O sítio das coisas selvagens e do Carlos Alberto

Carlos Alberto, outro que não o Moniz, debatia-se com um problema. Eu tinha-lhe confiado uma missão para a qual ele não se julgava preparado. “Tenho mesmo que ser eu?” perguntou-me ele, fazendo beicinho, “Tens Cabé, tens mesmo que ser tu”, respondi eu com a calma de quem lhe traçou o destino e o cinismo de quem sabe que muito provavelmente tão má como a missão era a maldade de o tratar por um diminutivo.

Na sequência da minha decisão de neste Natal não querer ser um velho do Restelo (apesar de sócio do Belenenses), só me restava criar um personagem para exprimir alguns dos desagrados que foram ocorrendo por estes dias. E assim surgiu o Carlos Alberto, que ficou muito pouco agradado por esta situação, ele que até milho gostava de dar aos pombos, isto no período da sua vida em que foi mais abonado e não precisava de ganhar a vida como personagem em blog obscuro. Nos dias que correm, se tiver pão seco de três dias para atirar a um pombo que seja, já é um dia para relembrar positivamente.

Mas desculpa Carlos Alberto, ias a dizer qualquer coisa sobre o filme “Where the wild things are”. “Ia?”, contorceu-se ele, “Vais”, incentivei eu. “Ok…pois…” pareceu-me ouvir um suspiro de Cabé, mas deve ser engano, porque os meus personagens não suspiram. “Bem, devo dizer-te que tens andado a aproveitar bem a promoção dos canais de filmes que estão em sinal aberto até final de Janeiro. Não só tens feito mais gravações que o Quim Barreiros faz festas académicas, como ainda tens despachado coisas que andavas para ver há muito, mesmo que na minha opinião se trate de lixo cinematográfico, pelo menos em parte”.

“Certo Carlos Alberto, mas não vamos começar com avaliações subjectivas sobre o meu gosto” comentei em tom determinado, para não perder mão ao personagem, “fala lá então do filme do Spike Jonze”.

“Confesso que era um filme que queria ver há algum tempo. Gosto do universo criativo do Spike e a história pelo que sabia tinha aquela espécie de cruzamento mitológico entre o mundo dos adultos e a fantasia imaginativa das crianças que pode ter um resultado pronto a encher-me as medidas”.

“Não te estás a esquecer de nada, Carlos Alberto?”. A expressão vaga foi literalmente a que eu tinha imaginado “Estou….” – “Sim, estás, a banda sonora…”

“Ah pois é, além disso tinha já passado muitas horas a ouvir esta banda sonora, um clássico exemplo que a música de um filme pode viver bem sem ele, mas também serve para alimentar as nossas expectativas, porventura para além do recomendável.”

Achei que fazia bem em cortar as deambulações do Cabé, por isso insisti na clarificação “Posso então deduzir que não gostaste do filme…”

“Não gostar é um termo forte. Creio que o termo certo é…”, Carlos Alberto procurou-me em busca da palavra certa, colocada por mim estrategicamente no seu bolso direito do casaco, o qual lhe indiquei com um gesto “…desiludi(u)-me. Por culpa minha talvez, mas o universo das coisas selvagens e o papel do rapaz que tinha construído na minha cabeça não bateram certo com o que estava a ver, achei simplista e óbvio, quando esperava elaboradamente simples mas surpreendente. Mas nunca poderia não gostar de algo que inclui um monstro com os trejeitos e a voz do Gandolfini, creio que foi a desilusão de ver que era só um castelo de cartas e não uma super mansão luxuosa, com piscinas de ases e mezzanines feitas de trunfos.

Foi apenas e só uma desilusão que não seguiu o percurso normal, que passa por mim a não comprar o pressuposto que me estão a vender num filme. Neste caso, tive que rejeitar a minha própria compra que me dizia que este ia ser um pedaço de cinema que iria marcar a minha visão de histórias do género”. Carlos Alberto pausou e procurou o meu assentimento.

“Não devias criar gigantes com pés de barro Cabé…”. Ele levantou vagarosamente o dedo do meio da mão esquerda e sorriu em tons de amarelo torrado “E tu não devias criar personagens só para sustentar posições ridículas sobre filmes que já nem novidade são…”. Dois pontos para o Cabé e lá o deixei ir. Só espero que ele goste do HER, que já o tenho gravado na box e aposto que o vai querer ver antes de mim.

Anúncios

Tens a certeza disso que dizes?

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s