Três velhotes, um banco e um parvo

No percurso que faço a pé a caminho do meu local de trabalho (ou do Metro, quando o atraso já é evidente), há um jardim. E, no acesso que lá vai dar, há um banco de jardim que, apesar de abrigado, fica num ponto de passagem muito movimentado.

Nesse banco, salvo intempéries, sentam-se regularmente duas velhotas e um velhote, todos aprumadinhos e com umas pastinhas na mão ou repousadas no seu colo. Obviamente, não fazendo eles sondagens, é certo e sabido que trazem consigo a palavra do Senhor e não temem em usá-la para se aproximarem de quem passa.

É curioso ver não só as suas estratégias de abordagem, que vão desde um inocente “Bom dia menina”, até ao semi-misterioso “O senhor desculpe…”, como também as reacções de quem vai caindo na teia. Estas vão desde o chamado “toca e foge”, que responde à primeira pergunta mas, mal percebe o que vem a seguir, arranca em velocidade ao encalhado em “Mas, mas, mas…” em que a pessoa tenta interromper os velhotes, mas não consegue dizer mais do que “mas” até um determinado ponto. Não conheço a taxa de conversão dos senhores mas, ou aquilo resulta ou o spot é deveras agradável, pois estão lá ao longo do ano.

E, passando eu por ali regularmente, não tentará a sentadíssima trindade levar-me até aos caminhos do Pastor? De facto, já tentaram, mas depois de uma ou duas respostas que me ocorreram ou já pensam que não tenho salvação possível ou, pura simplesmente, acham-me parvo.

Numa das vezes depois de ter dito “Desculpem mas não posso, estou atrasado”, uma das senhoras disse-me “Mas olhe que quando há coisas mais importantes, há outras que podem esperar”, ao que eu não resisti a dizer “Imagine as coisas que Jesus deixou para fazer ao sair daqui com apenas 33 anos. Tendo em conta que eu já passo ligeiramente desse prazo e ainda não caminhei sobre as águas, nem sou capaz de transformar água em vinho, compreenda tanto a minha frustração como o meu atraso”. E segui.
Na última vez, a coisa foi mais rápida e ficou-se por um “Ó jovem, desculpe…”, “Está desculpada, mas amanhã vou mesmo precisar desse banco por volta desta hora”. E segui.

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