A última meta de 2014

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Estava frio na secção de congelados dos Olivais, mas atingi ontem a última meta do ano que hoje finda. Espero que tenham também atingido as vossas, nem que seja com uma caçadeira.

(sinceramente, não estavam à espera de algo mais que uma piada literal vinda de quem tem que trabalhar no dia 31, pois não?)

O sítio das coisas selvagens e do Carlos Alberto

Carlos Alberto, outro que não o Moniz, debatia-se com um problema. Eu tinha-lhe confiado uma missão para a qual ele não se julgava preparado. “Tenho mesmo que ser eu?” perguntou-me ele, fazendo beicinho, “Tens Cabé, tens mesmo que ser tu”, respondi eu com a calma de quem lhe traçou o destino e o cinismo de quem sabe que muito provavelmente tão má como a missão era a maldade de o tratar por um diminutivo.

Na sequência da minha decisão de neste Natal não querer ser um velho do Restelo (apesar de sócio do Belenenses), só me restava criar um personagem para exprimir alguns dos desagrados que foram ocorrendo por estes dias. E assim surgiu o Carlos Alberto, que ficou muito pouco agradado por esta situação, ele que até milho gostava de dar aos pombos, isto no período da sua vida em que foi mais abonado e não precisava de ganhar a vida como personagem em blog obscuro. Nos dias que correm, se tiver pão seco de três dias para atirar a um pombo que seja, já é um dia para relembrar positivamente.

Mas desculpa Carlos Alberto, ias a dizer qualquer coisa sobre o filme “Where the wild things are”. “Ia?”, contorceu-se ele, “Vais”, incentivei eu. “Ok…pois…” pareceu-me ouvir um suspiro de Cabé, mas deve ser engano, porque os meus personagens não suspiram. “Bem, devo dizer-te que tens andado a aproveitar bem a promoção dos canais de filmes que estão em sinal aberto até final de Janeiro. Não só tens feito mais gravações que o Quim Barreiros faz festas académicas, como ainda tens despachado coisas que andavas para ver há muito, mesmo que na minha opinião se trate de lixo cinematográfico, pelo menos em parte”.

“Certo Carlos Alberto, mas não vamos começar com avaliações subjectivas sobre o meu gosto” comentei em tom determinado, para não perder mão ao personagem, “fala lá então do filme do Spike Jonze”.

“Confesso que era um filme que queria ver há algum tempo. Gosto do universo criativo do Spike e a história pelo que sabia tinha aquela espécie de cruzamento mitológico entre o mundo dos adultos e a fantasia imaginativa das crianças que pode ter um resultado pronto a encher-me as medidas”.

“Não te estás a esquecer de nada, Carlos Alberto?”. A expressão vaga foi literalmente a que eu tinha imaginado “Estou….” – “Sim, estás, a banda sonora…”

“Ah pois é, além disso tinha já passado muitas horas a ouvir esta banda sonora, um clássico exemplo que a música de um filme pode viver bem sem ele, mas também serve para alimentar as nossas expectativas, porventura para além do recomendável.”

Achei que fazia bem em cortar as deambulações do Cabé, por isso insisti na clarificação “Posso então deduzir que não gostaste do filme…”

“Não gostar é um termo forte. Creio que o termo certo é…”, Carlos Alberto procurou-me em busca da palavra certa, colocada por mim estrategicamente no seu bolso direito do casaco, o qual lhe indiquei com um gesto “…desiludi(u)-me. Por culpa minha talvez, mas o universo das coisas selvagens e o papel do rapaz que tinha construído na minha cabeça não bateram certo com o que estava a ver, achei simplista e óbvio, quando esperava elaboradamente simples mas surpreendente. Mas nunca poderia não gostar de algo que inclui um monstro com os trejeitos e a voz do Gandolfini, creio que foi a desilusão de ver que era só um castelo de cartas e não uma super mansão luxuosa, com piscinas de ases e mezzanines feitas de trunfos.

Foi apenas e só uma desilusão que não seguiu o percurso normal, que passa por mim a não comprar o pressuposto que me estão a vender num filme. Neste caso, tive que rejeitar a minha própria compra que me dizia que este ia ser um pedaço de cinema que iria marcar a minha visão de histórias do género”. Carlos Alberto pausou e procurou o meu assentimento.

“Não devias criar gigantes com pés de barro Cabé…”. Ele levantou vagarosamente o dedo do meio da mão esquerda e sorriu em tons de amarelo torrado “E tu não devias criar personagens só para sustentar posições ridículas sobre filmes que já nem novidade são…”. Dois pontos para o Cabé e lá o deixei ir. Só espero que ele goste do HER, que já o tenho gravado na box e aposto que o vai querer ver antes de mim.

A rua do almoço do dia de Natal

Já me deu para muita coisa, mas este ano deu-me para ir a correr de minha casa até ao local do almoço da parte da família que “ganhou” o direito de organizar o manjar de Natal. Podia ser uma coisa épica, se se tratasse de um Lisboa-Santarém ou coisa que o valha mas não, é apenas um percurso de 10-12 kms na versão easy, mesmo que eu o complique embrenhando-me em Monsanto e abusando de tudo o que havia para abusar no jantar da véspera.

Assim sendo, expedindo o kit de banho e roupa um bocadinho mais própria para a época do que lycra através das pessoas sensatas que foram de carro, lá fui eu. Alguns que sofrem do mesmo mal que eu pelo caminho, a azia natural a surgir para lembrar que enfardar e correr não são propriamente actividades mega compatíveis. No entanto, já na parte final da corrida, resolvi oferecer-me um presente.

já tinha passado várias vezes por uma rua íngreme ali em Alfragide, perto do hotel novo que lá abriu e da Efacec. Em pleno dia de Natal, a caminho do almoço, decidi que era tempo de escalá-la.

DSC_0034Chegado lá a cima, descubro a mensagem motivacional-bónus que fica sempre bem.
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Olhando lá para baixo, vi que só tinha escalado meia dose – na próxima vez que tiver a oportunidade, peço o prato completo.DSC_0036

E talvez isto seja uma mensagem para 2015, não a ideia de subir ruas estranhas quando me apetecer, mas o conceito de agarrar o que houver para ser aproveitado. Sem manias de grandeza pelo meio.

A dualidade da loucura de Natal

Olhas para as ruas, olhas para os carros, olhas para o ar semi-raivoso/semi-frenético/semi-natalício das pessoas, olhas para as superfícies comerciais e pensas que já viste algo parecido com aquele cenário no ‘BBC Vida Selvagem’. Olhas para o trabalho em cima da mesa e quase que podes jurar que ele se está a rir para ti, dizendo ‘Sim, sim, vai à vontade enfardar fritos, que eu espero aqui por ti’.

E, de repente, dás por ti a suspirar ligeiramente e a ansiar pela parte da loucura de Natal que só inclui os familiares mais próximos, com os ingredientes do costume. Loucura por loucura, prefiro aquela que já conheço os ingredientes todos.

Tu vai com calma ou “Dissertações do atleta amador que envelhece”

Não sendo um devoto do culto do corpo nem nada que se pareça, gosto de pensar que cuido relativamente bem do cabedal. No entanto, o gosto que tenho pelo desporto obriga-me por vezes a ter em atenção certos pormenores normalíssimos decorrentes desse factor igualmente normalíssimo que se chama “envelhecer”. Estou agora mais perto dos 40 do que dos 30 e embora não veja nenhum drama na matéria, aquela velha história do “corpo é que paga” é capaz de ter o seu fundo de verdade.

Acho que o factor maior se chama “tempo de recuperação”. Antigamente, menos horas de sono, esforços físicos combinados, pequenas mazelas exigiam um tempo de recuperação mais curto. Hoje em dia, a simples fórmula: levantar cedo para correr + dia relativamente puxado no trabalho + treino de basket nocturno, se tiver lugar em 24 horas pode levar a três dias de recuperação. Junte-se a isso um pouco de vida social ou redução de horas de sono e a festa pode dar para muito mais.

Uma pequena entorse nos velhos conhecidos tornozelos não é um melodrama mas, para os moldes actuais, é um post it na perna durante algum tempo, especialmente sem o devido repouso.

Lido bem com dor e tenho a noção do equilíbrio que é necessário para que aquela ideia do “estou na boa, é como se tivesse 20 anos” não se sobreponha à realidade, qual delírio peterpanista. O dilema filosófico, a longo prazo, será sempre algo como – estima-se a máquina para usar de forma confortável durante muitos e bons anos, salvo imprevistos sempre possíveis ou joga-se no limite, dentro do que é aceitável, sabendo que a marcha nunca vai parar e que o nosso horizonte físico tende a um declínio cescente?

Curiosamente, há pouco tempo, um jogador de top na NBA – Derrick Rose, ainda bastante jovem mas que teve que lidar com algumas lesões graves nos últimos anos, teve algumas declarações suas a causar um certo desconforto nos media quando disse que hoje em dia, perante problemas físicos com que se depara, não tinha apenas em conta o desempenho físico que era esperado de si, como as suas própria expectativas para o futuro do seu corpo depois de terminada a carreira de atleta profissional. Isto é, sim quando jogo dou o meu melhor, mas se sentir que preciso de ser poupado, não penso apenas em mim como atleta, mas também como pessoa que pretende ser saudável ao longo da vida toda.

Longe desse patamar, tenho uma visão em parte parecida com esta – quero fazer o máximo que puder, exigindo de mim alguns sacrifícios se tal for preciso, mas não quero ser escravo de objectivos que deixem de ser coisas que me dão gozo para serem fixações. Se puder fazer uma maratona aos 70 anos, gostaria muito, mas se fizer provas de 10kms, talvez isso me chegue. Se puder jogar basket com os amigos para lá dos 50, seria bom, mas se fazer uns lançamentos sozinho ou em família for a meta possível, vamos a isso.

Sabendo que o baralho é muito maior do que as cartas que tenho na mão, a ideia é continuar a jogar, mas tendo sempre em conta as mãos que vão sendo jogadas.
E agora, vou ali ter com o Reumon Gel, um bom amigo que compreende estes meus desabafos.

A gramática da vida

Não percebo muito da matemática da vida e acho que quanto mais contas se fazem, menos os números batem certo. Mas, sendo eu um tipo muito mais virado para as letras, é natural que seja bastante mais parcial, se me perguntarem pela gramática da vida.

É boa, tem os seus méritos, mas os erros repetem-se quase de forma eterna e se calhar fazem parte da aprendizagem. Pontos finais que surgem cedo demais ou que tardam em aparecer. Muitas reticências é suspense a mais, pontos de exclamação à bruta são sinal de pouco critério emocional e, bem vistas as coisas, abusaremos das interrogações? É provável que sim.

É tentar fazer as pausas certas, encontrar sujeitos com os melhores predicados, não abusar dos adjectivos e tentar ser mais do que um verbo de encher. E, se tudo isto não fizer muito sentido, talvez seja melhor optar por deitar contas à vida. Mas nessa área, como devem calcular, não me meto eu.

O período surrealista das entrevistas profissionais

Tenho a sorte das minhas área profissional me fazer evitar boa parte dos moldes tradicionais das entrevistas. É que, quando mostras um portefólio exemplificativo do que fazes e dos teus skills profissionais, pelo menos nessa parte é possível dialogar sobre trabalho concreto e não sobre xadrez mental, com a escolha das palavras certas para quadros teóricos, assim como evitar ratoeiras e por aí em diante.

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Nessa parte, pelo menos o cenário não é tão dantesco como casos que me relatam vindos do “mundo das entrevistas normais” (e não me façam falar sobre certos tipos de empresas de recrutamento e os seus testes dinâmico-quadradões).

Obviamente que, quando a conversa chega ao capítulo “Propostas financeiras” e “Condições profissionais” em 90% dos casos a situação é muito semelhante ao circo do costume – o empregador a esconder a mão e as batatas quentes quase sempre a ficarem nas mãos do candidato.

Seria engraçado ter entrevistas ao estilo do universo daquele filme do Ricky Gervais em que as pessoas não sabem mentir, com a honestidade em estado bruto/estupidamente cru. Isso, eu pagava para ver.

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Não chegando a este pormenor de requinte, passou-se no entanto aqui há uns tempos comigo um episódio entrevístico-surreal. Ligam-me da recepção do sítio onde trabalho – pelos vistos estava lá uma jovem que queria falar comigo. Lá fui e posso dizer que nunca a tinha visto na vida e ela idem. Estendeu-me cordialmente a mão e disse-me que, tal como tínhamos combinado, cá estava ela. Temendo estar a ser atacado por alguma amnésia, em virtude da convicção da moça, pedi-lhe para me relembrar as coisas, visto que eu não estava a conseguir situar a situação.

Ligeiramente surpreendida, mas não desarmando, explicou-me que tínhamos trocado mails e que eu lhe tinha pedido para passar por lá para uma entrevista pessoal (gosto muito de entrevistas pessoais, são tão melhores que entrevistas impessoais).What+happens+during+a+job+interview_2fe868_3702785

Nesta altura já eu tinha a certeza absoluta que havia um equívoco qualquer, mas tive medo de um qualquer ataque psicótico que pudesse surgir. Perguntei-lhe se estava 100% certa de ser eu a pessoa com quem ela queria falar e ela voltou a referir o meu nome. Foi então que lhe disse o nome da minha empresa, que gerou nela o efeito pimentão. Começando a ficar cada vez mais atrapalhada, disse ter perguntado na portaria do edifício e que lhe tinham dado aquele andar e que a recepcionista tinha sido muito pronta a chamar-me. Pois tinha, mas pelos vistos ambas desconheciam que há dois gajos com o mesmo nome a trabalhar em empresas no mesmo piso.

Fazendo um esforço para não me rir, disse que teria todo o gosto em entrevistá-la, se assim o desejasse mas que, a minha melhor sugestão era eu ir com ela até ao fundo do corredor, onde o Sérgio certo provavelmente já estaria farto de esperar por ela.

Visivelmente em estado de choque, a rapariga acompanhou-me até à entrada da empresa certa. Desejei-lhe boa sorte e disse-lhe para não ficar desanimada pois, apesar de se sentir meio desnorteada, pelo menos já tinha uma boa situação para quebrar o gelo. E, por vezes, isso é o ideal para abrir uma boa entrevista.

Quando o Natal dos Hospitais já é o Hospital do Natal

Aviso já o grupo de velhinhos-mentais nostálgicos – sim, acredito perfeitamente que em tempos o “Natal dos Hospitais” foi uma cena top em termos de entretenimento televisivo e não algo que parece uma estratégia da administração hospitalar para vagar camas em função de surtos de morte súbita em pacientes-espectadores. No entanto, sejamos francos, em tempos até a extracção das bolas do Totoloto foi entretenimento top ao nível televisivo, com aquele momento épico em que as crianças como eu tentavam adivinhar se o senhor do Governo Civil estava morto ou a cara impávida e serena era mesmo assim.

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Passar o Natal num hospital do Tahiti até pode ser fixe, a ver as Taytti num Natal dos Hospitais pode ser morte certa.

Hoje em dia o Natal dos Hospitais, mais do que estar na unidade de cuidados intensivos, está com um pé na morgue só que ainda ninguém lhe disse. É certo que as pessoas internadas merecem todo o meu respeito, mas essa é só mais uma razão para abominar o formato em causa. Cheira a requentado e se for pela animação, então pelo menos que se respeite a animação dos que estão em casa saudáveis e podem ir parar ao Hospital se virem o programa completo.

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“Sim, eu sou o Abrunhosa e há 25 anos fui a um Natal dos Hospitais. Foi um dia tão marcante que nunca mais pude deixar de usar óculos escuros”.

Muito mudou, o panorama artístico é outro e há doenças muito mais complexas que reagem mal a artistas pimba ou gente a tentar sobreviver ao Inverno actuando em locais quentinhos e relativamente seguros. Prova que o panorama televisivo-popular já não é o mesmo é o facto quase científico de já só sobrarem para aí duas ou três terriolas no nosso Portugal que ainda não tiveram direito a um programa directo de tarde inteira com o Baião, o Goucha ou o Jorge Gabriel aos saltos numa qualquer Praça Central.

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A Ana Malhoa é responsável por muitos atentados mas, até agora, só foi ao Natal das Prisões como convidada.

E se quiserem ter mesmo a noção que o panorama está a mudar, atentem ao seguinte: há já alguns anos que existe um programa chamado “Natal das Prisões”, com a mesma lógica do outro, mas para reclusos diversos. Isto prova que, para além de doentes, também começámos a ficar trafulhas (ou então que a música popular e a animação bacoca também já são uma tortura aceite pela convenção de Genebra). Descontando o facto da conjuntura já justificar porventura um “Natal no Centro de Emprego”, um “Natal na Loja do Cidadão” e por aí em diante, se calhar o melhor é começar a pensar em soluções diferentes, com um pingo de sanidade lúdica, isto para tentar salvar quem ainda veja televisão nacional e não tenha espetado um garfo nos olhos com o desespero.

É que ébola e legionella são coisas muito bonitas, dão entertenimento mediático qb, mas não ficam bem em palco a entrar depois do Iran Costa e antes de Zé, o Mágico Nudista.

O cromado da irreverência desgasta?

Vi hoje uma rapariga que não via para aí há 10/12 anos, possivelmente desde o fim da faculdade. A coisa deu-se junto a uma passagem de peões e ela não me viu. Não estava mais gorda, não tinha cinquenta filhos agarrados às pernas, não lhe faltavam os dentes da frente e não estava na Casa dos Segredos. Simplesmente tinha um ar baço e parecia não restar uma pinga da irreverência a que era normal associá-la noutros tempos.

Não era uma questão de miséria ou desgraça aparente, estava bem arranjada e parecia ir a caminho do emprego. Era talvez um “manto de cinzentismo”, um peso vago que se abatia sobre ela e que se calhar se chama – rotina da normalidade absoluta. Podia, quem sabe, ser apenas a disposição do dia ou então, o rumo da vida.

Perante um “não-encontro”, não posso dizer se as aparências confirmam ou não esta teoria mas fiquei a pensar – será que para muita gente a irreverência é um cromado que, conforme avança a idade adulta, se vai desvanecendo e tornando baço? A personalidade é condicionada pelo ambiente a ponto de perdermos características que, em tempos, era a nossa imagem de marca?

Não tendo eu um complexo de Peter Pan, nem sonhos da fonte de Ponce de León, estou longe de achar que eu é que estou bem e pessoas como ela são vítimas de um mundo cruel. Não existe apenas uma fórmula para a felicidade e para nos sentirmos bem com nós próprios. Mas espero que, quem me encontre num qualquer cruzamento, independentemente de quantos anos tenham passado, possa pensar de imediato “Olha-me aquele artista, parece tão parvo como no dia em que o conheci”.

Três velhotes, um banco e um parvo

No percurso que faço a pé a caminho do meu local de trabalho (ou do Metro, quando o atraso já é evidente), há um jardim. E, no acesso que lá vai dar, há um banco de jardim que, apesar de abrigado, fica num ponto de passagem muito movimentado.

Nesse banco, salvo intempéries, sentam-se regularmente duas velhotas e um velhote, todos aprumadinhos e com umas pastinhas na mão ou repousadas no seu colo. Obviamente, não fazendo eles sondagens, é certo e sabido que trazem consigo a palavra do Senhor e não temem em usá-la para se aproximarem de quem passa.

É curioso ver não só as suas estratégias de abordagem, que vão desde um inocente “Bom dia menina”, até ao semi-misterioso “O senhor desculpe…”, como também as reacções de quem vai caindo na teia. Estas vão desde o chamado “toca e foge”, que responde à primeira pergunta mas, mal percebe o que vem a seguir, arranca em velocidade ao encalhado em “Mas, mas, mas…” em que a pessoa tenta interromper os velhotes, mas não consegue dizer mais do que “mas” até um determinado ponto. Não conheço a taxa de conversão dos senhores mas, ou aquilo resulta ou o spot é deveras agradável, pois estão lá ao longo do ano.

E, passando eu por ali regularmente, não tentará a sentadíssima trindade levar-me até aos caminhos do Pastor? De facto, já tentaram, mas depois de uma ou duas respostas que me ocorreram ou já pensam que não tenho salvação possível ou, pura simplesmente, acham-me parvo.

Numa das vezes depois de ter dito “Desculpem mas não posso, estou atrasado”, uma das senhoras disse-me “Mas olhe que quando há coisas mais importantes, há outras que podem esperar”, ao que eu não resisti a dizer “Imagine as coisas que Jesus deixou para fazer ao sair daqui com apenas 33 anos. Tendo em conta que eu já passo ligeiramente desse prazo e ainda não caminhei sobre as águas, nem sou capaz de transformar água em vinho, compreenda tanto a minha frustração como o meu atraso”. E segui.
Na última vez, a coisa foi mais rápida e ficou-se por um “Ó jovem, desculpe…”, “Está desculpada, mas amanhã vou mesmo precisar desse banco por volta desta hora”. E segui.