Das quedas e do humor que elas geram

O palco estava montado. Curva no final da Avenida do Brasil, a caminho da Gago Coutinho e a noção de que “se calhar é melhor não ir junto ao muro”. Seguem-se dois/três segundos muito intensos e é num instante que passo de gajo parvo que aproveitou para correr no intervalo da chuva matinal a gajo parvo deitado no passeio.

O culpado: Muito possivelmente uma combinação entre chão molhado/sujo e o facto de alguém, vulgo eu, não ter travado um bocadinho mais.

Os beneficiados: Automobilistas que começavam a descer a Gago Coutinho por volta das 7.45 da manhã. Nada anima uma manhã chuvosa como alguém a espalhar-se.

O rescaldo: fazendo o que fazem 90% das pessoas que caem na rua e não ficam logo KO, levantei-me de um salto e fiz um check up genérico. Mãos doridas pelo impacto, a perna direita é que levou com o peso, mas como foi deslizante, do mal o menos. Presume-se um joelho esfolado e uma coxa que, sem ir ao forno, deverá ficar com uma bela nódoa negra.

A seguir é a descer, portanto siga o caminho, mas a controlar possíveis danos. De certeza que me fazem uma festinha quando chegar a casa.

Usei o resto do percurso não para bater marcas ou em mim próprio, mas sim para tentar perceber o que é que tem tanta piada quando vemos alguém cair, quedas comuns, nada de saltos para a falésia ou cenas gore. O simples tralho, trambolhão, salto para a piscina de pedra, malho ou espetanço. Nem sequer vou derivar para a corrente que diz que “Quanto maior o peso de quem cai, mais piada tem”, porque me parece simplista.

Não sei se é o acto em si, mas a queda tem algo que fascina quando não é propositada. É algo entre a descoordenação, a desorientação, o imprevisto de quem cai e a tranquilidade passiva de quem observa que forma um misto que, mesmo quando não é hilariante, tem ali algo de cómico. Obviamente, o pós-queda quando não tem complicações físicas também tem a sua piada, pois inclui a negação, através de um salto quase instantâneo da pessoa que cai para regressar à posição vertical, que por vezes também tem muito de cómico, pois a desorientação ainda lá está. Nada dá mais gozo ao observador de uma queda do que ver a pessoa que caiu a tentar fingir que nada se passou.

É certo que no Youtube existe hoje em dia uma indústria de filmes dedicados a quedas, algumas delas que fazem mais impressão do que outra coisa mas, ainda assim, duas coisas continuam verdade: é quase impossível resistir ao poder humorístico de uma queda sem sequelas graves e ser o observador fortuito da mesma é quase tão reconfortante como encontrar cinco euros no chão.

Mas isto sou eu, que tenho uma visão e uma ética ligeiramente retorcida.

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Um pensamento sobre “Das quedas e do humor que elas geram

  1. Bom tema. Também sou um grande apreciador de quedas, inclusive das minhas (tenho quedas históricas, espalhadas por vários países). Para mim o valor da queda reside no efeito de transição dos estados composto –> descomposto. A imagem do ser humano a perder o seu lugar de controlo, físico e social, que tanto tempo demora a construir em coisa de um, dois segundos. E a queda também é maravilhosamente democrática, mostra que todos podemos ser ridículos, ninguém é mais forte que a gravidade. Se a pessoa emergir de semblante desgrenhado, ainda melhor. Quanto mais profunda é a transformação no pós-queda, mais engraçado o episódio (a não ser que parta alguma coisa). Na minha corrente de análise, não creio que o papel do outro seja determinante no valor da queda. Se um gordo cai numa floresta, e mesmo que ninguém esteja lá para ver, continua a ser engraçado.

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