A meta é onde eu quiser

Sou teimoso. E isto não é um blog de corrida, mas sim um blog de um gajo que corre por aí fora, pelo meio de outras coisas.

Agora que já tirámos estas constatações da frente, eis o que se passou no domingo, o tal em que não ia correr a Meia Maratona de Lisboa.

Recebo um telefonema sábado à tarde que me pede companhia e me dá um dorsal em troca. ‘Vá lá…’ dizem do outro lado ‘Epá, mas a confusão…e depois eu queria correr mais e ir a um sítio que me anda a fugir há uns tempos’. Mas, eis que me dizem que o meu dorsal é de um senhor com 58 anos e que posso brilhar num escalão para idosos.

Lá sou convencido, mas faço preparativos para garantir que me oferecem banho algures e digo com convicção ‘Olha que só lá vou treinar, depois da meia maratona há mais 10kms para correr’. Obviamente já não obtive resposta, sei bem que depois da meta ia continuar a correr sozinho.

Depois de mais uma viagem de comboio pela ponte, em estilo enlatado aconchegado, chega-se ao tabuleiro. Fotos da praxe e a descontracção de saber que não estava ali para bater recordes. Acho que foi a primeira vez que, não estando sequer semi-lesionado, fui a um ritmo abaixo do meu limite, o que acabou por ser bastante interessante, pois permitiu-me prestas atenção a muitas coisas que acabam por nos passar ao lado quando estamos a fazer pela vida com os bofes de fora:

 

– É impressionante o número de pessoas que vai a um ritmo superior ao que aguenta nos primeiros kms. O que é também compreensível, em função da vista magnífica e do ritmo de acelera-trava-arranca-desvia, da festa no tabuleiro da Ponte.

– O número de estrangeiros está a crescer, especialmente entre malta mais nova, a fazer concorrência aos mais velhos e aos bandos de espanhóis.

– Faça o tempo que fizer no dia anterior, o pacto com o Diabo permite sempre à organização contar com um forno na Avenida da Índia no dia da prova. 

– O acesso aos abastecimentos é, por norma, uma selvajaria. Face a outras provas, parece que as pessoas entram em alucinação por uma bebida isotónica. Malta que atira para o meio da estrada garrafas fechadas também devia levar com uma vara de marmeleiro. 

– O público, tirando legiões estrangeiras é na sua grande maioria amorfo. Quando fiz a maratona de Madrid, assim como algumas corridas em meios pequenos, o público faz-te sentir um campeão mesmo que vás em último.

– Um traçado que implica uma passagem pela meta, quando ainda faltam 7/8 kms para a mesma é desmoralizante para muitos. É notório o número de gente que quebra depois de passar por Belém a caminho do Dafundo. 

– Indo num ritmo a tender para o confortável notamos mais facilmente o esforço dos outros. Com o calor a apertar nos últimos kms, vi muita gente em registo de sofrimento a tentar acabar a prova. Creio que me cruzei com a ambulância que transportava o alemão que acabou por falecer. Não tenho dados estatísticos mas, se por exemplo numa maratona há 10-15% das pessoas que se aventuram na mesma sem estarem devidamente preparados para tal, na meia maratona esse número deve disparar para volta de um terço dos participantes. É certo que o ânimo e a adrenalina ajudam a superar muita coisa, mas nem sempre há essa sorte. E infelizmente algumas destas situações descambam em tragédia.

– Vi um tipo a fazer a recta da meta a sprintar. Até aí nada de novo, tirando o facto de que era perseguido por seguranças e ter aviado um ou dois a murro e pontapé, revelando condição física notável para quem já tinha corrido 21kms. Supõe-se que não tinha dorsal, o que não era verdade, apesar do mesmo não ser visível por causa da tshirt enrolada aos ombros, por causa do calor. O corpo (do segurança) é que paga.

  

Acabei a prova para aí com 10 minutos acima do que poderia fazer, o que ainda assim foi um bocadinho mais rápido do que deveria ter feito, dado o after hours. Não lutei pelo gelado que me era devido, mas ainda fiquei na palheta com uma ou duas pessoas que encontrei, pois há sempre alguém conhecido que faz esta prova. E depois, toca de me pôr a caminho do marco geodésico.

Sobe-se ao Restelo, trocam-se bitaites simpáticos com um velhote na paragem do autocarro junto ao hospital S.Francisco Xavier, ele gozou com a minha alegada falta de sentido de orientação pois a prova não era por ali, eu gozei com o facto dele recusar vir comigo, em vez de ficar ali sentado. Desce-se a Miraflores e aí acaba a folga, é sempre a subir até Carnaxide e ao Hospital de Santa Cruz (gajo avisado, faz percursos que passam por vários hospitais). Daí chegar ao marco geodésico é perto, apesar de não conhecer o bairro de vivendas. Chegar todo roto acrescente-se, mas com alguma poesia nos lábios, embora de cariz popular-brejeiro.

IMG_0071

O ermo onde fica o marco leva a uma vista magnífica, como já mostrei. Mas, apesar das fotos e da recompensa anímica, o céu carregado vem na minha direcção. Raspa-te dali rapaz, que o teu local para banhos ainda fica a 15 minutos de distância, isto se mexeres as pernas.

A meio do percurso chega o banho antes de eu chegar ao banho. Não refilo, aprecio, o asfalto quente cheira a chuva e ajuda a esconder cansaço nas pernas. Pelo menos até chegar ao destino.

A volta está feita, a maratona já parece lá ao longe e eu gosto de garantir que o domingo não vai ser normal, apesar de ainda ir a meio.

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