Notas de Madrid, de estômago e de férias

Estou de volta e com coisas para dizer apesar de ainda em registo férias (vai-te enganando alminha, o que tu tens é tarefas pendentes para fazer enquanto o conceito de ‘férias’ ainda não é diferente).

– Gosto bastante de Madrid e neste registo light dude trip foi possível explorar mais dois ou três locais diferentes e porreiros. Segundo o senhor de um ilustre e recomendável local de tapas, o meu sotaque não parece de Portugal. Tenho de refinar o meu português das Maldivas.

– A maratona em si, foi tudo menos uma seca. Chuva torrencial a partir do meio, diversão garantida com os apoiantes que eram muitos e sem medo de gotas de água e menos dois ou três minutos ao recorde pessoal mas, ainda assim, abaixo do que creio conseguir fazer sem ter que fazer loucuras. Entre a situação emocional, o facto de estar um pouco abaixo do pico físico e tudo o mais, não houve stress. O único ponto a debater deixo lá para o fundo no parágrafo para fãs da correria.

– Grunhos e aviões – Por um lado, a minha faceta pacifista diz que todos têm direito a voar e a viajar. Por outro, o meu lado de Ninja Social diz-me que gente com comportamento grunho devia ser obrigada a viajar no porão. Sem custos acrescidos.

– Já vi o Capitão Falcão. Parte de mim gostou bastante da cena, parte de mim quis corrigir tudo o que faria diferente (incluindo reduzir o tempo do filme, o argumento está longe de valer perto de duas horas) e parte de mim acha que há gente assombrosa que consegue o feito olímpico de rir sem parar durante essas quase duas horas.

– Malas para a mãe, para o bebé, para o pai, listas para A, B, C e outras letras que não devem sequer constar do abecedário humano onde constam coisas das quais desconhecia a sua existência terrestre. Ainda não percebi se falta relativamente pouco tempo para vir aí uma criança ou se isto é um programa de treinos para Comandos.

– O Cardinal vai continuar a mexer. Temos é que ver como é que o programa de treinos se insere em tudo isto. E o André ‘Paisana’ Lapa, para além de continuar a ser o maior mestre de GIFs parentais (e não só) e malabarista de cenas pop sabe tão bem como eu que o espaço continua também a pertencer-lhe. Não há camisolas cardinalianas no topo do pavilhão.

– Fui jogar um jogo de basket para o Campeonato do Inatel 48 horas depois de ter corrido uma maratona. Levei perneiras de compressão que uso para correr e baile da minha equipa – no final a coisa até correu bem e no dia a seguir estava a sentir-me bem mais recuperado muscularmente. A cabeça já se sabe, não tem remédio.

 

 

Parágrafo de cenas pro de corrida

– O meu estômago é um pussy. Vou ter que avaliar a minha estratégia de nutrição e reforço em provas longas de estrada (em trails não me aconteceu isso até agora). Embora desta vez tenha mudado algumas coisas e até aos 30kms tudo tenha estado ok, para aí a partir dos 35 (em especial 38kms) o meu estômago torna-se hiper-sensível e até a água causa náuseas. Apesar de ter sempre sentido força nas pernas, aí o jogo mental passa a ser – abrando para controlar as náuseas ou mantenho a velocidade, vomito se for preciso e vejo se a coisa alivia.

Optei por reduzir e nesses 4-5 kms finais (boa parte em subida moderada) devo ter perdido para aí 7-8 minutos em relação ao que poderia fazer. Obriguei-me a cumprir com os géis que tinha, mas foi penoso, pois ingeri aí o mínimo de água, por causa das náuseas. A ver se o maravilhoso mundo da Internet me ilumina um pouco mais nesta matéria, nem que para isso tenha de reduzir no tempo de pesquisa de danças vietnamitas de salão.

A última maratona

A primeira maratona foi em Lisboa, em 2011. Fiz tudo o que não devia, incluindo misturar o treino com obras e uma mudança de casa concluída uma semana antes da maratona. Foi espectacular também porque foi ainda no percurso que passava pelo centro de Lisboa e tive amigos em vários pontos, inclusive com peças de fruta para me dar e não para me atirar com elas.

A segunda foi no Porto. Já devia uma visita ao Porto há algum tempo e a maratona calhou que nem ginjas. Não foi brilhante, por causa de um problema físico, mas isso não me impediu em nada de aproveitar a viagem de 42kms em grande parte na zona ribeirinha.

A terceira foi em Madrid há 2 anos. Posso dizer que o ambiente e o percurso têm uma envolvência muito superior às nossas, com imensas pessoas nas ruas nos vários pontos a apoiar quem corre. Fazia bastante frio (4ºgraus à partida, 9º à chegada) mas só dei por isso depois de acabar, em disputa com um grupo de gente vestida de Rato Mickey e Minnie. Espero não ter feito papel de Pateta.

A quarta foi em Lisboa, a estrear o novo percurso Cascais-Expo. Foi horrível, com partida tardia (organização a não pensar no calor em Outubro), eu a dar-me pessimamente com o calor – o meu estômago a revoltar-se com tudo isto lá para depois dos 32kms e 10kms de calvário até ao fim. Não tivesse sido o apoio da dupla Dani, a correr os últimos 15kms comigo e da Patrícia em bike e poderia ter pensado em desistir.

O ano passado voltei ao Porto, com amigos, e foi cinco estrelas. Senti-me bem, tudo como previsto, e no fim ainda tive direito ao extra de subir a avenida da Boavista toda e sem ser em estilo zombie walker.

Como sou uma pessoa de fechar ciclos, estou neste momento em Madrid e amanhã é dia de Maratona, em princípio a última que farei. Mas porquê a última? Não porque pense deixar de correr ou me vá dedicar a alguma modalidade extreme, mas por um facto muito simples que faz toda a diferença.

Correndo tudo como previsto, esta será a última maratona antes de começar outra completamente diferente mas igualmente exigente: a maratona da paternidade.

Portanto, 42kms são um passeio. A prova de endurance começa a seguir.

A banalização da urgência

Já não sou do tempo do auge deste tipo de rock. Mas, misteriosos são os caminhos das merdas que por vezes não vêm parar aos ouvidos. E hoje tenho andado com este tema na cabeça:

E, mais do que o facto do baterista aparecer à frente do vocalista em vários planos, as roupinhas da malta ou o bigode lustroso do saxofonista (kudos para bandas de rock com saxofonistas), há uma palavra que se destaca – URGENTE. Que se repete e repete e repete.

Tudo bem que aqui se fala de urgências do amor e da paixão mas, deixando o papel de bombeiro amoroso na prateleira, posso dizer que vivo (vivemos?) numa era em que qualquer ocupação profissional tem mais urgências que muitos hospitais com serviço homónimo.

Chego ao trabalho há duas urgências à espera. No email, rapidamente a palavra “Urgente” se junta ao famoso ASAP. Interrompe-se para uma reunião urgente devido a uma urgência imprevista de um cliente com necessidade de sentir que é urgente.

Sais da reunião, apanham-te no corredor para falar de uma urgência e, assim que acabares, alguém te faz sinal para ligares para o “móvel”, que é urgente.

Entretanto, ainda não almoçaste e já te estás bem a ralar para as urgências, até porque se tudo é urgente, então nada é urgente. É a lógica de ler um texto em que tudo está sublinhado, em caixa alta ou a negrito. Passa tudo a ser irrelevante, apesar de prioritário.

 

Não tendo argumentos para definir prioridades, criam-se rótulos. É urgente rever isto mas, pelos vistos, agora não há tempo. Há outras urgências na calha.

Três gajos cool a envelhecer 200 anos em 5 minutos

Um DJ, um publicitário e um inspector à paisana vão almoçar.

Muitas anedotas podiam começar assim, mas neste caso a piada surge mascarada pelas circunstâncias que te mostram que, mesmo que não te sintas a envelhecer, às vezes dois ou três minutos de conversa chegam para te mostrar isso.

Almoço entre amigos, tudo descontraído, ele é camisas aos quadrados, tshirts com dizeres modernos, ténis catitas, óculos à maneira e por aí em diante. As conversas começam tranquilas, é colocar a vida em dia com dois que vão viajar para ali, o outro que está a dominar artes marciais, mais o trabalho que sempre aperta e o lado social que nem sempre é fácil conjugar.

De repente começa um: ‘Epá, não sei como é que isto aconteceu, mas estou a usar placa. Tive aqui um problema nos dentes, tive que arrancar isto e aquilo, agora vou ter que fazer implantes, mas enquanto não estão prontos, tenho aqui uma placa temporária. Isto é uma chatice, tenho a boca que parece um ferro-velho’.

Momento de silêncio, seguido de palavras de apoio e piadas sobre Corega.

Arranca outro ‘Epá e eu que apanhei zona, tive que andar com comprimidos e mais não sei o quê, agora estou com uma borbulhagem outra vez, estou com medo disso, foram dores horríveis, espero não ir pelo mesmo caminho. Além disso ando com as articulações num estado lastimável’.

Responde o terceiro ‘Conheço uma pomadinha bem boa para isso das articulações e há uma espécie de azeite que, misturado com uma essência de xpto, aquilo dá um alívio bem bom. E nem engordura a roupa nem nada’.

Novo silêncio, todos a olharem uns para os outros. Só faltavam os andarilhos e uma frase a começar com ‘No nosso tempo…’. De repente, tudo a rir e um minuto depois a falar de um vídeo viral e sobre se aquilo era fake ou não.

A idade é tramada mas custa menos se fugirmos dela pelo menos com o espírito e deixar que o corpo vá pagando as facturas.

Quando os Ferraris se odeiam

Gosto muito de parábolas, especialmente quando invento boa parte delas, por isso cá vai disto:

Sábado fui correr para os lados de Cascais. Ia já para os lados da Guia quando passa ao meu lado na estrada um tipo num Ferrari clássico. O carro devia ser para aí de início dos anos 80, mas estava bem conservado, o tipo que o conduzia seria mais jovem do que esperar, mas até pode ser que o carro fosse de família. Ia nas calmas, a apreciar o dia e, muito possivelmente a volta até ao Guincho.

Eis quando, entre buzinadela e semi-aceleração, vejo que há alguém incomodado com o ritmo do artista do Ferrari (refira-se a título de esclarecimento, que eu não corro tão rápido como um Ferrari, o ritmo/local do acontecimento é que me permitiu acompanhar melhor a coisa). Do topo de um Ferrari muito recente, um qualquer Doutor de sete apelidos não está satisfeito com a situação, gesticula de parcos cabelos ao vento e ajeita os óculos escuros, como se a emitir raios laser para liquidar o Ferrari vintage.

Assim que ganha uma aberta, dá dois roncos no motor (para aí 40€ em combustível de pobre), ultrapassa o seu congénere e lá vai ele rumo ao Guincho. O tipo do Ferrari clássico riu-se, talvez também por ter mais cabelos ao vento e continuo ao mesmo ritmo que ia antes, sem pressa nem necessidade de mostrar ao mundo que se desloca num Ferrari, como se tal não fosse evidente por si só.

A situação, que não invalidou que eu continuasse a conduzir a butes os meus Mizuno por mais 12/13kms à torreira, fez-me pensar que o “dinheiro novo” e o “dinheiro antigo” por vezes não se dão muito bem. Muito provavelmente o tipo do Ferrari novo, empresário e self made man, conseguiu o carro fruto do seu trabalho e de algumas evasões fiscais e não compreende como é possível ter uma máquina daquele gabarito sem puxar pela coisa, sem mostrar que o status também se pode tratar com os pés, desde que por baixo dos mesmos haja o acelerador de um Ferrari.

Por outro lado, o tipo do Ferrari vintage vê o outro artista como um bimbo com dinheiro, que não sabe apreciar as boas coisas da vida sem ter que ser ostensivamente redundante – sim, é um Ferrari, mas isso não é nada de mais para quem está habituado a crescer num mundo em que isso não é o topo da montanha, mas sim o pátio das brincadeiras.

Ou, filosofias à parte, podemos apenas estar perante dois tipos que gostam de carros e têm dinheiro para sustentar os seus gostos. Ou então, dois burgessos cheios de massa.

No entanto, se transpusermos isso para um universo comparativo no cenário materialista que nos rodeia, vemos que é fácil encontrar exemplos destas duas abordagens. Basta estarmos atentos, isto se quisermos gastar uns minutos no miradouro sociológico.

 

Podemos também cagar no assunto, apreciar a vista e deixar a sociologia para depois de almoço.

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“Padaria” e outras palavras em alerta vermelho de exaustão

O Instituto Nacional de Palavrologia e Abusos de Linguagem acaba de emitir um alerta vermelho sobre um lote de palavras que, devido aos abusos, estão maior situação de risco que um lince ibérico que abuse do álcool e se drogue com hormonas de coelho bravo.

Depois do uso abusivo, gorduroso e desconexo de palavras como “gourmet”, “vintage” ou “brutal”, há agora uma nova vaga de palavras que, de tanto andarem em tantas bocas, começam a causar mais asco que casos graves de herpes. Algumas delas podem ser encontradas nesta breve lista:

 

“Padaria” – Não no sentido clássico da mesma, mas no sentido em que vender pão e bolos é agora uma experiência vintage de travo gourmet bairristíco-tradicional.

“Bairro” – Antigamente, bairro era um termo que remetia para a geografia de uma localidade – consoante o seu nome (é sempre de evitar bairros com números, nomes de animais e covas/buracos/charnecas). Agora “bairro” é um adjectivo que quer dizer algo de travo vintage-gourmet tradicional. Se é do bairro é porque não é industrial, nem mal feito e tem muito carinho à nossa espera, em forma de n produtos, muitas vezes consumíveis. É o que se chama mandar o bairro à parede a ver se pega.

“Cosy” – Muitos adeptos do estrangeirismo fácil estão a migrar do “trendy” e afins para o cosy. Tudo é cosy, mesmo que não se esteja a falar de cosy nenhuma. E se for uma padaria do-it-yourself então nem se fala.

“Running” – Cada vez menos gente corre, estão todos a dar-lhe no running.

“Hipster” – Em vez de ser uma categoria/tendência com um significado próprio, é um repositório para tudo o que não se consegue enquadrar ou soa a estranho. Tem uma camisa feita de sofás reciclados? É hipster. Come sandes de atum de soja em pão sem glúten? É hipster. Toma duche a ouvir o primo desconhecido do Bon Iver? Hipster, de certeza. Atravessa a rua ao pé coxinho? H-i-p-s-t-e-r.

 

Atenção: Esta amostra não inclui inúmeros derivativos profissionais e linguajar técnico-abusivo, isto para não falar de vários dialectos urbano-específicos que demoram mais tempo a entrar no mainstream.

Casais de smartphones adoptam cada vez mais pessoas

Segundo os últimos dados, existem cada vez mais telemóveis/smartphones topo de gama a adoptar pessoas carenciadas e/ou com baixo nível de instrução ao nível de gadgets. De acordo com José Maria Apple, representante da Associação Nacional de Smartphones Solidários, esta tendência já se verifica há alguns anos, tendo no entanto atingido o seu expoente no período de crise económica a que Portugal esteve sujeito.

‘É triste, mas ao mesmo tempo enternecedor, ver alguém disposto a dar 600 ou 700 Euros por um smartphone e depois andar todos os dias a comer arroz de atum na marmita ao almoço ou a esperar horas para abastecer em gasolineiras de marca branca só para poupar alguns cêntimos.

Essa foi uma das razões pelas quais temos mantido intensas negociações com operadoras móveis e marcas que fazem concursos para oferecer telemóveis, de maneira a que nos seja facilitado o acesso a estas pessoas, dando mais peso à sua alegria e tornando a sua carteira mais leve’.

José Maria Apple confidenciou ainda, na presença do presidente da SmartPhones Care for Dumb People, o Dr. Sam Sung, que é um gesto nobre preencher a vida desta franja da população que, quando é adoptada por um smartphone, passa a ter um amigo por perto a qualquer hora do dia e já nem precisam de olhar para os outros em situações constrangedoras como elevadores, transportes públicos ou até jantares de família, onde já se sabe que a conversa vai sempre degenerar em conflito e recriminações e amarguras de longa duração’.

Além disso, acrescenta José Maria Apple “Eles exigem tão pouco do smartphone, basta uma câmara, redes sociais, emails, aplicações que permitam activar a vida e desligar o cérebro facilmente e, ocasionalmente, telefonar. E isso exige tão pouco de um smartphone, face às nossas capacidades totais que o valor que essas pessoas nos atribuem nos deixa nas mãos a responsabilidade e até o dever de cuidar delas, adoptando-as e dando-lhes o sentido da vida que tanta vezes lhes falta, afastando-as de situações mundanas em que o bom senso e o racionalismo só contribuem para menos likes, scrolls, updates e refreshs’.

Não há ainda planos para um plano de adopção por parte dos Tablets Pelas Pessoas Necessitadas, mas estes vão tendo cada vez mais acções solidárias junto das novas gerações que desde pequenas começam já a perceber que há mais conforto no que um tablet lhes proporciona do que naquilo que os chatos dos pais e dos familiares lhes estão sempre a exigir.