O dia da aparição do acordo ortográfico

Acho curioso que a ‘obrigatoriedade’ do acordo ortográfico se dê no mesmo dia das cerimónias da aparição em Fátima, nem que seja pelo cariz miraculoso que este acordo parece necessitar para que algum dia se torne minimamente consensual.

Aliás, ‘consensual’ é uma palavra tão irónica em relação ao Acordo que nem mesmo em relação à data correcta da sua obrigatoriedade parece ser fácil perceber o que é mesmo assim e o que se calhar não é bem dessa maneira.

A verdade é que andamos há anos a discutir o acordo, as suas nuances, as suas incoerências e seja hoje, em Setembro deste ano ou do próximo, quem não gosta nunca há de gostar e mesmo que outros países que também o assinaram assobiem para o lado, por cá diz-se que é de lei e que há que o cumprir.

Da minha parte, apesar de todos os dias ser obrigado a escrever com e sem ele, por motivos profissionais, tenho dificuldade em aceitá-lo porque me parece mais convenção político-académica do que propriamente um estudo de costumes-hábitos-evolução da língua. Mas também reconheço que, em tempo nenhum da língua portuguesa, algum acordo ou norma ortográfica que tenha entrado em vigor o deva ter conseguido de forma pacífica.

Olhando para o exemplo inglês-americano, em que existem aspectos peculiares que fazem com que várias palavras possam ser escritas de duas formas, em função da raiz de linguagem de quem as use, sem que isso seja um erro, parece-me um caminho bem mais abrangente em termos de integração e convergência. Respeitar a diferença, integrando costumes de quem também fala português, em vez de tentar uma unificação à bruta, seria uma via possivelmente mais interessante. Tenho gente que trabalha comigo que teve que aprender muita linguagem comum utilizada por exemplo em Angola e que agora têm um vocabulário mais vasto, já que a comunicação é feita cá, mas é divulgada em Angola, pelo que o vocabulário utilizado é local.

Como está parece-me, em termos de comparativos idiotas, o que foi feito em África pelas potências europeias, em termos de fronteiras geográficas que respeitaram interesses e não as raízes naturais dos povos que lá habitavam. Ficou tudo delineado muito direitinho mas, na prática, não só nada é muito natural como deu origem a regabofe que até hoje ainda perdura.

Potencialmente, da mesma forma que o ph foi corrido e a malta adaptou-se, muito do que é hoje polémico será aceite e integrado no hábito regular. Mas isso não quer dizer que o processo seja vantajoso e coerente ou mais do que uma decisão de poucos a aproveitar a inércia e desinteresse de muitos.

 

Não sei o que se vai passar mas prometo tentar ser mais que um espetador atento. Seja lá o que isso for.

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Aquilo que é como é

Podiam ter sido rosas. Podiam ter sido palavras perfumadas com adjectivos escolhidos a dedo. Podiam ter sido actos heróicos, épicos ou, para surpreender, peculiarmente mundanos. Podia ter sido cultura, jogada como tempero, com a dose certa para agradar ao paladar intelectual.

Podia ter sido tanta coisa, pois em certos jogos as regras mudam a cada partida e a cada jogador, para que tudo o resto permaneça igual.

Mas não.

Foram gelados, mas dos bons, dos que sabem pela vida e por tudo aquilo que vem a seguir. E, sejam os sabores de sempre ou os que vão surgindo para serem experimentados, enquanto existirem gelados, há de haver uma história para contar.

Eu antes fazia coisas, agora faço listas

Há pessoas que adoram listas e vivem para as listas que fazem ou para fazer listas, consoante o ângulo. Eu não sou era esse tipo de pessoa e tenho a bailar na minha cabeça a vaga ideia de que isto da paternidade que se aproxima tem alguma coisa a ver com isso.

É que até há pouco tempo, as listas a que eu me dedicava dividiam-se basicamente em dois grupos: básicas ou lúdicas. As listas básicas, como o seu nome indica referiam-se a coisas tão simples como compras ou de afazeres profissionais para um determinado dia (não sou fã de agendas e não gosto do telemóvel a debitar lembretes de hora a hora).

Já as lúdicas têm muito mais que ver com debates teóricos e exercícios de pura argumentação facciosa, como “top 10 de filmes”, “livros que voltavas a ler”, “jogadores brancos da NBA com menos de 2 metros”, “sabores de gelados”, “5 trocadilhos duvidosos com a palavra tomate” ou “5 mulheres desertas para levar para ilhas sexy”. Não adiantam muito, mas também não atrasam nada.

Só que, hoje em dia, dou por mim a fazer listas, a rever listas e a criar listas de listas que não se enquadram em nada disto. É a lista das malas A, B e C que têm que estar prontas no dia D. Isto no intervalo da lista do que ainda falta no quarto X, lista essa que parece da quinta dimensão, pois quanto mais se faz, mais ela aumenta na parte do “a fazer”. Depois há a lista com N coisas que o Sr.N tem para fazer quando vier cá arranjar mais não sei quantas cenas que me fazem pensar se não devíamos falar antes com o Sr.Hércules, mais habituado certamente a certos trabalhos. Havia também uma lista da IKEA, mas essa sucumbiu depois de ter levado várias vezes com uma poltrona Strandmon em cima.

E sei bem que me estou a esquecer de algumas mas, para ter a certeza, precisava de ir verificar a lista das listas, mas isso agora não me apetece.

Telefonam-me e estou no meio da mata

A modernidade tem destas coisas: sais de casa com vestes justas e, em menos de 20 minutos, estás no meio da mata. Corres, não porque te persigam, mas porque assim decidiste empregar uma ou duas horas no meio das férias e a vegetação trata-te por tu ou a tua imaginação assim o dita.

Depois de umas quantas voltas, instituída a regra de que “se vires uma subida não te podes negar a fazê-la”, eis que um dispositivo te lembra que não és um qualquer Livingstone de lycra, mas sim um tipo urbano que pode gostar de ir para a mata mas, por razões de gadgetismo, vai sempre artilhado. O telemóvel toca.

O chamador revela-se importante o suficiente para uma pausa no ritmo e o atendimento da chamada. “Estás onde?”, “No meio da mata…”. O descrédito acentua-se: “A esta hora?”, a ironia exige-se como resposta “Mas há alguma hora certa para estar no meio da mata?”. Trocam-se palavras, incluindo insultos amistosos e acerta-se a combinação que havia para combinar. É pedida uma prova, a terminar a conversa.

Remeto uma foto, que isto do imediatismo é para todos, mesmo os que estão no meio da mata. Passa por mim um tipo de bicicleta, mas a subida é íngreme, tenho tempo de o apanhar.

Largo o telefone e apanho a passada. Quando o vou a apanhar ele começa a controlar o meu avanço e, de repente, faz o truque mais velho do livro – apeia-se da bicicleta e olha com ar preocupado para a corrente. Sempre é melhor que ser ultrapassado por um urbano de lycra que ainda há dois minutos estava ao telefone. No meio da mata, acrescente-se.

O problema de ser saudade

Diz-se que a palavra ‘saudade’ não tem tradução directa de português para outras línguas. E eu digo que, a haver um problema, não é a tradução, pois o sentimento é tão universal como aquele gesto que se faz no restaurante para que nos tragam a conta. Aliás, não preciso que me traduzam o que estou a sentir, a gostar de algo era de uma explicação que não existe para algo que insiste em existir.

Não havendo explicações há no entanto uma escola, onde todos aprendemos apesar de ninguém lá se ter matriculado. A escola da saudade é bruta, mesmo quando é terna, porque o problema de ter saudades começa exactamente por aí – no facto de ser saudade.

Estou longe de ser mais perito em saudade que outros e se me ponho a bater na tecla é porque o meu problema com um certo tipo de saudade é coisa séria. Ela sabe disso e eu não a posso culpar mas, se me fosse dada a oportunidade, o que gostava mesmo era de lhe fazer a folha.

É porque esta saudade quando aparece arma-se em forte, dá um enxerto de porrada no esquecimento e ri-se de nós quando nos pomos a pensar se um dia vai deixar não nos conseguiremos lembrar de todos aqueles pequenos detalhes que a ajudaram a crescer e que hoje são gigantes empoleirados num coração. No meu, ainda por cima.

E por tudo o que a torna boa, essa saudade é igualmente má. Faz-me riscar parágrafos, de tão lamechas que dou por mim a ser, e contar algumas piadas a mim próprio, porque a saudade não se ri de piadas novas, faz apenas eco das que partilhámos. Faz-me sentir mal por não fazer mais em relação a tudo o resto que não tem a ver com ela, mas que só existe por sua causa. Faz-me olhar uma vez por mês para um copo de whisky com duas pedras de gelo, que não bebo porque não é para mim e ficar a pensar que aquilo não é uma poção mágica para transformar em textos tontos, realidades tristes. É um brinde a ti, miúdo e sei bem que achas que é um desperdício ninguém beber aquilo.

Na verdade, o problema de ser saudade, desta saudade, é saber que nunca a vou poder matar. E isso só me dá mais vontade de a mandar abater.

A técnica da pancada no comando da TV

Eu sei porque é que um dia as máquinas se vão revoltar, fartar-se de acatar ordens de organismos imperfeitos e brutos e começar a pôr isto na linha. E não tem nada a ver com inteligência artificial, auto-consciencialização da existência ou outra qualquer conjuntura profetizada por Asimovs e K.Dicks da vida.

Tem a ver com a porrada que andamos a aviar há anos em comandos de televisão, botões, caixas multibanco, teclados de computador e toda aquela maquinaria que não respeitamos o suficiente (ou não nos custou o suficiente) para pensarmos duas vezes se “duas ou três pancadinhas” é mesmo solução que procuramos.

É quase científico, sempre que há uma falha num equipamento electrónico “menor” depois de uma ou outra tentativa, que passa normalmente por carregar com mais força, várias vezes ou uma combinação de ambos enquanto fazemos caras esquisitas. “Bate com ele na mão, costuma resultar”.

Não sei porque é que não experimentamos isto com aviões e sistemas mais evoluídos – Para quê chamar o reboque quando três pontapés no motor podem servir para resolver a coisa?

E, no meio disto tudo, não pensem que as máquinas não registam e, lá mais para a frente, não vai surgir uma que vai ter a brilhante ideia: Epá, a Humanidade não anda a funcionar muito bem, e que tal darmos-lhe duas ou três pancadinhas para ver se a coisa se resolve assim do nada.