A melga riu-se até ao fim. Eu fui o fim.

Tinha tudo pronto para dormir umas horas e levantar-me cedinho para ir correr. O sono estava lá, a posição era confortável e as condições eram as ideais para a prática de dormida – até que chegaram as três da manhã e, com elas, uma melga. E quem é que, na mesma situação, nunca teve a noção de que a noite vai mudar a partir daí. 380855 Primeiro é aquele zumbidinho que se insinua no nosso sonho e que não bate certo, pois a Charlize Theron não zumbe e provavelmente também não faz zumba. Depois é a vaga consciência de se a estamos a ouvir, é sinal que a melga já deve fazer de nós buffet há algum tempo. Toca de tapar a cabeça com uma almofada e esperar aquilo que qualquer pessoa moralmente correcta que não durma sozinha pode esperar – que a melga se entretenha a petiscar o buffet ao lado. O problema é que o calor em pouco tempo te deixar a ouvir o sangue a latejar nos ouvidos tapados pela almofada. Tira-se a almofada e espera-se o improvável – que a melga depois de jantar tenha ido a um bar. 04h30 da manhã – sono intermitente, melga avança de novo. Por esta altura já imaginamos zumbidos fictícios, mas aquele é de verdade e há que reagir – é altura de acender a luz da mesa de cabeceira de rompante. Já se sabe que, pior do que deixar alguém que dorme ao nosso lado ser pasto de melgas, só mesmo acordá-la de rompante com a luz de um candeeiro. A melga tira sangue, injecta discussão e ri-se. Mas ri-se escondida, porque às quatro e meia da manhã a melga é bem disposta mas não é burra. A situação acalma-se e é tomada a decisão unânime de dormir de luz acesa. Passados trinta minutos de semi-sono, sem melga no horizonte, o parlamento altera a decisão para luz apagada. 06h35m, o filme repete-se e, tal como numa rusga policial, acendem-se luzes, levantam-se de rompante e prometem não desistir sem apanhar a culpada, ‘A PUTA DA MELGA’ na transcrição original. Gorda e anafada, a melga comete o erro de se expor num ponto sem grande margem de esconderijo. Mostrando que podia ter tido uma grande carreira no trampolim olímpico, de um salto ergo-me na cama e, sem revistas à mão, utilizo um mísero folheto técnico quadrangular e pequenote para lhe dar uma ripada. Desorientada, a melga escapa por pouco e eu também escapo por pouco, mas de bater com a cabeça no tecto. Só que, ainda a recuperar e, possivelmente, com sinais de enfartamento, pousa ali ao lado e aí o ‘Mestre na arte de rebentar com insectos com míseros folhetos técnicos quadrangulares’, como gosto de ser chamado, com um golpe certeiro transforma a melga em duas manchas de sangue – uma no tecto, outra na arma do crime. A obesidade em melgas também é um factor preocupante nos riscos de vida. Limpo o tecto com um produto muito eficaz e preparo-me para dormir o bocadinho que já merecia. Deito-me e o despertador toca. É hora de ir correr. Sinto a melga a rir-se no Além.

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