Afogados em reacções num mundo feito caricatura feia.

Já li e ouvi muita coisa sobre a tragédia que ocorreu em Paris. Sobre a situação em si não creio que possa dizer muito mais que traga valor acrescentado quando há quem o tenha feito bem melhor que eu, em muitos casos recorrendo apenas a traços que valem muito mais que palavras.

O que é curioso, porventura no sentido mórbido da curiosidade que faz com que tanta gente abrande perante acidentes no outro lado da estrada, é observar as reacções. Não as reacções naturais de quem simplesmente se identifica ou se repugna com um acto que, visto sob qualquer perspectiva racional, é absolutamente condenável. A vida humana deveria estar sempre acima de qualquer ideologia ou crença. Pena que boa parte da Humanidade esteja longe de compreender isso.

Nesse aspecto, como já escrevi algures, numa época em que o humor é tantas vezes o escape saudável para tanta coisa que causa dor, o mundo tornou-se hoje um lugar mais sério, no pior sentido da palavra.

Já a minha curiosidade mórbida prende-se com reacções que, infelizmente, querem ser algo mais do que isso e acabam por se tornar apenas caricaturas feias de quem as emite. Tudo isto sem ter que me esforçar muito, porque o “virtuosismo” da vida digital que muitos de nós levamos faz com que tudo (de bom e de mau) fique rapidamente à distância de um feed qualquer. Escorrem-me pelos olhos palavras que se transformam num loop desfocado em que os tristes eventos de hoje são apenas um pretexto para posições que, por respeito ao significado maior de uma tragédia assim, não deveriam sair do interior das cabecinhas onde nasceram.

Então e a liberdade de expressão?

Essa não está em causa, apenas a inteligência no seu uso. Vi figuras que se intitulam “llfe coaches” a mostrar que têm ainda muito que aprender sobre a vida até poderem ensinar o que quer que seja sobre a mesma. Vi humoristas a destilar azedume sobre injustiça, incompreensão e hipocrisia dos media e de A ou B, alheando-se porventura que, mais do que o humor negro, em situações assim é difícil compreender o negrume no humor. Vi políticos a tentar apontar cordas nas marionetas responsáveis pela tragédia, enquanto se baralhavam nos fios que lhes prendem os próprios braços. O facto de serem figuras públicas, numa era que em que esse estatuto é capaz de valer menos que um quilo de cerejas, talvez ajude a desvalorizar aquilo que mandam cá para fora. Ainda assim, essas e outras reacções do mesmo género acabam por ir lentamente ao fundo arrastadas pelo peso que lhes tentaram conferir e pela forma como o “público” (bem mais vasto que “o seu público”) as percepciona.

Transcrever nomes, discursos e posturas com as letrinhas todas seria estar a dar (ainda mais) protagonismo a caricaturas feias que certamente já tiveram os ecos que mereceram, quando o dia deve ser usado para dar relevo ao traço que hoje ainda pode ser de sangue, mas amanhã devia ser de esperança.

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