O cromado da irreverência desgasta?

Vi hoje uma rapariga que não via para aí há 10/12 anos, possivelmente desde o fim da faculdade. A coisa deu-se junto a uma passagem de peões e ela não me viu. Não estava mais gorda, não tinha cinquenta filhos agarrados às pernas, não lhe faltavam os dentes da frente e não estava na Casa dos Segredos. Simplesmente tinha um ar baço e parecia não restar uma pinga da irreverência a que era normal associá-la noutros tempos.

Não era uma questão de miséria ou desgraça aparente, estava bem arranjada e parecia ir a caminho do emprego. Era talvez um “manto de cinzentismo”, um peso vago que se abatia sobre ela e que se calhar se chama – rotina da normalidade absoluta. Podia, quem sabe, ser apenas a disposição do dia ou então, o rumo da vida.

Perante um “não-encontro”, não posso dizer se as aparências confirmam ou não esta teoria mas fiquei a pensar – será que para muita gente a irreverência é um cromado que, conforme avança a idade adulta, se vai desvanecendo e tornando baço? A personalidade é condicionada pelo ambiente a ponto de perdermos características que, em tempos, era a nossa imagem de marca?

Não tendo eu um complexo de Peter Pan, nem sonhos da fonte de Ponce de León, estou longe de achar que eu é que estou bem e pessoas como ela são vítimas de um mundo cruel. Não existe apenas uma fórmula para a felicidade e para nos sentirmos bem com nós próprios. Mas espero que, quem me encontre num qualquer cruzamento, independentemente de quantos anos tenham passado, possa pensar de imediato “Olha-me aquele artista, parece tão parvo como no dia em que o conheci”.

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2 pensamentos sobre “O cromado da irreverência desgasta?

  1. Se calhar boa parte da irreverência que vias antes estava em quem olhava e não só em quem era observado. Ou então isto dos anos é uma coisa mesmo tramada, pronto.
    E isso do esperarmos que nos vejam como antes… Não sei. Acho que prefiro que me vejam como muito melhor agora.

  2. Em relação à primeira parte, acho que será talvez um bocadinho de cada, porque acredito que determinados ambientes puxam por determinadas características das pessoas e que, quando existe um corte, essas características se podem desvanecer ao longo do tempo, “amassadas” nos anos, na vida e no camandro.

    Já na segunda parte, eu não sou de todo apologista do saudosismo e gosto de (re)ver o passado de uma forma saudável, que não inclui viver nele. Quando digo que espero que as pessoas reconheçam em mim, por exemplo, a minha grande capacidade de “ser parvo”, que creio já possuir há muitos anos, não é por me esforçar por isso, é por acreditar mesmo que é uma característica natural (de grande valor) que o tempo não apagou.
    “Ser adulto” (tal como “amadurecer”, etc) é um conceito que muita gente leva demasiado a sério e lhe dá características que na realidade não necessita. Mas isso é outra discussão, como muito desnível acumulado, como diriam em trail 😉

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