Tu vai com calma ou “Dissertações do atleta amador que envelhece”

Não sendo um devoto do culto do corpo nem nada que se pareça, gosto de pensar que cuido relativamente bem do cabedal. No entanto, o gosto que tenho pelo desporto obriga-me por vezes a ter em atenção certos pormenores normalíssimos decorrentes desse factor igualmente normalíssimo que se chama “envelhecer”. Estou agora mais perto dos 40 do que dos 30 e embora não veja nenhum drama na matéria, aquela velha história do “corpo é que paga” é capaz de ter o seu fundo de verdade.

Acho que o factor maior se chama “tempo de recuperação”. Antigamente, menos horas de sono, esforços físicos combinados, pequenas mazelas exigiam um tempo de recuperação mais curto. Hoje em dia, a simples fórmula: levantar cedo para correr + dia relativamente puxado no trabalho + treino de basket nocturno, se tiver lugar em 24 horas pode levar a três dias de recuperação. Junte-se a isso um pouco de vida social ou redução de horas de sono e a festa pode dar para muito mais.

Uma pequena entorse nos velhos conhecidos tornozelos não é um melodrama mas, para os moldes actuais, é um post it na perna durante algum tempo, especialmente sem o devido repouso.

Lido bem com dor e tenho a noção do equilíbrio que é necessário para que aquela ideia do “estou na boa, é como se tivesse 20 anos” não se sobreponha à realidade, qual delírio peterpanista. O dilema filosófico, a longo prazo, será sempre algo como – estima-se a máquina para usar de forma confortável durante muitos e bons anos, salvo imprevistos sempre possíveis ou joga-se no limite, dentro do que é aceitável, sabendo que a marcha nunca vai parar e que o nosso horizonte físico tende a um declínio cescente?

Curiosamente, há pouco tempo, um jogador de top na NBA – Derrick Rose, ainda bastante jovem mas que teve que lidar com algumas lesões graves nos últimos anos, teve algumas declarações suas a causar um certo desconforto nos media quando disse que hoje em dia, perante problemas físicos com que se depara, não tinha apenas em conta o desempenho físico que era esperado de si, como as suas própria expectativas para o futuro do seu corpo depois de terminada a carreira de atleta profissional. Isto é, sim quando jogo dou o meu melhor, mas se sentir que preciso de ser poupado, não penso apenas em mim como atleta, mas também como pessoa que pretende ser saudável ao longo da vida toda.

Longe desse patamar, tenho uma visão em parte parecida com esta – quero fazer o máximo que puder, exigindo de mim alguns sacrifícios se tal for preciso, mas não quero ser escravo de objectivos que deixem de ser coisas que me dão gozo para serem fixações. Se puder fazer uma maratona aos 70 anos, gostaria muito, mas se fizer provas de 10kms, talvez isso me chegue. Se puder jogar basket com os amigos para lá dos 50, seria bom, mas se fazer uns lançamentos sozinho ou em família for a meta possível, vamos a isso.

Sabendo que o baralho é muito maior do que as cartas que tenho na mão, a ideia é continuar a jogar, mas tendo sempre em conta as mãos que vão sendo jogadas.
E agora, vou ali ter com o Reumon Gel, um bom amigo que compreende estes meus desabafos.

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2 pensamentos sobre “Tu vai com calma ou “Dissertações do atleta amador que envelhece”

  1. Ainda não consigo fazer as pazes com o meu corpo quando ele não me permite fazer o que quero e isso me parece perfeitamente razoável. Não sei se o Reumon Gel trata este tipo de amuos, se a idade ajudará, ou se serei eternamente otária. Quando sou obrigada a parar, o que me apetece é pegar num bulldozer e passar a ferro todos os atletas que prosseguem alegremente com os seus treinos, ignorantes do privilégio que é não estarem lesionados.

    (isto da tua caixa de comentários ser encimada por um “tens a certeza disso que dizes?” coloca uma grande pressão sobre os leitores do blogue. Não tenho a certeza, não)

    • O objectivo aqui é mesmo questionar tudo, começando pelo facto de ainda haver gente disposta a comentar barbaridades 🙂

      Quanto à “inveja” sobre gente saudável a correr nas ruas, é perfeitamente aceitável, desde que não atires pedras a pessoas que corram habitualmente no eixo do Campo Grande (e se tiveres mesmo que atirar, poupa-lhes os tornozelos).
      O que tenho aprendido, dentro das minhas limitações (e fora dos azares maiores que te batam à porta), é mesmo que o repouso e o “parar 1 semana é melhor que parar 1 mês” é algo que é fixe escrever na testa para não esquecer e levar a sério (e para gerar interacções na rua com estranhos) 🙂

Tens a certeza disso que dizes?

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