Visto de um campo de basket, o futuro de Monsanto ainda é verde?

Monsanto é um espaço privilegiado de Lisboa e pena será se só dermos por isso quando começarem a fatiá-lo estilo presunto. E, com as últimas notícias de planos e licenças atribuídas para iniciativas turísticas promovidas em concursos ligeiramente sombrios que, entre outras coisas, têm prevista a demolição de um dos poucos campos de basket de livre acesso em Lisboa, a preocupação é mais do que compreensível.

Nem sempre foi assim, lembro-me de ser miúdo e Monsanto ser uma zona meio sombria, em que espaços como o Parque do Alvito ou os campos de ténis eram uma ilha e, entre prostituição e outro tipo de actividades ‘esquisitas’, Monsanto era apenas um atalho arborizado que as pessoas usavam para ir de um lado para o outro da cidade e tentar escapar ao trânsito.

É certo que a vertente de fuga ao trânsito ainda existe mas a envolvência mudou completamente. Hoje em dia, para os lisboetas Monsanto é um destino recorrente para um conjunto de actividades de lazer que vão desde correr, andar de bicicleta, passear cães ou utilizar algumas das instalações que se mantiveram e que já referi, para além de outras como o Skate Park e o assunto que me levou a escrever isto – três pequenos campos de basket junto a um parque de merendas.

No link que partilhei, fala-se de um plano que inclui um conjunto de unidades hoteleiras, incluindo algumas de ‘cariz bucólico’, nomeadamente naquela que era a residência oficial do Presidente da CML e que ainda há poucos anos teve direito a investimento de requalificação. O concurso público, que só teve um participante, inclui ainda o direito a vedar/requalificar a área onde agora existem estes campos.

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E para fazer o quê? Segundo o previsto, alguma coisa estilo um espaço para eventos onde poderá ser colocada uma tenda em lona…

Três campos de basket podem parecer uma ninharia para quem ligue pevas à modalidade mas, para além do espaço familiar envolvente, campos de basket de acesso livre são escassos em Lisboa e estes são daqueles que são usados com frequência. Aliás, mais utilização teriam se tivesse suporte de iluminação, já que isso é um factor condicionante (a localização pode ser obstáculo para quem se desloca a pé, mas isso é como tudo em Monsanto).

Ao longo dos anos tive oportunidade de jogar inúmeras vezes nesses campos e se há coisa que é interessante de ver é que o tipo de utente prova a transversalidade do espaço. Vi gente que joga a fazer quase mini-torneios não oficiais, vi gente que só queria tirar alguma ferrugem e fazer uns lançamentos, vi miúdos de todos os tamanhos e jeitinho para a coisa e vi gente mais velha – Some-se a isto tudo o facto de que este é um espaço de promoção a uma das modalidades que mais precisa de alargar bases de praticantes e a ideia simples que basta uma pessoa e uma bola para uma tabela já estar a ser bem aproveitada.

Existem na cidade poucos suportes para a prática da modalidade ao ar livre e os poucos que subsistem (ex: 2 tabelas no Estádio Universitário, 2 no Parque de Jogos 1º de Maio) devem-no à sua localização e enquadramento semi-privado. Aqui e ali, como em Telheiras, nas traseiras da Avenida de Roma ou em tempos no Jardim do Campo Grande, há/houve uma ou outra tabela, mas são espaços perdidos que servem os habitantes locais e cujo o equipamento não raras vezes é danificado (e aí só se pode culpar quem usa e não preserva).

Mas, em Monsanto, o espaço do Penedo sempre foi subsistindo, com os seus players de todos os tipos. Era bom ver mais campos assim, em locais de circulação da população em tempos de lazer, como Belém, Expo, Jardim do Campo Grande e/ou outros jardins, mas o cenário não é esse nem se prevê que venha a ser. Aliás, decisões destas, baseadas em critérios económicos e do piscar de olhos à bruta para o turismo (há estudos de viabilidade? É possível criar um investimento brutal numa zona verde sem ter o impacto devidamente avaliado?), são apenas um alerta para quem as testemunha: podemos abrir os olhos agora ou ficar depois a olhar para o que já não volta atrás.

Não sei as respostas para algumas das perguntas sobre o futuro de Monsanto, mas creio que este é apenas o princípio. Faz-me confusão o final de um equipamento raro e acarinhado por tanta gente, sem que se preveja algo do género: ‘Sim, vamos tirar estes campos mas há planos para fazer novos campos aqui e ali” mas, acima de tudo faz-me confusão que se esteja a começar a explorar uma zona verde de uma forma que pode alienar os que, pelo seu uso e frequência, a ajudaram a ser hoje muito mais apetecível do que antes foi. Os habitantes de Lisboa.

Por isso, não sei se o futuro de Monsanto será ou não verde. Preocupa-me primeiro que possa vir a não ter futuro e essa é uma das razões que me levaram a subscrever uma petição que já circula relativamente, numa primeira instância, à preservação dos Campos de Basket de Monsanto mas que é verdadeiramente sobre muito mais que isso.

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