Quando o Natal dos Hospitais já é o Hospital do Natal

Aviso já o grupo de velhinhos-mentais nostálgicos – sim, acredito perfeitamente que em tempos o “Natal dos Hospitais” foi uma cena top em termos de entretenimento televisivo e não algo que parece uma estratégia da administração hospitalar para vagar camas em função de surtos de morte súbita em pacientes-espectadores. No entanto, sejamos francos, em tempos até a extracção das bolas do Totoloto foi entretenimento top ao nível televisivo, com aquele momento épico em que as crianças como eu tentavam adivinhar se o senhor do Governo Civil estava morto ou a cara impávida e serena era mesmo assim.

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Passar o Natal num hospital do Tahiti até pode ser fixe, a ver as Taytti num Natal dos Hospitais pode ser morte certa.

Hoje em dia o Natal dos Hospitais, mais do que estar na unidade de cuidados intensivos, está com um pé na morgue só que ainda ninguém lhe disse. É certo que as pessoas internadas merecem todo o meu respeito, mas essa é só mais uma razão para abominar o formato em causa. Cheira a requentado e se for pela animação, então pelo menos que se respeite a animação dos que estão em casa saudáveis e podem ir parar ao Hospital se virem o programa completo.

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“Sim, eu sou o Abrunhosa e há 25 anos fui a um Natal dos Hospitais. Foi um dia tão marcante que nunca mais pude deixar de usar óculos escuros”.

Muito mudou, o panorama artístico é outro e há doenças muito mais complexas que reagem mal a artistas pimba ou gente a tentar sobreviver ao Inverno actuando em locais quentinhos e relativamente seguros. Prova que o panorama televisivo-popular já não é o mesmo é o facto quase científico de já só sobrarem para aí duas ou três terriolas no nosso Portugal que ainda não tiveram direito a um programa directo de tarde inteira com o Baião, o Goucha ou o Jorge Gabriel aos saltos numa qualquer Praça Central.

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A Ana Malhoa é responsável por muitos atentados mas, até agora, só foi ao Natal das Prisões como convidada.

E se quiserem ter mesmo a noção que o panorama está a mudar, atentem ao seguinte: há já alguns anos que existe um programa chamado “Natal das Prisões”, com a mesma lógica do outro, mas para reclusos diversos. Isto prova que, para além de doentes, também começámos a ficar trafulhas (ou então que a música popular e a animação bacoca também já são uma tortura aceite pela convenção de Genebra). Descontando o facto da conjuntura já justificar porventura um “Natal no Centro de Emprego”, um “Natal na Loja do Cidadão” e por aí em diante, se calhar o melhor é começar a pensar em soluções diferentes, com um pingo de sanidade lúdica, isto para tentar salvar quem ainda veja televisão nacional e não tenha espetado um garfo nos olhos com o desespero.

É que ébola e legionella são coisas muito bonitas, dão entertenimento mediático qb, mas não ficam bem em palco a entrar depois do Iran Costa e antes de Zé, o Mágico Nudista.

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Um pensamento sobre “Quando o Natal dos Hospitais já é o Hospital do Natal

  1. Naqueles dias, como se diz lá na bíblia, os dois momentos televisivos do ano eram o festival da canção e o natal dos hospitais. E havia quem agendasse a estreia da televisão nova para esses tão maravilhosos momentos de entretenimento nacional 🙂 🙂
    (eu a chorar a tua ausência e tu aqui escondido)

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