Dilemas da loucura

Às vezes tu pensas que estás louco, mas as pessoas à tua volta convencem-te do contrário.

Às vezes as pessoas à tua volta dizem que estás louco, mas tu nunca te sentiste mais são.

Às vezes tu dizes que achas que as pessoas à tua volta estão todas loucas e elas olham-te como se tu é que estivesses louco.

Às vezes as pessoas à tua volta dizem que estão a ficar loucas e tu fazes um grande esforço para não lhes dizer que o que elas são é parvas.

Às vezes é o mundo todo que está louco, mas ninguém o contraria com medo que ele pare de girar.

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Quando uma marca te aborda via SMS…

Neste caso não é Impulse, é Superbock.

E, trabalhando eu neste universo de comunicação e marcas, percebendo perfeitamente que a sustentação de campanhas e conceitos pode passar também por novas formas de chegar até ao consumidor e impactá-lo com a nossa mensagem e os valores que andamos a promover enquanto há budget.

Só que criatividade e cenas muita modernas cada vez menos fazem sentido se não tiverem um lado de eficácia. Portanto, se eu quero chegar até alguém que pode ou não ter afinidade comigo é bom que o faça de forma inteligente.

É por isso que me chateia quando se aplicam meios mais intrusivos, como por exemplo SMS, para me virem com conversas de moodstorytelling de pacotilha sem que eu veja valor acrescido ou qualquer desejo de envolvência.

Eu sei que a Superbock anda numa da amizade, da partilha de valores (e consumo de cerveja), que tem anúncios de TV com um guião muito bem escrito do ponto de vista da locução, mas em que o visual é como em quase todos os anúncios de cerveja uma representação multiplicada do seu público alvo, com foco em jovens de ar irreverente, quase modelos, girl power moderno com irreverência e decotes e, claro está, um grupo de velhos castiços. De Los Angeles ao Barreiro, quase nem se nota a diferença.

Mas, apesar de eu nem ser grande apreciador de cerveja, se me querem convencer que os amigos são importantes e conseguiram de alguma forma obter o meu número de telemóvel, para além de palavras bonitas cheguem-se à frente e digam que ao mostrar a SMS recebo produto quando estiver num café ou bar. É que para receber SMS tontas já me bastam alguns amigos quando bebem demasiado.

Ah e se se querem meter na minha vida, vejam lá se o vosso número aceita SMS de volta. É que assim o engaging da conversation fica privado do seu ongoing awareness.

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Campeão de metáforas de sons de bebés

Há quase tantos livros sobre cenas para bebés quanto estrelas no céu. Sendo uma área de eterna insegurança e desejo de conhecer todas as respostas e soluções, é natural que para além do conhecimento também haja sempre a procura de lucro/negócio.

Um dos aspectos que intriga a humanidade e a parentalidade (não necessariamente por essa ordem) são os sons emitidos por bebés – há quem identifique os choros, quem explique porque ‘gugu’ não é o mesmo que ‘dada’ e a coisa até faça sentido.

O meu problema, para além do lado racional da coisa, é que assim fica tudo muito linear, faltam nessas obras algum espaço para metáforas com correspondência actual. Por exemplo, uma coisa em que eu sou barra é a comparar os sons que o meu o meu puto faz com coisas que fazem todo o sentido/não fazem sentido nenhum (riscar o que não interessa).

Eis três situações.

O grunhido à mini-Ronaldo

Não é bem assim, mas anda lá perto. É um grunhido de uma certa satisfação e deleite que surge em momentos que antecedem ou sucedem situações prazenteiras. Por norma, o mini cidadão fica muito cheio de si (às vezes são gases) depois de emitir o seu CR grunhido, o que faz todo o sentido, embora se algum dia vier a ter irmãs espero que não sigam o exemplo da metáfora.

 

O prenúncio à Zx Spectrum

É uma espécie de arranque tal e qual como no Zx Spectrum – Ao princípio é mais pausado, tal como quando surgiam as barras vermelhas e azuis, e nunca se sabe se a coisa vai correr bem. Depois, mais depressa ou mais lentamente, arranca para o ritmo do jogo a carregar com barras amarelas e azuis, de forma bem mais intensa. A diferença é que normalmente aí a expectativa não é a de jogar uns níveis de Renegade ou Manic Miner, mas sim de fazer os possíveis para que o berreiro não se prolongue.

 

O risinho à Beavis & Butthead

É uma espécie de risadinha sacana, perante algo que lhe dá gozo e que já imagina concretizada mesmo antes de acontecer. Muito comum perante a noção de ‘mama à vista’, ‘vou dar a esta fralda tudo o que merece’ ou ‘banho que é banho não é feito só de água’. Também gera o efeito do pai ou da mãe tentarem fazer o mesmo tipo de riso, levando o bebé a interrogar-se que tipo de educação o espera perante gente que faz imitações tão básicas como esta.

 

Menos um telefonema

Odeio falar ao telefone, mas hoje daria o que não posso para fazer uma chamada que durante tantos anos marcou este dia como o princípio de combinações futuras e trocas de galhardetes que mais não eram do que abraços à distância de miúdos em ponto grande.

Dois, três minutos e as mesmas piadas com os mesmos nomes de código de sempre – entre novidades, clima de férias e projectos que fariam sempre sentido lá mais para Setembro.

Apago linhas e linhas que escrevo como se isto fosse uma chamada sem sentido à espera de uma resposta que não há de vir. Dizias, pelo meio de conversas sobre o blog que era suposto ser nosso, que não percebias como, para além de tudo o resto, eu ainda arranjava tempo para ‘textos, blogs e essas merdas’.

Ria-me, para mim sempre foi fácil fazer de canetas e teclas extensões do que penso, do que vejo e do que sinto – chamava-te preguiçoso e dizi-te para veres menos filmes, já devia haver pouca gente em Portugal que vivesse, consumisse e soubesse tanto de cinema como tu. Põe isso por escrito, se eu consigo, tu consegues, no mínimo seremos iguais, na prática é bem provável que te saias melhor. Eu puxo por ti, mas descansa que não é para correr. Se não nos virmos antes, falamos em Agosto e olha que em Setembro temos planos para arrancar.
Tudou mudou, mas nada mudou, os planos agora hão-de ficar para um outro Setembro, num calendário diferente, seja lá quando isso for.

Não te posso ligar a dizer isto, mas fica por escrito. Não consigo ir à tua página, um mural que tem a marca da tua alegria, mas que agora guarda apenas espelhos de saudade e tristeza, especialmente em dias assim. Não sei se é um sinal dos tempos modernos, se é bom ou mau ou se é apenas o que é. Cada um lida com as coisas à sua maneira.

E, só para terminar com este registo lamechas que muita gozação me teria valido, garanto-te que a partir de hoje e mesmo nos dias difíceis como o que se aproxima, aquilo que escrever sobre nós não será trágico-sensível, será sobre o que de bom sobrevive ao mau que não se apaga. Até porque já não há cu para continuar a escrever textos para gente que não tem acesso à Internet seja lá onde estiver (e que mesmo que tivesse, o estaria a usar para downloads de filmes e séries, quase de certeza).

De manhã eu vou ao pão (e gosto)

Pode parecer estúpido, mas de manhã gosto de ir ao pão.

Gosto, mas atenção, não a ponto de cantar sobre isso com um sotaque diferente e em timbre ligeiramente irritante.

Para além da ligação afectivo-gulosa que tenho com pão, tenho também a sorte de ter uma carrinha a vinte passos de casa onde diariamente ir lá buscá-lo fresquinho. É óbvio que, sendo uma coisa de bairro, é menos provável que lá a conversa seja sobre efeitos nefastos do glúten ou nomes em estrangeiro que soam a pão pomposo, mas muito mais sobre a contagem de velhinhos sobreviventes na rua, frases que acabam com ‘eu já cá venho pagar’ ou crianças à bulha enquanto os donos esperam pelo pão. Perdão, onde se lê crianças leiam-se cães, as crianças já vão muitas vezes bem ensinadas buscar o pão sozinhas ou fazem beicinho a ver se as senhoras da carrinha lhes dão biscoitos. Os cães não fazem beicinho, mas também deviam gostar dos biscoitos.

Não sou um ditador do pão, daqueles que é incapaz de comer pão do dia anterior (abençoadas tostas e torradas), mas aquela ideia de sair de casa com um fim que não o de ir trabalhar, muitas vezes de calção e chinelos, deixa-me satisfeito e iludido por segundos – parece que estou de férias, as chamadas férias do pão.

Às vezes, para rentabilizar o tempo, quando saio de manhãzinha para correr levo já tudo preparado para comprar o pão no final. Não é bem a mesma coisa, mas também tem a sua diversão, nesse caso é mais para ver o tipo de exercício que a senhora do pão faz para pegar nas notas ou moedas ‘ligeiramente’ suadas que lhe passo para a mão. Não é que as esconda de propósito para proporcionar esse efeito, mas às vezes bastam trinta segundos na minha mão para aquilo ficar para o molhadito.

As senhoras riem-se, as velhotas fazem piadas clássicas do género ‘De manhã e já está cansado. Estes jovens…’, os velhos dizem que como no tempo deles tinham que ir a correr 200kms para ir não sei onde logo de pequeninos (daí as semelhanças entre Portugal e Quénia em corredores de fundo) e o resto são os ‘Olá, como está?’ do costume.

Curiosamente, não são raras as famílias de pais de trinta e tal anos e filhos relativamente pequenos que vão ali comprar uma espécie de complemento ao pequeno almoço volante. É o bolo ou a merenda para complementar o sumo que já vai na mão e por aí em diante. Não sei se é falta de tempo ou engenharia de eficácia do mesmo, pois por vezes é gente que mora na porta ao lado do local da carrinha do pão.

Eles que se orientem que eu, enquanto puder prefiro ir ao pão, voltar para casa calmamente e deixar que o regabofe de tudo o que há de vir nesse dia aguente mais um bocadinho. E sim, há sempre pontos diferentes sobre o que é mal cozido para uns e o que é bem cozido para outros e nunca haverá acordo. É como o ar condicionado nos locais de trabalho – pomos eternos da discórdia.

Murphy come caracóis

Tenho as mãos sujas de óleo mas, mais do que isso, estou coberto de vergonha. Depois de uma existência a gabar-me de nunca ter tido a necessidade de trocar um pneu, hoje isso mudou.

A partir de hoje só me posso gabar de só uma vez ter tentado trocar um pneu e ter falhado miseravelmente. Existem imensas razões válidas para esse facto, mas iam sempre soar a desculpas. E eu sou um gajo que é fraco em mecânica mas forte a assumir responsabilidades.

Aviso no estaminé, vou chegar atrasado agora à tarde, sossegam-me qual Marsellus Wallace a tranquilizar Jules, não há stress hoje é final de tarde pseudo cool, com drinks e petiscos.

Suado que nem um porco, esfomeado que nem um cão, oleoso que nem uma metáfora qualquer que faça sentido com animais chego ao destino, faço três ou quatro cenas estilo profissionais e junto-me à festa. 

Onde para comer há única e exclusivamente caracóis…que para mim são quase cocó a não ser que se trate da minha sobrevivência ou de um qualquer cenário pós-apocalíptico.

Será que Murphy, no intervalo de fazer leis, sabia trocar pneus?