Blues pós leitura de livros

Sempre que leio um livro extenso, sinto uns certos blues pós-livro. Quanto melhor for o livro, na minha modesta opinião, mas acentuados serão esses blues, pois chega o fim da relação com um determinado enredo, um determinado conjunto de personagens e determinada envolvência que foi criada ao longo de centenas de páginas.

A temática das dimensões do tempo, de variantes e interligações sempre foi algo que me interessou e foi por isso que, já há alguns anos quando li o Cloud Atlas, de David Mitchell, gostei bastante do universo recriado. Depois vi o filme e quase criei uma instalação chamada: Repuxo de vómito e indignação pós-adaptação cinematográfica do mais elevado gordurosismo.

Este foi o segundo livro de David Mitchell que li e acabei esta semana.

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Não o fiz por ter sido long-listed para o Booker Prize de há um ou dois anos, apesar de ser uma lista que consulto com alguma regularidade quando me apetece ler em inglês. Fi-lo por perceber que a cena do tempo e das variadas dimensões que coexistem, também são um universo que interessam ao Sr. Mitchell.

Acabado o livro, os blues estão lá, afinal de contas foram quase 600 páginas, mas a coisa não foi tão crítica como pensaria. Mitchell é um gajo que escreve bem, planta a sua história ainda melhor e apesar de neste caso estruturar o livro muito ao género de Cloud Atlas (histórias que se cruzam, narrativas na primeira pessoa dos vários protagonistas, vários períodos temporais, etc), não fica aquele sabor a esquema recorrente. É um estilo.

Contudo, fiquei ali com uma sensação que não sabia descrever, como se a conclusão do livro criasse um vazio que não tinha bem que ver com blues. E então fui fazer algo que é costume apenas depois de concluir a leitura de certos livros – escolher uma ou outra crítica da obra e contrapô-la à minha própria opinião, para ver onde convergimos e onde está a divergência. E, nesta crítica do New Yorker, encontrei a razão para o sentimento de vazio, apesar de não me rever na severidade de vários aspectos da mesma.

Nada tenho contra boas histórias que não são grandiosas no capítulo da reflexão humanística. É como ir ver o Mad Max ao cinema – posso apreciar as mensagens que reflectem o caminho que nos pode levar ao apocalipse, mas vivo bem apenas com o desfrutar da acção e do seu grandiosismo por si só. Nesse sentido, não saio de Bone Clocks desiludido, pois nunca esperei que viesse mudar o meu prisma de ver as coisas. No entanto, nem que seja pelo facto de ter expectativas elevadas para a narrativa do tio Mitchell, o relógio aqui não estava tão certo como o meu. O que não implica que deixe de gostar dele.

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10 Fenómenos estranhos na hora das despedidas

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Boa parte das pessoas não gere bem o momento das despedidas em momentos sociais e, se nunca deram por isso, é porque provavelmente fazem parte do grupo. Não sendo propriamente algo científico, é no entanto um acontecimento recorrente, as pessoas despedem-se umas das outras, sendo que a duração/momento dessa despedida é que pode fazer variar a carga emocional. Como tal, é passível de uma análise tipológica, ao jeito do departamento de Ciências Sociais da Universidade de Badmington.

 

Assim, ao nível de fenómenos de gestão do momento de despedidas temos:

O Prolongador
Já todos estivemos numa situação em que uma despedida que se faz em 10 segundos se arrasta por 10, 20, 30 minutos. Às vezes é porque se metem temas de conversa no meio da despedida, noutros casos é porque uma das partes se esqueceu que aquilo era uma despedida e arrasta a coisa, muitas vezes perante o evidente (e crescente) desinteresse dos restantes que só se querem ir embora.

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‘Não vão já, isto ainda está agora a começar…’

O Amplificador
É a pessoa que eleva as despedidas a um expoente glorioso, mesmo que se trate de um encontro casual no autocarro entre duas pessoas que mal se falavam na faculdade. Há sempre uma confirmação da espectacularidade do momento, ‘Epá, gostei mesmo de te ver’, há sempre uma expectativa de renovação que nunca vai acontecer ‘Epá, vamos então marcar esse jantar’ e há sempreminutos de mãos no ombro, esfregadelas no bracinho e proximidade que nunca devia ter existido.

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O Lamechas
A despedida é um momento crítico e as emoções vêm sempre ao de cima. Por vezes, o momento justifica-o, noutros casos é pura lamechice. ‘Não vás’, ‘Fiquem mais um bocadinho’, ‘Sabe-se lá quando é que nos voltamos a ver’, são apenas algumas das suas armas para fazer sentir mal para quem simplesmente só se quer ir embora.

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“Fogo, ainda nem foste e já me fazes falta. És o maior…”

O Ninja
Só sabemos que o ninja se despediu quando damos por isso que ele já não está lá. É alguém que parece que vai à casa de banho, foi buscar uma coisa ao carro, estava apenas a dois passos de nós e de repente, puff, já desapareceu. Por vezes sem liquidar os 20€ que nos pediu e que foi só ali ao multibanco levantar.

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O Bruto
Não sabe despedir-se e não tem jeito para essas merdas. E repete isso dez vezes em cada despedida. Volta as costas e já se está a afastar quando as pessoas ainda lhe estão a dizer adeus. Levanta um braço e fala alto, nem que seja para abafar o que os outros estão a dizer.

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‘Não sei despedir-me e não tenho medo de o mostrar…’

O Sem Jeito
É mais um efeito do que uma pessoa. São normalmente vários minutos de conversa em que ninguém já está a ter uma conversa coerente, aquilo já é uma despedida, mas ninguém tem a coragem para avançar com as palavras. É uma sequência de ‘Pois…’, ‘Então pronto…’, ‘É assim a vida…’ em que todos aguardam que a coisa finalmente se efective.

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O Personalizador
Faz gosto em despedir-se pessoalmente de todos os presentes, tem uma palavra ou gesto para todos, mesmo para aqueles que não conhece propriamente bem. Há quem diga que isso é ser muito educado mas, em certos casos, é simplesmente ser chato. É o equivalente ao tipo que conduz demasiado devagar numa via em que não se pode ultrapassar. Não está a quebrar nenhuma lei, mas a verdade é que nos está a atrasar a todos.
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O Par desconexo
Casal ou dupla de amigos que vai juntos a um evento e na hora da despedida tem comportamentos diferentes. Um deles arrasta-se nas despedidas, o outro é rápido a tratar das coisas, o que gera com que um esteja já ali ao fundo a 5 metros de toda a gente e outro ainda a despedir-se. Isso faz com que o que já está despachado fique a dizer ‘Anda lá’, ‘Vamos andando’, ‘Então, despacha-te lá…’.

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O Ressuscitador
É alguém que todos pensaram que já tinha saído ou que efectivamente já tinha cumprido o ritual e que de repente aparece de novo no evento para cumprir de novo o ciclo, sem que ninguém perceba muito bem onde esteve ou se se trata apenas de déjà vu.

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O Corta Corrente
Para essa pessoa chegou o momento da despedida e, como tal, ela quer que todos se despeçam mesmo que o timing não seja o mesmo. Começa a cortar conversas, começa a tentar encaminhar toda a gente para a porta, para os carros e é impossível não notar. O seu momento de despedida só faz sentido se for colectivo e é por isso, o maestro das despedidas, mesmo que todos os presentes quisessem apenas que ela se fosse embora e os deixasse em paz.

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Por vezes, é natural que uma pessoa flutue entre vários géneros, especialmente se a despedida é um momento em que nunca se sentem confortáveis. Da minha parte, só posso oferecer um conselho idiota – transformem a despedida noutra coisa qualquer. Não vão deixar de parecer estranhos, mas pelos menos sempre se inserem noutra categoria diferente.

A beleza do concurso de chapadas

No concurso de chapadas não há sorrisos irónicos.

No concurso de chapadas não há meias verdades e depois falamos.

No concurso de chapadas tu és quem és e o outro é quem é. O drama está na ponta dos dedos e não da língua.

No concurso de chapadas não se tem que ‘gostar de’, ‘amochar porque’ ou ‘deixar andar, porque as coisas não são bem assim’.

No concurso de chapadas não há uma coisa pela frente e outra pelas costas. É tudo na cara, literalmente.

No concurso de chapadas, a antipatia ostensiva não é algo socialmente condenável.

No concurso de chapadas os eufemismos e as figuras de estilo ficam à porta. O bom senso também, mas é um concurso de chapadas, do que é que estavam à espera.

O concurso de chapadas é assim e estou pronto para umas quantas rondas, com gente escolhida a dedo.

O gigante da unha encravada e a princesa das tenazes

As pessoas não pensam nas contrariedades de ser gigante. Atenção, não se trata de gigantismo metafórico, nem de balelas emocionais, trata-se de ser gigante que nem uma árvore, de ter mão que agarram em barquinhos como se tratassem de cascas de amendoim.

Ninguém pensa no difícil que é para um gigante encontrar alguém que te corte o cabelo de forma decente, encontrar tachos decentes em vez de ter de cozinhar numa Ford Transit recortada e, acima de tudo, encontrar uma manicure competente quando tens a porra da unha do pé recorrentemente encravada.

Perdido nestes pensamentos, o gigante sentado no rochedo limpava as suas lágrimas, tais eram as dores no dedo do pé. Já não se lembrava de chorar assim desde aquele episódio mais puxadito do ‘Undercover Boss’, mas não queria que pensassem que era um mariquinhas. Se um homem não chora, imaginem um gigante…

Foi nesse momento que a viu, a princesa que parecia deslizar em direcção a si, cantando um cântico que não conseguia descortinar, longos cabelos loiros e vestido brilhante. Aquilo que ela trazia na mão seria um ceptro? Estaria a sua pouca sorte de gigante a mudar?

Ela aproximou-se e, apesar de só conhecer princesas de folhear a Maxi-Caras que a vizinha assinava, era sem dúvida alguma a princesa mais estranha que alguma vez tinha visto. Se deslizava, era porque vinha de skate, aquilo que pensava ser um cântico era afinal um êxito de kizomba que emanava do telemóvel e, se ela era loira, porque pintava as raízes de preto? O vestido não era mais que uma camisola de manga cava com lantejoulas e o ceptro…bem, o ceptro era…um par de tenazes. Ainda assim, o gigante sorriu-lhe.

Ela parou, ajeitou uma madeixa e desligou o som do telemóvel , enquanto fazia um balão de pastilha elástica. Falou-lhe numa voz algo rouca e não tão meiga como ele imaginava que eram as vozes das princesas ‘Mano, arranjas-me um cigarro?’.

Ajeitando-se no rochedo, o gigante sorriu ‘Bem, eu não fumo, mas se fumasse já viste o tamanho que teriam os meus cigarros?’.

Ela encolheu os ombros ‘Ya, era bacano, um cigarro desses daria para semanas. Era brutal…’.

‘Por falar em brutal…’ os olhos do gigante dirigiram-se às tenazes ainda na mão da princesa, ‘Não imaginas as dores que tenho. Ficar-te-ia eternamente agradecido se me ajudasses a desencravar a unha do pé com esse corta-unhas especial…’

Suavemente, a princesa levantou o braço que tinha livre e, com o punho fechado, levantou o dedo do meio. ‘Fdx, deves parvo man, preciso desta cena, eu e os meus manos vamos orientar um cenário numa loja da vila. Além disso, fdx meu, essas unhas estão alto nojo bacano, devem estar cheias da micoses e fungos. Não contes comigo sócio…’

E arrancou no skate.

O gigante suspirou. Nem era a falta de princesas como deve de ser que lhe fazia confusão, era a ausência de net no telefone. Onde raio iria ele descobrir uma manicure à sua altura?

A-re-jar

Antes que o calor me apanhe, amanhã pela fresquinha vou deixar passar o ar da manhã pelo meio de pensamentos, ideias ou a ausência dos mesmos.

E vou fazê-lo por aqui.

   
 

Se encontrar por lá pensamentos alheios devolvo. Peças de lucra usadas e afins é que será mais difícil…

A minha lista de auto-sensibilidade e falta de bom senso

Uma coisa porreira que alguma maturidade traz, para além de uns sempre charmosos toques de cabelo grisalho, é o facto de haver um reajuste nos meus níveis de sensibilidade em relação ao que me rodeia. Há coisas para as quais tinha paciência e deixei de ter e, noutros campos, chegou um comportamento mais condescendente perante situações que antigamente não via da mesma forma. O que não quer dizer que isto se traduza num gajo mais equilibrado por causa disso.

Senão vejamos:

Pequeno exemplo de matérias para as quais tenho um pouco mais de paciência

Crianças.
Pais que sacrificam muita coisa pelos seus filhos.
Pessoas que gostam de discutir coisas válidas mesmo que nem sempre da melhor maneira.
Gente hiper-entusiasta à procura de um novo rumo para a vida e/ou que fala hiper-entusiasmadamente de novos projectos, mesmo que não estejamos bem a ver onde é que aquilo vai parar.
Cenas metafísicas que não têm uma explicação científica.
Putos que pensam de forma diferente da minha.
Críticas sobre os meus defeitos.
Estar em paz com o facto de que não tenho tempo para tudo o que quero fazer.

Pequena exemplo de cenas para as quais tenho cada vez menos paciência

Crianças que se comportam como Damien, o filho do Demo.
Pais que sacrificam muitas pessoas falando só sobre os seus filhos.
Discussões geradas por pessoas que gostam de discutir só para mostrar que são válidas.
Gente que não procura novo rumo na vida nem novos projectos, essencialmente porque passa o tempo a falar sobre o facto de andar à procura de um novo rumo para a vida e novos projectos.
Explicações metafísicas para tudo, a ponto da coisa parecer uma ciência.
Gente da minha idade que pensa como se fossem do Período Glaciar.
Ter de lidar com o facto de que se calhar tenho defeitos.
Malta que parece ter tempo para fazer tudo o que que eu quero fazer, sem que eu perceba onde está o truque.

Não sei se viste o filme

Não sei se viste o filme do bullying ou o filme que é perceber que alguém filma o pior de si à espera de algo que não é compreensível. O melhor que podia acontecer?

Não sei se viste o filme que toda a gente já viu, do gato, do cão, do bebé, da queda que foi, é e sempre será um bom motivo para veres o filme, espreita aí no telemóvel. Aproveita para dizer que viste, pois é tão importante como efectivamente vê-lo. Os vídeos são as lombadas dos livros que tens mas nunca leste.

Não sei se viste o filme que vai estrear no cinema mas estreou no teu computador semanas antes. É difícil falar de estreias, quando as datas e os locais são todos diferentes. Se já viste, não me contes, odeio spoilers.

Não sei se viste o filme que fiz de um momento que não queria que fosse só meu. Se não foste tu, alguém foi, a minha vida tem analytics que o comprovam.

Não sei se viste o filme que tudo à nossa volta se está a tornar. Preferia que fosse rádio, mas parece que foi morto pelo vídeo. A razão é simples, a imaginação trabalha melhor com palavras do que com imagens.

Não sei se viste o filme, mas há uma grande probabilidade de isto ainda estar a gravar. Aproveita e aparece.