O fabuloso destino de Amélia no Instagram

Amélia levantava-se cedo, naquela ‘magic hour’ que lhe permitia tirar as mais bonitas fotos do sol a nascer da sua varanda bem decorada, em que uma cidade sem marquises jazia a seus pés. Apesar da alvorada ser cedo, Amélia nunca tinha olheiras nem tshirts velhas que usasse para dormir, porque às primeiras selfies da aurora já estava com outfits primorosos ou equipamento de fitness com muito swag, pois são as que ficam melhor para conjugar mais tarde com muito sweat.

No que ao pequeno almoço diz respeito, Amélia nunca comeu um papo-seco na vida. Aliás, Amélia nunca teve canecas promocionais com café promocional bebido em ambientes decorados nos saldos de uma qualquer loja de mobiliário acessível. Amélia tinha talheres, loiça e alimentos posicionados ao pormenor para saberem bem, em mesas de luz imaculada. A haver close ups de canecas, as mesmas tinham frases inspiracionais geniais ou, no limite, dignas de aquecer corações.

Sejamos francos, as refeições de Amélia eram para comer com os olhos, porque Amélia nunca era vista efectivamente a comer o que quer que seja e o apetite ficava no olhar de quem a apreciava. Ainda assim, a partir de determinada altura, Amélia era vista várias vezes com pacotes, saquetas e saquinhos na sua mão – eram chás, poções mágicas e complementos que traziam felicidade e forma física à sua vida. O seu sorriso parecia forçado, mas Amélia certamente sentia-se mal por saber que tanta gente não tinha a sua sorte.

Ao certo não era possível saber qual o caminho que Amélia fazia para o trabalho. Bem, ao certo nem sequer sabíamos se Amélia tinha tempo para ter trabalho, pois no seu caminho atravessavam-se constantemente espelhos que obrigavam a tirar selfies. Amélia tinha, possivelmente, muito medo de um dia ficar demente e aproveitava para tirar muitas fotos para nunca se esquecer de quem era.

A vida de Amélia parecia fácil, mas toda a gente sabe que isso dá muito trabalho. Entre exercício, paisagens, piscinas de sonho, eventos de luxo, a escolha do ângulo certo para a roupa ideal e a constante procura da felicidade através de cliques, shares e refreshes, sobrava muito pouco tempo para Amélia ser ela própria.

Amélia começou a chatear-se com aquilo que os seus seguidores exigiam dela. O Instagram pode ter muitos filtros, mas só tempo e dedicavam ajudavam a tentar apagar o factor mundano da sua vida. Chegava à noite cansada de tanto planear o dia seguinte e ainda faltava o update com o seu fantástico cachorrinho de marca, os dois anichados na casa, desfeita ao pormenor.

Dois toques no ecrã algures, mais um coração que lhe prestava homenagem, mais duas vidas perfeitas que se tocavam. Mas isso não chegava a Amélia, que sentia cada vez mais a necessidade de algo que a preenchesse de forma mais plena – isto não devia ser só sobre o que ela mostrava, mas também sobre o que ela efectivamente queria.

 

E foi assim que, enquanto postava um piscar de olhos quase inocente por debaixo de uma lua cheia de fazer corar de inveja um lobisomem que Amélia decidiu o seu destino – estava na hora de abrir conta no Tinder.

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