A insustentável imprevisibilidade dos saltos para a água

Amy Cozad and Jessica Parratto of the U.S. dive in the women's synchronised 10 metre platform preliminary at the Aquatics World Championships in Kazan, Russia July 27, 2015.      REUTERS/Stefan Wermuth

Isto é coisa para ser sempre em frente e somar pontos. Nem que seja na cabeça.

Lá em casa o ritual de pequeno almoço por vezes inclui, quando o tempo deixa, um micro zapping em que tento procurar algo mais lúdico do que os deprimentes blocos noticiosos na televisão nacional. Vai daí, eis que surgem os saltos para a água.

Não sendo propriamente uma modalidade de eleição, quando há Mundiais de Natação ou Jogos Olímpicos há momento em que me deixo seduzir pelo facto de haver gente a atirar-se de pranchas altas e a dizer o que vai fazer no caminho. Se fosse eu, também era fácil de dizer o que iria fazer pelo caminho – um misto de reza e choro pela sobrevivência.

Mas no mundo do desporto profissional, seja uma dupla de nadadoras da Malásia com ombros mais largos que eu ou um tipo americano em bicos dos pés, eles sabem o que fazem e eu gosto de apostar nisso. E é aí que entra em campo a frustração.

É que eu vejo a descrição/dificuldade do salto a que se propõem, vejo depois o salto em si e tiro as minhas conclusões – ‘Epá, quase nem fez espuma na água, enrolou bem e deu três mortais e meio sem vergar muito as pernas. Isto foi um bom salto de certeza’.

Vai daí o senhor da televisão, no tom monótono que é obrigatório para comentar modalidades de segundo plano, começa a dizer que foi uma pobreza, um salto cheio de incorrecções, uma falha grave para quem tem aspirações e por aí em diante. A pontuação dá-lhe razão e eu fico a pensar ‘Pronto, eu nem percebo muito disto, pode ser que o próximo acerte’.

E lá vem o nadador mongol, o salto é mais fácil que o anterior, o homem parece-me ir todo torto, entra com as pernas ligeiramente flectidas na água, não é chapa, mas aquilo faz um bom chavascal e eu digo ‘Já foste, isto é salto para eu quase conseguir fazer, da prancha das crianças’. Vem o Zé dos bitaites oficiais e diz que foi impecável, com apenas uma ligeira falha, grande progressão, tem vindo a surpreender, etc e tal – E eu começo a ficar chateado por não acertar uma. Mas aí vem a pontuação que, pelo que vejo, me dá razão. O comentador, sem alterar o volume monótono, fala em desacordo com o júri mas, na prática estamos empatados.

E aqui começo a suspeitar que, não percebendo tecnicamente um boi de saltos para a água, isso não quer dizer que o comentador seja assim tão mais entendido que eu – dado o tempo disponível, vai ter que ser o próximo nadador a desempatar isto.

É um chinês.
Isso não me agrada.

Sabendo eu que os chineses são pros em quase tudo o que seja natação técnica, tenho duas hipóteses – ou vou pelo lado conservador e digo que o homem vai brilhar, sabendo que é isso que o comentador vai fazer de certeza ou, pelo ar inflexivelmente impávido que os atletas chineses têm, como se lhes tivessem tirado a emotividade com um aspirador, tento encontrar um sinal que aquele salto de dificuldade XPTO o vai pôr a caminho da prisão de Azkaban lá do sítio.

Arrisco no falhanço.
Levanto-me da mesa e desligo a televisão no momento do impacto na água.

Não suporto estar a condenar um chinês ao falhanço, mas custa-me a possibilidade de ouvir um comentador a esbanjar superioridade pelo meio da sua monotonia. Tenho o verão inteiro para novas batalhas em modalidades obscuras.

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