades de comunicação agravam a relação porque ambas estão de iPhone em punho, a comparar referências e a debater o conceito de “supé em conta”, comparativamente a outras lojas para as quais aparentemente não são betos o suficiente para irem lá comprar.

“Romeu Anselmo & Julieta Vanessa” – Um jovem casal enamorado, com ligeiro toque mitra, tenta tomar decisões difíceis sobre um amor proibido em relação a mau gosto mobiliário. Trocam-se muitos “Môr isto” e “Môr aquilo”, muito “Fónix” e quase todas as peças de mobiliário são “cenas”. Masca-se muita pastilha, felizmente nenhuma está envenenada. Procuram-se conclusões sobre cadeiras, mas o melhor é esperar sentado.

Em suma, a perspectiva cultural está lá, o divertimento também, o facto de te tratarem como um rato num labirinto já nem custa tanto e, se te doerem as costas no fim, pensa que é o preço a pagar pela elevação da cultura com um toque de design sueco.

E depois comes um cachorro a 1€ e sais de lá a pensar no que é afinal essa história de ser urbano e trendy.

Um abraço na noite

Esta semana, regressando de um jogo de basket, conduzo calmamente pelo meio das ruas de Lisboa que, em noite de frio e chuva, mais do que calmas, estão quase vazias. Perto de um semáforo no vermelho, abrando e vejo um senhor de uma certa idade que caminha em passo muito lento, como se tentasse evitar a todo custo chegar ao local para onde se dirige. De repente, parou junto a um outro homem que estava de cabeça baixa e só quando se apercebeu da presença de alguém é que levantou o olhar. Sem terem falado, o que chegou deu um grande e sentido abraço ao que já lá estava, que se limitou a ser envolvido pelo gesto, como se isso lhe tirasse um pouco do fardo que parecia carregar.

De repente apercebi-me que estava junto ao cruzamento não muito longe de casa onde, por detrás de umas árvores com ar triste, existe uma capela mortuária. O semáforo ficou verde e segui caminho, esperando que um dia, talvez como em todos os casos em que somos confrontados com o jogo em que perdemos sempre, aquelas pessoas consigam fazer o mesmo.

Morte à página pessoal do Casal X ou da Família Y no Facebook

Compreendo perfeitamente as razões para abominar redes sociais e não considero que, quem não queira lá estar (em especial no Facebook), não continue a ser uma pessoa de pleno direito. Aliás, acredito até que um bebé que nasça e cresça sem uma única foto colocada pelos seus pais no Facebook continua a existir e não passa a ser apenas um mito. O que eu não compreendo são aquelas páginas de Facebook que existem e que são de propriedade colectiva, apesar de serem perfis individuais, assim estilo Tânia&Virgulino, FamíliaRodovalho ou XanaZéTóePiriquito.

Não compreendo porque, se temos pachorra para fazer um perfil ou para navegar no ócio por vezes lamacento do Facebook, então também devíamos respeitar a individualidade e confiar no bom senso de cada um (sim, eu sei, bom senso e redes sociais nem sempre andam de mãos dadas). Se eu sou amigo do ZéTó, posso não partilhar a mínima afinidade com a Xana e não estar muito interessado em ver fotos do Piriquito. Por outro lado, se os posts da dupla, tripla, quadrilha sertaneja não vierem assinados, como é que eu sei se não se trata só de esquizofrenia?

Para além de toda esta panóplia de conflitos de interesse, a história de “falta de tempo” ou “é mais fácil gerir as coisas”, é apenas a cortina de fumo por detrás de conceitos tão simples como “desconfiança”, “perda de personalidade individual” ou, simplesmente “laivos de bimbalhice”. Como disse inicialmente, ninguém é obrigado a pertencer a qualquer tipo de rede social, nem ser discriminado por isso mesmo. No entanto, não perceber o contexto e, mesmo assim, querer participar numa visão distorcida da coisa é, por si só, chamar o ridículo para cima de si e, desse modo, colocar um foco onde podia apenas estar um legítimo vazio.

Dois homens e uma cama de casal

Fim de semana de correria no Porto, a tua cara metade não pode ir, vais com um amigo a precisar de espairecer. Hotel porreiro, central, moderno e que já conheces de outras paragens.

O recepcionista acolhe-vos com simpatia e pergunta se vamos correr. A maratona? Sim, a maratona? Mas correr mesmo os 42kms? Bem, se tudo correr como previsto, é o plano. Um primeiro olhar de admiração, embora possa ser cortesia já que o hotel está pejado de atletas de Portugal e do estrangeiro.

Consulta da reserva, levanta-se um olhar de relance para nós, compasso de espera – “Estou a ver aqui uma indicação…o quarto indica cama de casal…não sei se isto está correcto…”. Olha para nós, nós olhamos um para o outro e apercebo-me que não tinha alterado a primeira reserva. Para aumentar o gozo, pensei em dar a mão ao meu amigo, mas preferi culpar o sistema – “Deve ser engano, fiz de facto uma pergunta sobre cama de casal, mas seria no caso de vir com outra pessoa”.

Não há problema diz o recepcionista, enquanto tecla no sistema. Saímos a ganhar, pois pelos vistos por causa disso tivemos acesso a um gesto de cortesia, com quarto na penthouse, em camas separadas como fez questão de frisar com um sorriso. Nós sorrimos também.

E depois, lá fomos nós, prontos a fazer figura de ursos no elevador, tentando perceber porque raio o botão do elevador para a penthouse não funcionava e não se avistava qualquer ranhura para colocar o cartão de acesso. Somos modernos sim senhor, mas pouco habituados a estas mordomias.