Telefonam-me e estou no meio da mata

A modernidade tem destas coisas: sais de casa com vestes justas e, em menos de 20 minutos, estás no meio da mata. Corres, não porque te persigam, mas porque assim decidiste empregar uma ou duas horas no meio das férias e a vegetação trata-te por tu ou a tua imaginação assim o dita.

Depois de umas quantas voltas, instituída a regra de que “se vires uma subida não te podes negar a fazê-la”, eis que um dispositivo te lembra que não és um qualquer Livingstone de lycra, mas sim um tipo urbano que pode gostar de ir para a mata mas, por razões de gadgetismo, vai sempre artilhado. O telemóvel toca.

O chamador revela-se importante o suficiente para uma pausa no ritmo e o atendimento da chamada. “Estás onde?”, “No meio da mata…”. O descrédito acentua-se: “A esta hora?”, a ironia exige-se como resposta “Mas há alguma hora certa para estar no meio da mata?”. Trocam-se palavras, incluindo insultos amistosos e acerta-se a combinação que havia para combinar. É pedida uma prova, a terminar a conversa.

Remeto uma foto, que isto do imediatismo é para todos, mesmo os que estão no meio da mata. Passa por mim um tipo de bicicleta, mas a subida é íngreme, tenho tempo de o apanhar.

Largo o telefone e apanho a passada. Quando o vou a apanhar ele começa a controlar o meu avanço e, de repente, faz o truque mais velho do livro – apeia-se da bicicleta e olha com ar preocupado para a corrente. Sempre é melhor que ser ultrapassado por um urbano de lycra que ainda há dois minutos estava ao telefone. No meio da mata, acrescente-se.

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2 pensamentos sobre “Telefonam-me e estou no meio da mata

  1. Ou a alternativa do pessoal que corre: verificar cuidadosamente o laço dos atacadores. Agora é mais complicado porque os ténis de trail têm lá um furício onde se enfiam os ditos.
    (eu gosto é quando a minha avó me liga a meio de um treino e eu digo que estou a correr: “mas estás cansada?”)

    • Pessoal a correr dou desconto total, não há razão para vergonhas (até eu já andei no final de algumas subidas, com a desculpa da necessidade de hidratação 😉 )

      Agora pessoal de bicicleta, por exemplo em Monsanto, já apanhei de tudo. Malta 5 estrelas, bem disposta, cumprimentos normais e força nisso para os dois lados. Pessoal burgesso que em grupos gosta de mandar bocas, mas depois quando começam uns a ficar para trás (por exemplo na subida da ciclovia da Serafina até depois da antena) e tu começas a apanhá-los, já não abrem a boca quando os “incentivas”. Mas por norma, malta ciclista menos preparada que vai isolada para os trilhos, nomeadamente os paralelos à A5, fica sempre um bocado a olhar de lado quando te chegas a eles nas subidas 🙂

      O pessoal mais técnico, nas zonas de saltos, por exemplo para trás da prisão até Pina Manique, é mais tranquilo, esquecem-se é às vezes que aquilo não é só para bicicletas. Mas pronto, isto é filosofia de trazer por trail, nada de certezas da vida.

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