De manhã eu vou ao pão (e gosto)

Pode parecer estúpido, mas de manhã gosto de ir ao pão.

Gosto, mas atenção, não a ponto de cantar sobre isso com um sotaque diferente e em timbre ligeiramente irritante.

Para além da ligação afectivo-gulosa que tenho com pão, tenho também a sorte de ter uma carrinha a vinte passos de casa onde diariamente ir lá buscá-lo fresquinho. É óbvio que, sendo uma coisa de bairro, é menos provável que lá a conversa seja sobre efeitos nefastos do glúten ou nomes em estrangeiro que soam a pão pomposo, mas muito mais sobre a contagem de velhinhos sobreviventes na rua, frases que acabam com ‘eu já cá venho pagar’ ou crianças à bulha enquanto os donos esperam pelo pão. Perdão, onde se lê crianças leiam-se cães, as crianças já vão muitas vezes bem ensinadas buscar o pão sozinhas ou fazem beicinho a ver se as senhoras da carrinha lhes dão biscoitos. Os cães não fazem beicinho, mas também deviam gostar dos biscoitos.

Não sou um ditador do pão, daqueles que é incapaz de comer pão do dia anterior (abençoadas tostas e torradas), mas aquela ideia de sair de casa com um fim que não o de ir trabalhar, muitas vezes de calção e chinelos, deixa-me satisfeito e iludido por segundos – parece que estou de férias, as chamadas férias do pão.

Às vezes, para rentabilizar o tempo, quando saio de manhãzinha para correr levo já tudo preparado para comprar o pão no final. Não é bem a mesma coisa, mas também tem a sua diversão, nesse caso é mais para ver o tipo de exercício que a senhora do pão faz para pegar nas notas ou moedas ‘ligeiramente’ suadas que lhe passo para a mão. Não é que as esconda de propósito para proporcionar esse efeito, mas às vezes bastam trinta segundos na minha mão para aquilo ficar para o molhadito.

As senhoras riem-se, as velhotas fazem piadas clássicas do género ‘De manhã e já está cansado. Estes jovens…’, os velhos dizem que como no tempo deles tinham que ir a correr 200kms para ir não sei onde logo de pequeninos (daí as semelhanças entre Portugal e Quénia em corredores de fundo) e o resto são os ‘Olá, como está?’ do costume.

Curiosamente, não são raras as famílias de pais de trinta e tal anos e filhos relativamente pequenos que vão ali comprar uma espécie de complemento ao pequeno almoço volante. É o bolo ou a merenda para complementar o sumo que já vai na mão e por aí em diante. Não sei se é falta de tempo ou engenharia de eficácia do mesmo, pois por vezes é gente que mora na porta ao lado do local da carrinha do pão.

Eles que se orientem que eu, enquanto puder prefiro ir ao pão, voltar para casa calmamente e deixar que o regabofe de tudo o que há de vir nesse dia aguente mais um bocadinho. E sim, há sempre pontos diferentes sobre o que é mal cozido para uns e o que é bem cozido para outros e nunca haverá acordo. É como o ar condicionado nos locais de trabalho – pomos eternos da discórdia.

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