O período rotundista português

Dizer que eu sou um tipo dado a metáforas e a figuras de estilo é um eufemismo. No entanto, estando a pensar (e a passar) nas doses super de rotundas que abundam por aí, ocorreu-me a ideia de um paralelismo: será que esta paixão por rotundas não deriva inconscientemente do misto de indecisões que povoam a nossa vida e do facto de andarmos tantas vezes às voltas em sucessão até encontrarmos a saída certa, só para chegarmos pouco tempo depois a nova rotunda?

Tudo bem que isto seria muito mais bonito num país de autarcas filósofos, em vez de trocarmos regularmente a palavra “filosofia” por “corrupção”. Ainda assim, é uma corrente filosófica bastante redondinha.

E, para não dizerem que só se partilha alarvidade por estas bandas, fiquem com esta bonita rotunda lisboeta que já não existe mas que acho que deve ter tornado a zona bem mais charmosa naqueles tempos.

Alvalade Old School

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O Sr. Bluff quer mudar de operador de TV

Desde quando é que mudar de operador de telefone/televisão/net se tornou algo com mais bluffs que o Campeonato do Mundo de Poker?

 

Era uma vez uma simples chamada telefónica de alguém com uma proposta na mão para pagar menos pelos seus serviços de tv/net/telefone.

Eu vou mudar de operador.

(não vais nada, queres é baixar uns cobres)

Vou mesmo mudar, eles fazem-me um preço melhor.

(lá está, queres baixar uns cobres, não vamos em cantigas)

Oiça, eu sei que é possível, eu tenho um vizinho com o vosso serviço que paga menos do que eu.

(tens, tens, bluffista do cocó, ainda te vendo é um canal de desporto que até apitas)

Não, não quero canal de desporto nenhum, quero este preço ou saio.

(Sais, sais, queres é mais 200 megas de Internet no telemóvel)

Também não estou interessado em net no telemóvel e, se não pode fazer nada por mim, vou mesmo rescindir.

(Tadinho, vai rescindir, a malta baixa 2€ e amochas mais 2 anos é o que é)

Então adeus até à próxima, tipo nunca.

(….)

 

Uma semana depois

 

Olá Senhor Bluff, então não é que lhe podemos fazer mesmo um preço mais baixo e que se calhar não precisa de nos deixar.

(amigo, vá lá ver as cassetes gravadas, eu já deixei o vosso serviço)

Não deixou nada, vá lá este preço é mesmo o que o Senhor Bluff queria

(Olhe, não há nada a dizer eu já sou um ex-cliente)

Deixe-se lá de histórias, até lhe ofereço a Legumes TV, óptimo canal de vegetais animados que fazem receitas e chamadas gratuitas para o Botswana a partir das oito da noite ou à hora da única refeição do dia por lá.

(…)

Estou? Estou? Sr. Bluff? Deixe-se lá de fingir que desligou e aceite lá esta oferta.

 

Uma cabeça de coelho, Prodigy e o início das coisas

Não tenho bem a noção que sempre tenha querido trabalhar na área da publicidade. Aliás, o que o meu caminho sempre me levou a considerar foram áreas em que a criatividade e a escrita pudessem conviver e, como é óbvio, nem sempre esse percurso foi linear.

Bem vistas as coisas, há uma sensação de eterno descontentamento que me diz que não vejo uma carreira nesta área como um corredor interminável, mas sim como algo cheio de portas laterais que me vão permitindo fazer e descobrir outras coisas que me dão gozo. Umas vão-me surpreendendo, outras sou eu que as vou tentando construir e, certamente, não vão faltar portas que hão de cair em cima e obrigar a mostrar ninja skills para não ficar tipo panqueca.

Mas, voltando um bocadinho atrás, se me perguntarem num dado momento, o que é que eu vi que me disse, “Olha, publicidade, sem ser a distribuir folhetos da Telepizza ou a vender faqueiros a idosos, até é capaz de ser engraçado”, a resposta pode muito bem ser isto.

Já não sei bem em que contexto me apareceu este anúncio à frente, mas é capaz de ter sido uma qualquer palestra/fórum na universidade. O senhor bem falou, mas o que eu me lembro é de no fim ter ido ter com ele e pedido para ele passar aquilo outra vez.

A narrativa potente sem ser dita uma palavra, a estética agressiva mas cuidada, Prodigy no auge dos Prodigy, o twist final e a proposta de algo (comercial) que é feita não de forma bruta mas metafórica e inteligente. E tudo isto em 1 minuto. O que há para não gostar?

É certo que o formato televisão nem é o que mais me apela em publicidade, mas a ideia de contar histórias é transversal e por algum motivo se pinta hoje em dia o conceito de storytelling como o caminho a seguir para envolver pessoas e marcas, etc e tal. Não é novidade e contar histórias (não esquecendo o propósito da concretização) sempre foi um dos propósitos da narrativa publicitária (argumentos de venda dirão alguns), o que mudam são os formatos, a ligação entre os mesmos e a eficácia que se tira do que se produz.

Para mim, para além de um trabalho, é só mais uma forma de escrever e dar vida a coisas. Nem sempre vão ser ‘obras primas’, mas se amanhã deixasse de trabalhar neste meio poderia olhar para trás e ficar satisfeito com o que tive oportunidade de fazer, antes de arranjar forma de ficar insatisfeito com tudo o que teria para fazer a seguir.

Se fores à Feira Popular não leves a memória

Nos últimos anos aconteceu-me sempre o mesmo. Chega a altura do Natal, começa a animação na zona onde antes era a Feira Popular e eu, que moro relativamente perto, passo lá todos os dias a pensar que se calhar podia lá dar um salto. Depois aquilo fecha e eu digo que para o ano é que é.

E, finalmente, este ano é que foi e no último fim de semana em que o recinto está aberto, que é para tratar das coisas à portuguesa.

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Não sei bem como descrever a visita, mas creio que a tive que dividir em duas partes – a primeira foi à chegada, quando se dá o choque com a memória que tenho do recinto, das vezes todas que lá fui em miúdo e adolescente, com a família ou com amigos. E, por esse prisma, aquilo é uma sombra, uma espécie de escombro animado, onde um piso estilo pós-apocalíptico e uma ou outra ruína servem de palco para uma mão cheia de diversões que já viram melhores dias, com duas ou três barraquinhas para cumprir os requisitos mínimos de farturas, algodão doce e música literalmente de “carrinho de choque”. Não é bonito e para mim circo nem sequer faz parte da equação.

 

Mas depois, tive a noção que se era para apreciar a companhia e o momento, a memória tinha que ficar à porta. E o que mudou então?

Bem, o piso continuou a ser pós-apocalíptico, parece irreal haver só uma barraquita com farturas e é impressionante como a kizomba se integrou nos sistemas sonoros de diversões e carrosséis. Mas, caso se inspire fundo, posso dizer que no único “mais ou menos” salão de jogos existente encontrei mesas de matraquinhos como não se via há muito. E isso, meus amigos, por muita ferrugem que ainda tenha significa uma mão cheia de partidas à moda antiga com bolas de madeira no tapete verde.

É tudo uma espécie de amostra surreal mas, ao fim ao cabo, especialmente para os miúdos mais pequenos, é um tipo de divertimento que não se encontra na cidade, embora provavelmente muitos dos que lá vão, vão pela mão dos pais que vão fazer um teste às memórias que tinham da Feira Popular. Talvez um espaço diferente, criado de base algures na cidade como parque de diversões seja o que é preciso para criar memórias novas.

A Feira Popular, como foi em tempos, essa já não existe mesmo que no espaço dela ainda se avistem alguns fantasmas de diversão.

Das quedas e do humor que elas geram

O palco estava montado. Curva no final da Avenida do Brasil, a caminho da Gago Coutinho e a noção de que “se calhar é melhor não ir junto ao muro”. Seguem-se dois/três segundos muito intensos e é num instante que passo de gajo parvo que aproveitou para correr no intervalo da chuva matinal a gajo parvo deitado no passeio.

O culpado: Muito possivelmente uma combinação entre chão molhado/sujo e o facto de alguém, vulgo eu, não ter travado um bocadinho mais.

Os beneficiados: Automobilistas que começavam a descer a Gago Coutinho por volta das 7.45 da manhã. Nada anima uma manhã chuvosa como alguém a espalhar-se.

O rescaldo: fazendo o que fazem 90% das pessoas que caem na rua e não ficam logo KO, levantei-me de um salto e fiz um check up genérico. Mãos doridas pelo impacto, a perna direita é que levou com o peso, mas como foi deslizante, do mal o menos. Presume-se um joelho esfolado e uma coxa que, sem ir ao forno, deverá ficar com uma bela nódoa negra.

A seguir é a descer, portanto siga o caminho, mas a controlar possíveis danos. De certeza que me fazem uma festinha quando chegar a casa.

Usei o resto do percurso não para bater marcas ou em mim próprio, mas sim para tentar perceber o que é que tem tanta piada quando vemos alguém cair, quedas comuns, nada de saltos para a falésia ou cenas gore. O simples tralho, trambolhão, salto para a piscina de pedra, malho ou espetanço. Nem sequer vou derivar para a corrente que diz que “Quanto maior o peso de quem cai, mais piada tem”, porque me parece simplista.

Não sei se é o acto em si, mas a queda tem algo que fascina quando não é propositada. É algo entre a descoordenação, a desorientação, o imprevisto de quem cai e a tranquilidade passiva de quem observa que forma um misto que, mesmo quando não é hilariante, tem ali algo de cómico. Obviamente, o pós-queda quando não tem complicações físicas também tem a sua piada, pois inclui a negação, através de um salto quase instantâneo da pessoa que cai para regressar à posição vertical, que por vezes também tem muito de cómico, pois a desorientação ainda lá está. Nada dá mais gozo ao observador de uma queda do que ver a pessoa que caiu a tentar fingir que nada se passou.

É certo que no Youtube existe hoje em dia uma indústria de filmes dedicados a quedas, algumas delas que fazem mais impressão do que outra coisa mas, ainda assim, duas coisas continuam verdade: é quase impossível resistir ao poder humorístico de uma queda sem sequelas graves e ser o observador fortuito da mesma é quase tão reconfortante como encontrar cinco euros no chão.

Mas isto sou eu, que tenho uma visão e uma ética ligeiramente retorcida.

Mais que um vilão, uma lenda. Até sempre Rocha

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aqui tinha falado sobre o desaparecimento do mítico António Rocha, vilão de bom cabedal e farta bigodaça em Duarte & Companhia. Ainda assim, a ocasião levou-me a rever alguns pormenores da série e é incrível observar que, apesar da produção estar datada (nomeadamente ao nível de recursos), o humor ainda está bastante actual e não perdeu muito em referências de época. Não sei se viverá para sempre, mas a memória deste gangster à portuguesa, essa já tem um lugar no Olimpo das figuras televisivas nacionais.