Estamos todos a ficar sem rede

Estou numa mesa. Não estou nela só por estar, que isso de estar à mesa para mim tem sempre algum propósito adicional. Neste caso, estou numa mesa a comer e a falar com a pessoa à minha frente, com o cuidado de intervalar ambas as funções, para não correr o risco de cuspir a minha conversa.

Como estou numa mesa num local público, por vezes a minha atenção deriva para as mesas à minha volta, nas quais estão outras pessoas. A mesa ao lado é composta por quatro pessoas que, pela conversa, se juntaram para almoçar e colocar a conversa em dia assim que estivessem frente a frente numa mesa. Só que esse “assim” é antecedido de um surto “swipista”, em que cada um dos presentes nessa mesa passa em revista as fotos, os updates e os posts das redes sociais a que pertencem antes de conseguirem ter uma conversa coerente. De vez em quando, há um que tenta começar algo “Então e planos para…”, mas é interrompido por “Ai, estou tão mal nesta foto, deve ter sido a pior da festa” e ainda por “Bem, olha o post, não era preciso foto para perceber que já estava com os copos”.

Deve ter passado algum tempo, mas não prestei bem atenção, tão focado que estava em ter uma conversa estranha sem dispositivos móveis na mesa. Só voltei a reparar neles quando uma das mais activas “swipistas” se converteu na primeira a baixar o telemóvel e a dizer de sua justiça.

“Vocês são impressionantes, convidam-me para almoçar e passam o tempo todo agarrados ao telemóvel. Se é para isso, almoço sozinha que vai dar ao mesmo”. Um dos outros protesta “Mas tu estiveste até agora a fazer o mesmo…”, mas leva logo “Só peguei no telemóvel para responder a uma mensagem…” (amnésia instantânea às 200 fotos da filha que mostrou, ao report da festa a que foi e ao fixe que estava a praia no primeiro dia do ano). A indignação estava ao nível do cinismo.

Começo a achar que é remar contra a maré pensar que o telemóvel/tablet não tem lugar à mesa e que não há necessidade de reports do passado e actualizações do presente em directo. No entanto, ainda não consigo digerir menos o sonso de circunstância, que tão depressa faz o que é condenável, como a seguir condena os que fazem o mesmo.

E agora desculpem que tenho de ir jantar e estão seis pessoas sentadas a uma mesa à minha frente à espera que publique o post para começarem a comer.

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3 pensamentos sobre “Estamos todos a ficar sem rede

  1. Reservo o meu fundamentalismo (quase) todo para esta questão. À mesa não há equipamentos electrónicos. E não é que temos sempre conversa?, parece impossível.

    • Por norma, também tento seguir esse princípio. Mas as regras da (minha) boa educação não me permitem aviar alguns convidados que se tentam escapulir a essa regra.

      Resta-me atingi-los com ironia e sarcasmo de boa cepa 😉

      • Evidentemente que estava apenas a referir-me aos dois seres humanos que controlo (muahahahah!). Por enquanto, pelo menos. O terceiro ser humano que também come connosco costuma ser colaborante.

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