O gigante da unha encravada e a princesa das tenazes

As pessoas não pensam nas contrariedades de ser gigante. Atenção, não se trata de gigantismo metafórico, nem de balelas emocionais, trata-se de ser gigante que nem uma árvore, de ter mão que agarram em barquinhos como se tratassem de cascas de amendoim.

Ninguém pensa no difícil que é para um gigante encontrar alguém que te corte o cabelo de forma decente, encontrar tachos decentes em vez de ter de cozinhar numa Ford Transit recortada e, acima de tudo, encontrar uma manicure competente quando tens a porra da unha do pé recorrentemente encravada.

Perdido nestes pensamentos, o gigante sentado no rochedo limpava as suas lágrimas, tais eram as dores no dedo do pé. Já não se lembrava de chorar assim desde aquele episódio mais puxadito do ‘Undercover Boss’, mas não queria que pensassem que era um mariquinhas. Se um homem não chora, imaginem um gigante…

Foi nesse momento que a viu, a princesa que parecia deslizar em direcção a si, cantando um cântico que não conseguia descortinar, longos cabelos loiros e vestido brilhante. Aquilo que ela trazia na mão seria um ceptro? Estaria a sua pouca sorte de gigante a mudar?

Ela aproximou-se e, apesar de só conhecer princesas de folhear a Maxi-Caras que a vizinha assinava, era sem dúvida alguma a princesa mais estranha que alguma vez tinha visto. Se deslizava, era porque vinha de skate, aquilo que pensava ser um cântico era afinal um êxito de kizomba que emanava do telemóvel e, se ela era loira, porque pintava as raízes de preto? O vestido não era mais que uma camisola de manga cava com lantejoulas e o ceptro…bem, o ceptro era…um par de tenazes. Ainda assim, o gigante sorriu-lhe.

Ela parou, ajeitou uma madeixa e desligou o som do telemóvel , enquanto fazia um balão de pastilha elástica. Falou-lhe numa voz algo rouca e não tão meiga como ele imaginava que eram as vozes das princesas ‘Mano, arranjas-me um cigarro?’.

Ajeitando-se no rochedo, o gigante sorriu ‘Bem, eu não fumo, mas se fumasse já viste o tamanho que teriam os meus cigarros?’.

Ela encolheu os ombros ‘Ya, era bacano, um cigarro desses daria para semanas. Era brutal…’.

‘Por falar em brutal…’ os olhos do gigante dirigiram-se às tenazes ainda na mão da princesa, ‘Não imaginas as dores que tenho. Ficar-te-ia eternamente agradecido se me ajudasses a desencravar a unha do pé com esse corta-unhas especial…’

Suavemente, a princesa levantou o braço que tinha livre e, com o punho fechado, levantou o dedo do meio. ‘Fdx, deves parvo man, preciso desta cena, eu e os meus manos vamos orientar um cenário numa loja da vila. Além disso, fdx meu, essas unhas estão alto nojo bacano, devem estar cheias da micoses e fungos. Não contes comigo sócio…’

E arrancou no skate.

O gigante suspirou. Nem era a falta de princesas como deve de ser que lhe fazia confusão, era a ausência de net no telefone. Onde raio iria ele descobrir uma manicure à sua altura?

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