Morfeu por meia hora

Banho tomado, refeição providenciada, últimas palavras de ‘Se for preciso alguma coisa liga. Aliás mesmo que ainda não seja preciso, mas te pareça que possa vir a ser, liga’ e pronto, eis-me sozinho em casa com o micro-artista que, com menos de um mês, ainda não é propriamente campeão da interactividade.

Era suposto estar em ambiente descontraído, gatos a dormir certamente rindo-se do pouco que outra gente dorme, criança a dormir e eu a teclar furiosamente, mas com elegância.

Eis que, passados 10 minutos, surge de um certo quarto um certo grunhido que se sobrepõe a um certo white noise, dito milagroso para lançar bebés para o espaço sideral do sono. É ele.

Lá vou eu, pensando que terei que mostrar na próxima hora o porquê de ser vice-campeão mundial de embalanço de mini-artistas, apenas perdendo para um iraniano que certamente esfregou nas mãos óleo de papoila para ter conseguido resultados melhores que os meus.

Mas, chegado ao quarto, vejo que ainda não estamos nessa fase. No meio da penumbra, há uns olhinhos que eu já vi, em ponto grande e bastante menos inocentes, na cara de gente que abusou de cenas que se fumam – está meio cá, meio lá.

Opto pela solução de conforto, ajeita-se o lençol, induz-se em voz baixa ‘ Quando eu for velho, mudas-me tu a fralda, estás a ouvir?’ e eis que, ao ajeitar a chucha, uma mãozinha me agarra o dedo com força.

Um dedo meu penso eu, à escala, é para ele como um adulto a segurar uma salsicha de bom porte, mas não tiremos a beleza à cena com analogias idiotas. Parece começar a acalmar-se e eu estou numa posição quase ao estilo breakdance.

Um gato passa por ali e juro que se ri, enquanto se deita lá ao fundo na cama. Não faz mal, estou acima disso tudo, durante os próximos quinze-vinte minutos sou uma espécie de Morfeu. Ou o meu dedo é uma espécie de Morfeu. E eu não conheço nenhuma salsicha que seja uma espécie de Morfeu.

E dás por ti a pensar nos 50 mil lugares comuns que já conhecias por via dos teus amigos que são pais e percebes que é como falar de certas obras de arte, como a Guernica de Picasso, cuja grandiosidade só compreendes verdadeiramente quando estás frente a frente com elas.

Mas, diga-se de passagem, para que isto não acabe num tom demasiado lamechas, eu também nunca vi uma salsicha parecida com a Guernica.

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Um pensamento sobre “Morfeu por meia hora

  1. Mak, que beleza de post (como aliás é o costume por aqui).

    À passagem por ‘ Quando eu for velho, mudas-me tu a fralda, estás a ouvir?’ quase me emocionei. Depois, na travagem em ” nunca vi uma salsicha parecida com a Guernica ” pude dar a gargalhada final.
    Obrigada aos dois, pai e mini-artista (crescem num instante, vai-lhe cair o “mini” tarda nada). 🙂

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