Quando os Ferraris se odeiam

Gosto muito de parábolas, especialmente quando invento boa parte delas, por isso cá vai disto:

Sábado fui correr para os lados de Cascais. Ia já para os lados da Guia quando passa ao meu lado na estrada um tipo num Ferrari clássico. O carro devia ser para aí de início dos anos 80, mas estava bem conservado, o tipo que o conduzia seria mais jovem do que esperar, mas até pode ser que o carro fosse de família. Ia nas calmas, a apreciar o dia e, muito possivelmente a volta até ao Guincho.

Eis quando, entre buzinadela e semi-aceleração, vejo que há alguém incomodado com o ritmo do artista do Ferrari (refira-se a título de esclarecimento, que eu não corro tão rápido como um Ferrari, o ritmo/local do acontecimento é que me permitiu acompanhar melhor a coisa). Do topo de um Ferrari muito recente, um qualquer Doutor de sete apelidos não está satisfeito com a situação, gesticula de parcos cabelos ao vento e ajeita os óculos escuros, como se a emitir raios laser para liquidar o Ferrari vintage.

Assim que ganha uma aberta, dá dois roncos no motor (para aí 40€ em combustível de pobre), ultrapassa o seu congénere e lá vai ele rumo ao Guincho. O tipo do Ferrari clássico riu-se, talvez também por ter mais cabelos ao vento e continuo ao mesmo ritmo que ia antes, sem pressa nem necessidade de mostrar ao mundo que se desloca num Ferrari, como se tal não fosse evidente por si só.

A situação, que não invalidou que eu continuasse a conduzir a butes os meus Mizuno por mais 12/13kms à torreira, fez-me pensar que o “dinheiro novo” e o “dinheiro antigo” por vezes não se dão muito bem. Muito provavelmente o tipo do Ferrari novo, empresário e self made man, conseguiu o carro fruto do seu trabalho e de algumas evasões fiscais e não compreende como é possível ter uma máquina daquele gabarito sem puxar pela coisa, sem mostrar que o status também se pode tratar com os pés, desde que por baixo dos mesmos haja o acelerador de um Ferrari.

Por outro lado, o tipo do Ferrari vintage vê o outro artista como um bimbo com dinheiro, que não sabe apreciar as boas coisas da vida sem ter que ser ostensivamente redundante – sim, é um Ferrari, mas isso não é nada de mais para quem está habituado a crescer num mundo em que isso não é o topo da montanha, mas sim o pátio das brincadeiras.

Ou, filosofias à parte, podemos apenas estar perante dois tipos que gostam de carros e têm dinheiro para sustentar os seus gostos. Ou então, dois burgessos cheios de massa.

No entanto, se transpusermos isso para um universo comparativo no cenário materialista que nos rodeia, vemos que é fácil encontrar exemplos destas duas abordagens. Basta estarmos atentos, isto se quisermos gastar uns minutos no miradouro sociológico.

 

Podemos também cagar no assunto, apreciar a vista e deixar a sociologia para depois de almoço.

IMG_0109

Anúncios

3 pensamentos sobre “Quando os Ferraris se odeiam

Tens a certeza disso que dizes?

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s