Não tirem a seriedade às sobremesas

Tenho uma relação complicada com sobremesas, especialmente as que me são postas à frente em restaurantes. Sou uma tipo que gosta de doces, mas com os gostos bem definidos em relação às sobremesas – não ligo pevas a alguns clássicos como mousse de chocolate ou pudim flan, retiro da equação 99% de tudo o que cheire a doce conventual mas em termos de tartes, cheesecakes e afins, a aceitação/critério de exigência estão bem ao alto. Também como gelados em pleno inverno, mas não considero um gelado uma sobremesa de restaurante pois para mim, gelados são para ser consumidos nas geladarias (isto enquanto sobremesa, gelado enquanto “momento de abstracção glutónica” pode ser num qualquer quiosque da Olá).

Depois também acredito que não se pode comer uma sobremesa com base no critério “esta faz menos mal” ou “essa não é muito saudável, é melhor escolher outra”. Malta jovem, é uma sobremesa, não é suposto competir nesses critérios, senão não se chamaria sobremesa, teria um nome tipo “saudávelmesa” ou “fruta”. Exacto, fruta não é sobremesa e salada de frutas também não – fruta é para comer em qualquer altura e nunca devia ser o culminar de uma refeição. A não ser que tenhamos mais de 300 anos e aí torna-se aceitável pedir uma laranjinha cortada às rodelas com açúcar por cima.

Sou ainda da opinião que se o teu restaurante não tem arcaboiço para meia dúzia de sobremesas de qualidade, que tenha três ou duas ou uma que seja. Porque bem vistas as coisas, uma sobremesa por vezes é cobrada a quase 50% do valor de um prato e se aquilo não vale a pena, é a memória final que muitas vezes se leva daí. É como aquelas relações que foram espectaculares durante X tempo, mas as pessoas só se lembram dos últimos meses infernais.

E, assim sendo, eis desilusões recorrentes que encontro em sobremesas de restaurantes, mais especificamente em três sobremesas que eu aprecio.

 

Cheesecakes da tanga – São mais que as Testemunhas de Jeová nas ruas. Aquilo não é só misturar natas, bolacha e uma compota manhosa e o nome virou categoria para coisas que mais valia serem Chispecake. Já nem refiro as balelas tipo “Cheesecake nova iorquino” quando aquilo é menos americano que a Avenida dos EUA. A ASAE devia ter uma brigada SWAT pronta a acabar com quem abusa do nome do cheesecake e sai impune.

Tarte de amêndoa – Tarte de amêndoa é para ter base abiscoitada e topo com amêndoa seca torrada e bem caramelizada. O gang pós-moderno das tartes (que vão de Tatin ao raio que os parta), meteu a malta comer tartes de amêndoa com massa fofa ou com um creme meio manhoso que só cheira a caramelo e faz chorar as amêndoas envolvidas na sua cobertura. Acredito que existam boas tartes com receitas diferentes, mas essas não são a clássica tarte de amêndoa. Toca a arranjar um nome cocó para as mesmas, que não faltam por aí entusiastas do género.

Bolo de Chocolate – Concedo que existem vários bolos de chocolate, todos eles os melhores do seu mundo. Primeiro que tudo, sou alérgico a esses títulos, pois o melhor do teu mundo, acaba onde começa o melhor do meu mundo. Depois há a fórmula do “bolo-brigadeiro”, que se tornou uma praga, em miniatura acho a coisa muito engraçada, num formato normal, todas aquelas pepitas e cremes para encher deixam-me desconsolado. É difícil encontrar um bom bolo de chocolate que não tenha sido pervertido pelo modernismo, pelo cruzamento com outras sobremesas ou por termos em francês, que podem ser muito porreiros para engatar miúdas mas não têm o mesmo efeito em mim e no meu garfo de sobremesa.

E este eu não gosto, mas acho muita piada ao conceito – “Doce da casa”, isto é, vou aqui criar uma granada de açúcar com tudo o que achei que pode ser doce e deixar o cliente cheio que nem um porco. Está ao nível do “Doce da avó”, sendo que devia ser uma avó muito calona, já que aquilo é sempre um bocado pobrezinho.

Agora faço uma pausa e vou ali almoçar, sem sobremesa. Sempre me sobra mais tempo para pensar no simpático que fui em não mencionar um conceito mais preocupante que a saudosa legionella Andrade (ok, esta foi fácil) – o vaga/praga/moda dos cake designers. Antes a sobremesa favorita dos xadrezistas, o chessecake.

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2 pensamentos sobre “Não tirem a seriedade às sobremesas

  1. Oh meu Deus, estou tão emocionada! Somos almas-gémeas de sobremesas. Por favor não me digas que também torces o nariz ao arroz doce e às farófias senão tenho de ir perguntar ao meu pai o que andou a fazer em [9 meses antes de nasceres].

    • Ahah, as coisas que se descobrem – bem, torço muito o nariz ao arroz doce de quase todas as proveniências, tirando uma ou outra receita sagrada. Ao nível de farófias, idem/idem aspas/aspas, pelo que é muito raro comer qualquer uma dessas sobremesas em restaurantes e afins.

      🙂

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