O erro de confundir mulheres com legumes

Há pessoas que nascem com o dom da palavra mas, para balancear o universo, há também os que nascem com o anti-dom da palavra. São aquelas pessoas que todos conhecemos com uma determinada falta de habilidade ou de sensibilidade que faz com escolham sempre as palavras erradas nos momentos mais inoportunos. A coisa piora se forem homens e os tais momentos inoportunos incluam quase sempre a presença de mulheres.

Veja-se o exemplo: Andava eu com o meu amigo R a passear numa qualquer noite de Verão junto de uma zona de esplanadas à beira mar quando calhámos a ver que um pouco mais à frente estava o nosso amigo Zé (é sempre bom conhecer um Zé, nem que seja metafórico). Embora não seja má pessoa, o Zé tem o problema de não discernir entre ambientes sociais, isto é, faltam-lhe filtros, sendo por isso uma boa opção avaliar bem até que ponto é boa ideia ‘ir ter com o Zé’.

Analisámos a situação – Zé encontrava-se em amena cavaqueira com duas mulheres que não conhecíamos – as mulheres, bem parecidas, não denotavam uma atitude hostil nem pareciam aguardar a chegada da Polícia para afastar Zé. Ainda assim, tipos cautelosos, resolvemos passar ao largo acenando apenas de longe e deixando para a volta de retorno alguma interacção mais próxima. Zé, nas suas sete quintas, acenou-nos de volta, com ar confiante.

Entretanto, entre o ir e o vir, chamada no telemóvel e um programa a seguir – o Zé afinal não ia fazer parte dos nossos planos. Só que, ainda rodeado de companhia feminina, Zé percebeu que os seus amigos não iam podem apreciar o seu bom gosto e finesse e, quando na volta lhe acenámos novamente e fizemos o gesto de que íamos andando, Zé percebeu que era agora ou nunca.

Com um gesto pediu um ‘desconto de tempo’ às suas amigas (e sobre o erro que muita gente que pede um desconto de tempo comete, fazendo o gesto de falta técnica, falaremos mais tarde), levantou-se e tentou chamar-nos naquele tom que parece meio sussurrado, mas é bem audível por toda a gente nas redondezas:

‘Sérgio, R já vão? Aguentem aí cinco minutos, que eu quero-vos apresentar o grelo’. Não tento ele qualquer prato de verduras por perto, nem estando nós numa qualquer exposição agrícola, o facto era óbvio – Zé acabava de definir a sua companhia feminina como ‘grelo’, óptima denominação num bar de estivadores, muito má na presente situação.

As consequências desenrolaram-se num ápice – nós tentámos suster o riso enquanto pudemos, Zé tentou desfazer o erro que não tinha emenda e as suas duas amigas foram bastante expressivas ao levantarem-se a caminho da saída.

‘Grelo, só disse grelo’ desabafava Zé minutos mais tarde, desconsolado. ‘Não Zé, disseste muito mais que isso e o problema é que não foi sobre elas, foi sobre ti’.

Mas o Zé não ia perceber e, mesmo que percebesse, o seu anti-dom iria arranjar maneira de voltar ao de cima quando menos se esperasse. Ou seja, sempre.

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3 pensamentos sobre “O erro de confundir mulheres com legumes

  1. “Com um gesto pediu um ‘desconto de tempo’ às suas amigas (e sobre o erro que muita gente que pede um desconto de tempo comete, fazendo o gesto de falta técnica, falaremos mais tarde)”

    Por acaso a confusão do gesto “de desconto de tempo” com o gesto “de falta técnica” é um tema que me apaixona há muito, muito tempo! Fico à espera desse texto!

    Ontem, já depois de ter lido este texto, enquanto esperava por umas farturas, O “farturas-man” (será este o termo correcto?) fez-me o típico sinal de gesto técnico, para me dizer que só faltava um minuto. Fiquei mesmo com vontade de lhe explicar, mas ao mesmo tempo com receio que ele estivesse a marcar-me falta técnica e não me desse mais nenhuma fartura. De certeza que existe por aí uma nazi da farturas tal como existe um “soup nazi” e eu poderia ficar sem as farturas. Pelo sim, pelo não fiz-lhe a “piscadela de olhos intimista ‘isto fica entre nós, apesar de não ficar’” e trouxe as farturas para casa!

    Que anormalidade esteja sempre contigo! (Ela está no meio do nós)!

    • A confusão dos ‘descontos de tempo’ faz mais impressão a quem já jogou basket, pelo menos é a minha ideia.

      Isto porque nos EUA, o gesto é mesmo esse. um ‘T’ feito com os dedos de ambas as mãos, na perpendicular. Mas, por cá, isso é uma falta técnica no basket, sendo que o desconto é apenas o ‘T’ feito com um dedo indicador a apontar para a palma de uma mão.

      Enfim, pormenores com fartura 🙂

Tens a certeza disso que dizes?

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