Bolo do caco e drones – a solução para tudo

Existem umas coisas chamadas tendências que são muito engraçadas.

Chegam pé ante pé e, quando dás por isso, estão instaladas até ao limite da alarvidade. O bolo do caco e os drones fazem parte disso mesmo – tendências que se andam a repetir até ao limite, caminhando para uma estupidez sem paralelo.

O bolo do caco é bom?
É sim senhor, eu próprio gosto e tem os seus méritos.

O bolo do caco é o Santo Graal da alimentação e, depois do umami, vai ser a nova dimensão do palato?
Não, é uma variante de um pão regional que agora virou complemento de tudo, da ‘hamburga gourmet’ ao ‘prego vintage’, com a agravante que é cobrado como se de uma raridade alimentícia se tratasse – já vi cobrarem mais 2 euros extra pelo dito cujo.

A continuar por este caminho em breve poderei tentar apaziguar a febre com Ben-u-ron normal ou, por apenas mais 1€ tomar comprimidos em mini bolo do caco, numa experiência sensorial inédita. E quem diz isso diz também que uma senhora das limpezas poderá cobrar mais 2€ hora se, em vez de usar panos de limpeza normais, embeber detergentes em bolos do caco para uma limpeza com outro sabor.

Por outro lado, quem não tem cão e não lhe apetece caçar com gato, usa um drone. Entre experiências profissionais e gadgets opcionais, vejo gente mais excitada com drones do que com o Sports Illustrated Swimsuit Edition.

O drone é um gadget curioso e pode dar coisas engraçadas?
Pode sim senhor, eu próprio já tive projectos em que o seu uso resultou em valor acrescentado.

O drone é o milagre científico-voador que vai mudar a perspectiva com que vemos o mundo e as filmagens de todo o género?
Não, há coisas que não fazem mais sentido por serem filmadas com um drone e lá por um tipo ter um drone as miúdas não vão ficar mais impressionadas com isso. Podia agora fazer a piada do ‘malandrone’, mas fica só subentendida.

E já começa a haver a guerra entre os puristas do drone e os dronistas de nova guarda, com legislação (em falta) metida ao barulho e tudo o mais.
A continuar assim, este ícone de estilo voador em breve vai definir coisas tão absurdas como:
‘Epá, descobri que a minha mulher me traía’
‘Que merda meu, deves estar de rastos’
‘Qual quê, foi tudo filmado com drone, está brutal e a definição e os ângulos são incríveis’

Enfim, pelo andar da carruagem, já falta pouco para as Misses americanas dizerem que os seus maiores desejos são a paz mundial filmada por drones e acabar com a fome de bolo do caco.

O lado bom de não ter tempo para não ter tempo

Ainda não tenho dedos suficientes para contar os dias que faltam até ao meu mês de licença, embora esteja a considerar implantes para aumentar a capacidade. Também não quero entrar naquele loop da malta que se queixa do tempo, são os novos pobres aqueles que não têm tempo para nada do que queriam fazer – já não bastava a escravidão do capital, instalou-se a ditadura do relógio.

Assim sendo, tenho feito um workout melhor que crossfit ao nível da gestão de tempo. Se a perfeição é uma miragem, não me serve de nada ser camelo.

Se o elevadamente científico planeamento de férias permitiu o eclipse de verão de responsáveis não chamados Sérgio, põe-se em acção o método da elasticidade da lógica. Se ela não estica, o nosso horário também não.

Isso, combinado com sprints de regresso para chegar a tempo de dar banho a um mini cidadão que ameaça tornar-se o Michael Phelps das banheiras, permitem um final de tarde com sorriso nos lábios.

Uma vez que desde que esse jovem artista nasceu lá em casa não se usam despertadores, usa-se o seu bom desempenho nas noites para despertares um pouco mais madrugadores e despachar-se logo a corrida comme il faut. Para manter o equilíbrio há dias em que sou eu a gerir o início de dia do puto maravilha e, nesses casos, o desafio é ‘Que nova tarefa consegues fazer enquanto embalas uma criança com um braço?’.

Obviamente que, com a organização de uma espécie de Super Quiz a la Trivial Pursuit com esteróides a espreitar em Setembro e várias coisas para planear, o horário de almoço (quando viável) e o slot 21-23h ficam muitas vezes reservados para o circuito ‘Desenrascanços Múltiplos’ e o apontar de perguntas tão válidas como ‘Que rei português para além dos rótulos de maluco e impotente ainda lhe viu o irmão ficar com a mulher?’ (a resposta não se encontra na novela da TVI que gira entre Angola e Portugal e tem acting e enredo que não lembram ao demo de tão flagelantes que são).

E tempo para me queixar? Não tenho, aproveitei os segundos de sobra para escrever este post, depois de ter cumprido a elevação do meu status social supérfluo através da resposta individual a todos os posts de redes sociais a propósito do meu aniversário no fim de semana.

Sim, porque tive tempo para isso e para enfardar bolo de aniversário feito de gelado. Morango, Bolacha Maria, Lima e Chocolate Negro, já que perguntam.

Todos temos um Captain Obvious por perto

Na cultura da Internet, é fácil perceber a popularidade que um Captain Obvious tem. Não é a melhor das popularidades, mas também não se podia esperar muito mais de alguém cuja faceta principal é constatar o óbvio como se da descoberta da pólvora se tratasse.

No entanto, se fizer uma análise simples, descubro que a Internet apenas tornou mais óbvia a existência de tantos Captain Obvious, passe a redundância. Basta-me olhar para trás e ver que, seja em ambiente académico ou profissional, já desde o tempo da escola primária que qualquer um de nós já teve (tem) um desses espécimes por perto.

E, quanto mais os tempos são incertos, mais se dá a sua multiplicação como coelhos.

Eram eles que perguntavam na primária se não ter erros no ditado era bom, depois da professora ter dito que ia fazer um ditado para ver quem não dava erros. Eram eles que no secundário perguntavam em História se a táctica do quadrado podia ser considerado um momento militar do caraças, depois de duas aulas inteiras de elogios a Nuno Álvares Pereira e à Padeira mais fixe pré Padaria Portuguesa.

Nas faculdades, nada dinamizava uma cadeira tipo Sociologia como ouvir o eco redundante das considerações sobre Comte ou Saint Simon enquanto precursores da Sociologia moderna. ‘Podemos então considerar Comte um dos pais da Sociologia?’, ouvia-se no ar enquanto se suspirava pelos tempos em que a eugenia era socialmente aceite.

O loop repete-se, nos estagiários à procura de brilhar um bocadinho mais na busca da migalhinha de reconhecimento que um dia os pode tornar ex-estagiários não sinónimos de desempregados e nas reuniões de gente criativamente descomplexada, mas firme crente na teoria de que dizer o mesmo por outras palavras imediatamente a seguir a ouvi-las nos torna eloquentes e nos faz passar por perspicazes ou, simplesmente, graxistas.

Well done Captain Obvious, o teu legado está assegurado.

Às vezes basta ir

Soltar amarras sem ter um navio, largar metáforas de pára-quedas e, já agora, aproveitar o balanço para largar também mobília que ocupa espaço dentro da cabeça.

O truque está em pensar em não pensar apesar de, depois disso, já estarmos fazer batota. Evitar perguntas, especialmente daquelas perguntas que nunca têm outra resposta que não seja outra pergunta e mais outra pergunta até não sermos mais do que hamsters na roda das perguntas.

Às vezes basta ir.

Sobre o resto pensamos no caminho.

  
 

A adorável Chinesação do universo

Se anularmos tudo o que é questionável ou duvidoso lá para as bandas desta mega nação asiática, há que simplesmente louvar pequenas nuances deliciosas na loja da chinesação que por lá existe.
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Pode até ser fake mas, de algum tempo para cá, a minha política em relação ao mundo incrível da Internet é: se for fantástico pode até ser falso, mas eu quero acreditar.

E, quando assim é, para além desta magnífica empresa do Will Dates, podemos pensar no potencial empresarial que isto teria à escala nacional, se tivéssemos dimensão para gerar interesse na China.

Uma Galf, Zédp ou até uma Tentugal Pelecom seriam pura magia.

Episódios vulgares de elevador

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O sistema do edifício em que trabalho faz com que seja mais difícil usar as escadas do que o elevador. E, já que vou de elevador, cumpre-me analisar o seguinte:

Mulheres corporate de consultoras de sucesso vestidas e arranjadas a rigor conseguem, ainda assim,  ter malas horríveis para levar o seu portátil.

Consultores de fato e capacete de mota tendem a passar 95% deste período a passar as mãos pelo cabelo. Kudos para os consultores de fato e capacete de mota carecas.

O pessoal dos call centers  e dos cursos de formação está-se a cagar para hierarquias e cavalheirismo. Se chegou o elevador que eu quero, até uma velha de andarilho pode ser passada a ferro. Isso só é chato porque dá má fama a gajos de barba e tshirt como eu, que podem ser confundidos com esses profissionais.

Telemóveldesguelhismo é a modalidade que tende a comparar telemóveis presentes dentro de um elevador, mas sempre de esguelha.

Cavalheirocuzismo empresarial – modalidade em que consultores deixam passar gentilmente senhoras no acesso ao elevador apenas para lhes controlarem o rabo.

Estou a ficar sem rede – desculpa mais comum utilizada para acabar com conversas ao telefone ao entrar num elevador que não causa qualquer problema desse género.

Mutismo vs falabaratismo – Metade das pessoas baixa o tom de voz ao continuar uma conversa dentro de um elevador. A outra metade fala mais alto para todos saberem do que se trata a conversa.

À hora de saída, 20 segundos chegam para lavar muita roupa suja.

Engates fumados – Quanto mais interessante for a fumadora, maior a probabilidade de ser acompanhada por um gajo não fumador na pausa para o cigarrinho.

A dúvida das dúvidas – Momento de dúvida pessoal em que, tendo a resposta ou uma opinião super válida a dar sobre um assunto que outras pessoas discutem no elevador, somos forçados a continuar calados para não entrar em conversa alheia a pés juntos.

Cantinavador – Pequeno ritual em que alguns utilizam o elevador e os centímetros quadrados disponíveis para arrebanhar um pequeno almoço comprado a caminho do trabalho.

Selfielhagem – Arte desenvolvida por senhoras através da câmara ou superfície espelhada do telemóvel para dar uns últimos retoques na maquilhagem.

Cavalheirismo de sensor – Aquele momento em que um gajo estica o braço ou uma perna para impedir que o sensor feche as portas quando alguém tenta apanhar o elevador no último instante.

Falso cavalheirismo de sensor – Quando finges aquilo que é dito no ponto anterior, mas na realidade não chegas a fazer nada que impeça as portas de se fecharem.

Vir nu no Metro e conseguir ser invisível

Hoje cheguei ao Metro, coloquei toda a minha roupa num saco de desporto e entrei na carruagem envergando apenas uns ténis. Tal como previa, nada aconteceu, pois a grande maioria das pessoas ia com a cara enfiada no ecrã do telemóvel ou do tablet. Verdade seja dita, duas ou três mulheres iam a ler livros. Bem, pelo título, o que uma delas tinha na mão não era um livro, era mais uma cena estilo Chagas Freitas o que, feitas contas, fica uns furos abaixo do Candy Crush mas que, pelo exercício de reconhecimento de letras e palavras, fica acima de estar a fazer refresh em loop de feeds de redes sociais.

De repente, sinto um frio na espinha e não se trata de corrente de ar. E se toda a gente está apenas constrangida a ignorar-me, usando o que tem à mão para disfarçar? Resolvo vestir-me e evito dobrar-me ao tirar a roupa do saco. Ninguém bate palmas, a minha teoria vai por água abaixo.

Já com roupinha no lombo, saio a ponderar se faço o mesmo no elevador do edifício onde trabalho. A música não era convidativa, fica para outro dia.

O meu filho já tem dois meses e ainda não faz muita coisa

Ainda não lê os Maias.
Ainda não pratica crossfit.
Ainda não decorou o alfabeto cirílico.
Ainda não faz baby zumba.
Ainda não tem recordes de segmentos no Strava (runners joke).
Ainda não sabe identificar os 30 logótipos das equipas da NBA.
Ainda não desenha como Picasso.
Ainda não recita poesia lírica.
Ainda não toca guitarra clássica.
Ainda não viu os maiores êxitos de Akira Kurosawa.
Ainda não arranca gargalhadas no stand up (na verdade, nem no sit down)
Ainda não desdenha da programação infantil dos dias de hoje.
Ainda não põe em causa as regras impositivas dos berçários.

Mas, verdade seja dita, faz bolhas com a boca ao nível dos melhores do mundo.

Guia básico de ‘smilies’ da vida real

Na net, o smilie é o sinal stop da piada ou o calmante após o insulto e a ironia. Mas e no cara a cara, o que pode ocupar o lugar do smilie?

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Assim por alto, gosto de definir os smilies que utilizamos na comunicação digital como inibidores de seriedade. Colocados lá, anulam, disfarçam, aliviam ou pontuam com boa disposição o que quer que seja que tenhamos dito antes. Mesmo que sejam totalmente falsos na sua intenção 😉

Mas, na vida real, para diluir ironias ou reforçar a nossa personalidade satírica, por vezes há que esclarecer/confundir os que nos rodeiam e não temos smilies disponíveis. Vai daí, eis cinco recursos estilísticos possíveis:

A piscadela de olhos intimista ‘isto fica entre nós, apesar de não ficar’

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Traficantes de droga era serrar-lhes os tomates a todos…

Quando, por exemplo depois de fazer uma piada sobre como costumo levantar o puto do berço usando um desentupidor de canos com ventosa, vejo que no grupo uma pessoa está com ar semi-desconfiado de que isso pode ser verdade. O piscar de olhos assegura-lhe a minha (a)normalidade, com o bónus de significar um acto de partilha intimista ‘esta piada fica entre nós, que o resto do grupo não está à tua altura’.

O ‘ahhh-ahhhh’ brincadeirinha

Aplicável em situações de ironia ou piada simplesmente má, às quais se sucedem uns segundos de silêncio desconfortável balsâmico. É a tua vocalização de admissão do nonsense, a declaração de rendição da piada, o eco à Malucos do Riso. A verdade é que, se por um lado há gente que só apanha punchlines a murro, por outro a nossa falta de complexos em relação a piadas secas ou bitaites irónicos faz com que os outros descontraiam em relação às mesmas.

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Não me recordo de alguma vez ter entrado num mau filme…

As ‘pistolinhas’ feitas com os dedos
Nos cowboys da tentativa de humor ou, simplesmente, pela necessidade de ser muito activo a reforçar uma piada é frequente ver malta a sacar das pistolinhas feitas com os dedos, gesticulando várias vezes com um sorriso nos lábios. Também podem ser usadas para clarificar possíveis ironias mas, a não ser que estejamos num momento Batanetes, os utilizadores de fina ironia poderão preferir um gesto mais discreto.

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Taran…Tino de Rans, estás a perceber?

O ‘soco’ fofinho no braço

É quase um pedido de desculpa ou o angariar sentimental de um sorriso condescendente. É do género, isto quase que tinha piada ou acabei de te dizer algo que não percebeste e até era insultuoso mas agora vou reforçar os nossos laços de amizade com este murrinho carinhoso e tudo vai ficar bem.

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As amizades não se cobram…cobram, estás a ver, e tu és uma…

O encolher de ombros à filme a preto e branco

Usado pelo interlocutor que, não tendo medo de fracassar, é no entanto forçado a mostrar que é cómico de uma forma corporal, com exagero e sem palavras. Também é um claro ‘eu não tenho culpa de ser assim’, mas tu tens culpa por estares gordo e o facto de eu te ter chamado cachalote das avenidas também não ajudou muito. Quanto mais ridículo o encolher de ombros mais nos arriscamos a ficar numa de duas categorias – ‘às vezes és meio atrasado’ ou ‘este tipo é meio Jim Carrey, mas sem piada’.

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Eu sou médico, mas às vezes devia ser mais paciente…

 

Atenção, muitas vezes há quem combine algumas das sugestões apresentadas. São os virtuosos dos smilies da vida real 😀