A maldição dos workshpos de sushi

Gosto de comer sushi, por muito que isso já seja um disco batido e, se calhar, já é a culinária libanesa que está a dar e eu com delay.

Prefiro a qualidade, mas por vezes cedo à simplicidade alarve do buffet de imitação. Sou curioso, já fiquei em mesas em que assistimos à preparação da refeição à nossa frente, já vi vídeos magníficos de sushimasters com conselhos e dicas de valor. Contudo, até agora tenho resistido a convites para workshops da especialidade.

É que eu já vi como é que boa parte destas coisas acontece – metes-te num workshop de sushi, é tudo muito bonito (ou desajeitadamente encantador, mediante as tuas intenções e habilidade) e tem muitas vezes a dinâmica de comes-o-que-preparas, para bem ou para mal dos teus pecados. Obviamente, na era em que vivemos, já há um vasto repertório algures de comunicações e imagens em redes sociais que espalharam a notícia – este gajo é praticamente o novo Mr. Myagi do sushi.

A partir daí já estás entalado, começa a pressão – ‘Então, quando é que nos preparas uma sushizada lá em tua casa?’, ‘Como é campeão, pões os teus dotes ao serviço dos teus amigos ou não?’. É óbvio que te apetece dizer logo ‘ou não’ e guardar esse talento para ocasiões íntimas e especiais, mas também tens o piquinho do brilharete a cintilar dentro de ti.

Lá marcas uma data e começa a tua jornada, porque como bem sabes uma ‘sushizada’ em que tens o papel de sushiman não é só comprar um pacote de arroz e três postas de salmão. São tapetes para enrolar arroz, o próprio do arroz, os cuidados com o mesmo, o cuidar do peixe, a distribuição das algas e a tentação de usar as facas no próprio pulso.
Lá fazes o 13º trabalho de Hércules, suas do bigode para colocar sushi que não envergonhe no prato e os teus amigos fazem a festa – se os teus níveis de confiança não estão no auge, vais duvidar invariavelmente ‘Será que ficou realmente bom?’.

E, enquanto começas a arrumar a loiça, o último conviva retardatário dá-te uma palmada no ombro, com um bafo a sake que tresanda, e pergunta-te ‘Quando é o próximo, Mr. Myagi?’. E tu pensas algo que envolve pauzinhos e wasabe colocados em sítios remotos desse artista.
Mas lá respondes ‘Tens que fazer um workshop, vais ver que o próximo é na tua casa’ e suspiras, tentando que a maldição passe para outro com o sopro dos teus lábios.
E lá tiras a fita da cabeça, que te pareceu uma ideia tão boa há várias horas atrás.

Há drama nas novelas portuguesas (apenas não está onde é suposto)

Nunca fui fã de novelas apesar de em criança ter sido exposto a umas boas doses. Ok, não havia TV por cabo, nem sequer vivia numa localidade fronteiriça onde os programas espanhóis, igualmente maus, tinham a aura de ser uma coisa do estrangeiro, merecedora da nossa atenção.

Lembro-me de coisas tipo Vereda Tropical, Guerra dos Sexos, Sassaricando, Roque Santeiro, Araponga, uma com vampiros (Vamp?) e o nome de mais umas quantas se mos soprarem aos ouvidos. Também me lembro de uma certa aura de rebarba à volta do Pantanal mas, por essa altura, o meu foco já era em miúdas a sério e não actrizes brasileiras de bom porte. Do que ainda retenho, apesar de termos sempre variações dos mesmos enredos centrais, é que aquilo tinha ritmo, era descontraído e as pessoas falavam como gente normal (apesar do meu comparativo com a sociedade brasileira so existir mesmo na TV).

Por oposição, as primeiras novelas portuguesas como Vila Faia, Chuva na Areia e por aí em diante eram muito carregadas em teatralidade, muito actor com background clássico de teatro. Do que me recordo (apesar do choque da infâmia que se abateu sobre ‘Caniço’, era tudo muito lento, muito pausado, com a contenção e timing de teatro – traço geral, faziam-me lembrar umas tias-avós chatas, bem intencionadas, cultas e bem formadas mas, ainda assim, chatas.

Depois, conforme crescia, veio uma ou outra produção nacional um pouco mais descontraída (ainda assim, as séries sempre foram melhores que as novelas) – a produção era sempre feita com pouco dinheiro, mas o acting já se aproximava da realidade, um cruzamento mais próximo com conversas e diálogos de pessoas normais – era possivelmente o fruto de mais espaço televisivo para produção nacional e a rotina de mais actores que iam chegando.

Em adulto, traço geral só me cruzo com novelas em zapping ou por motivos profissionais. Dizem-me que a produção melhorou muito, que a escrita para televisão é mais fluída (apesar dos enredos centrais de ‘amores impossíveis’, ‘estranho numa terra estranha’, ‘famílias que se odeiam’ ou ‘um regresso que traz uma vingança’ estarem quase sempre presentes). Dizem-me ainda que há mais gerações de actores em contacto, com muita fornada a vir das séries juvenis estilo Morangos com Açúcar. Apesar deste último facto me parecer preocupante (malta jovem com bom aspecto não dá instantaneamente perfil de bom actor, mesmo que fique bem de bikini ou com uma barba rústico-moderna), como não consumo, dou o benefício da dúvida.

No entanto, calhei recentemente a ver uns bons minutos do produto de prime time tanto da TVI como da SIC e a coisa não me pareceu propriamente animadora, até porque depois vi mais uns bons bocados para alargar a amostra.

Gente vestida sempre de forma demasiado formal ou como se houvesse um cocktail ao virar da esquina, incoerência na acção (se eu quero atingir um tipo e o enredo pretende deixar-me na dúvida se ele morreu ou não, um tiro no meio da testa é sempre menos credível do que um no peito, digo eu), exagero dramático pouco realista em muitas situações, a obsessão com as cenas de classes com a empregada de uniforme ou a governanta continuam, o product placement feito à pazada e, o meu ódio fatal – o uso de calão em sistema de preenchimento de quotas.

Já desde o ‘Riscos’, esse ícone juvenil ao nível de ficção lusitana, que me faz impressão o uso de linguagem informal e/ou calão de forma mais artificial que a cor das delícias do mar. Os dreads têm de ser mil vezes mais dreads do que na realidade. Os insultos têm que ter um selo de aprovação e as formas de expressão são mais moldadas a martelo do que gelatina na cantina da escola. Basta olhar para a realidade para ver que as pessoas não falam assim…a não ser que sejam actores de novela e estejam a fazer assaltos dramáticos.

Não nego que se possa ter evoluído muito mas, com tanto benchmark disponível, ainda continuamos tenrinhos e previsíveis na maior parte dos casos. Resta aguardar cenas dos próximos capítulos

Estamos vivos

Ocorreu-me que isto podia ser o título de um filme sobre um grupo que se despenha de avião numas montanhas e, para sobreviver, superam todos os seus limites, incluindo fazer algumas febras de amigos em pior estado após a queda.

Mas, como isso já existe, cumpre o presente para dizer que depois de duas semanas de altos truques ninja, nomeadamente trabalho que nem um cão pastor, alguma corrida (pouca) e a elaboração de um quiz para aí com 200 perguntas (sim, o meu lado geek rula muito), que me permitiu inclusive saber com mais propriedade o que é um vicunha, eis que chegou esse período mítico:

L-I-C-E-N-Ç-A P-A-R-E-N-T-A-L

Em cerca de um mês proponho-me a um ror de actividades que fariam Hércules corar de inveja. No entanto, até agora a lista ainda é pequena:

– Mini cidadão já é possuidor de conta bancária. Pode ter dado trabalho e ter levado a preencher mais papelada do que se tivesse a transferi-lo para a instituição bancária, mas já está – Aplicando a lógica mercantilista, está na altura desta pequena criança começar a construir o seu império financeiro e transformar sorrisos e gracinhas em contributos de familiares e amigos – a minha reforma tem de ser garantida de alguma forma.

– A experiência de ir a uma feira estilo mercado típico ao ar livre não foi trágica. Pelo meio de muito idoso a querer esticar a gânfia para o carrinho, foi divertido. Mini cidadão, aos três meses, rejeitou bolo do caco com manteiga de alho. Pode ter sido premeditado da minha parte, mas fui obrigado a comer dois e empurrá-los com poncha.

– Devo ter tido a melhor estreia sui generis de sempre na Hora do Esquilo (onde gente mítica se reúne lá para as seis da manhã e desata a correr por Monsanto fora) – a generosidade da minha anfitriã e dadora de boleia foi tal, que incluiu passeio turístico e, por via de um ligeiro atraso, direito a volta completa num percurso mais ‘simpático’ do que estava planeado para esse dia (ou madrugada, digamos), tudo cortesia de quem não teve medo de um mânfio a pedir boleia numa esquina escura. Foi giro, correr de noite no meio da mata e usar um frontal pela primeira vez nessas condições tem o seu quê de adaptação, mas é uma nova perspectiva. Se aqui há algum tempo me tivessem proposto isto teria sérias dúvidas, mas agora parece-me uma boa forma de rentabilizar horários. Até porque, apesar do jovem artista lá de casa ser tranquilo durante as noites, despertador é coisa que não faz falta vai para aí mais de três meses.

Planos pré crise de meia idade

Dei por mim a pensar que já estou mais perto dos 40 do que dos 30, isto factualmente falando. Mentalmente devo estar com um ligeiro delay.

Mas a questão não é essa, a questão é saber aquilo que me interessava fazer antes que me comecem a apontar o dedo e me digam que é ‘mazé’ tudo crise de meia idade.

– Experimentar fazer stand up

Apesar de várias ligações ao humor, não estou a pensar fazer carreira em palco com piadas farçolas e histórias de pseudo-comediante. Mas a verdade é que vive um pequeno palhacito dentro de mim (não és tu filho) e nas minhas várias vertentes humoríticas fica sempre a curiosidade – se já escreveste para cenas de humor, porque não ir a palco e experimentar a sensação?
É certo que seria algo em ponto pequeno, provavelmente enganando alguns amigos e afins que não se sintam já demasiado enganados e fazer por isso. O pior que podia acontecer? As pessoas acharem piada ao facto de eu não ter piada nenhuma.

– Escrever ficção ‘à séria’

Basicamente isto não é novidade nenhuma, nem a busca do sucesso editorial por si. É só conjugar a disciplina que me tem faltado para organizar algumas das coisas que por aqui andam armazenadas em fase de desenvolvimento em câmara lenta. Dar-lhe forma, olhar para o resultado final e depois, quem sabe, dizer – ‘Epá, tenho muito para dar à agricultura biológica nas traseiras da minha casa’.

– Fazer uma ultra na mata, mas só de dose semi-épica

No próximo ano o basket vai ser algo utópico, fazendo com que seja talvez o primeiro ano desde os meus 12 anos em que não jogo semi-competitivamente. Por isso, privilegiando a animação lá em casa, é provável que o meu corpo se aguente a bombocas ligeiramente maiores se conseguir correr regularmente. Não me parece que psicologicamente esteja determinado a valores épicos, mas provavelmente algo por volta dos 50/60k seja possível a médio prazo. No limite, 43k já é ultra 🙂

– Uma viagem de ‘nível’ extenso

Em virtude do mini cidadão será porventura o menos realizável para já. Mas há um ou outro continente mais distante que clamam pela nossa presença e há povos que não podem continuar a subsistir sem o nosso sorriso gracioso. E não se trata de manigância de gajo a falar de si no plural majestático, é mesmo coisa para fazer a dois ou a três. Vejamos o que o futuro dirá.

Nota: Olha que bonito e profético, este é o post 200 nesta chafarica.

S.João das Lampas – uma simples corrida no calendário

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Este é um cenário que provavelmente se vai repetir algumas vezes no sábado – Meia Maratona de São João das Lampas, sobe e desce ali para os lados da Terrugem e a cada subida eu a ver o resto da malta ir-se embora.

Não vai ser dramático, faz parte do programa de diversão que estipulei até final deste ano – corrida sem obrigações e treino adaptado à disponibilidade parental. Curiosamente, em Agosto até deu para ir correndo com bastante regularidade, mas este mês com o trabalho a esticar e 1 mês de licença a aproximar-se não tem sido fácil. Mas eu sempre disse que ia a S.João divertir-me e, mesmo não estando em pico de forma, 21k não serão complicados desde que não vá para lá com ideia de bater recordes.

Contudo, ao nível de provas de estrada, gosto deste estilo de percursos castiços, com algum sobe e desce e com muita passagem por terrinhas, gente a incentivar em cada porta e mangueiradas para refrescar os corredores, a par de duches improvisados à porta de vivendas. E depois, claro está, uma feira com bifanas, farturas e matrecos para encerrar as festas ao nível do atleta que (não) sou.

A seguir logo se vê. Prevejo um mês com mais tempo para tudo, nas doses certas – correr também, mas sem previsão de provas, se surgir alguma coisa que se enquadre logo se vê. Um pulinho aos Esquilos que já é devido, uma volta maior em Sintra, uns loops em cidade com amigos, um regresso ali à zona saloia para montanha russa a dar ao pernil. Ao contrário da desmotivação que por vezes surge quando se corre sem objectivos, creio que o objectivo de não ter objectivos até final do ano também me está a saber bem para me divertir por aí a correr.  E se tiver que suar do bigode pelo caminho, melhor.

O pão com o molho das sardinhas

Pode ser do facto de ter um mês de licença quase à porta.
Pode até ser do pequeníssimo jarro de branco à pressão que também marchou ao almoço.
Mas, por muito boas que as sardinhas possam ser quando nada o fazia prever, nada se compara ao pão que ficou por baixo das mesmas e que no final é basicamente o ponto alto da refeição.
E isto não é filosofia barata, é coisa científica. Ide e procurai metaforicamente o pão embebido em sucos que as vossas sardinhas só vos podem prometer que será divinal enquanto se vão entretendo a devorá-las.

Como encomendar um bolo erótico

Sou um tipo que gosta de pastelarias tradicionais, embora não seja dogmático ao ponto de negar pastelarias modernas, é apenas uma coisa de preferência. Mas, em vez de divagar, falemos da necessidade de evolução das mesmas e do gigantismo em forma de bolo enquanto resposta a esse tipo de necessidade.

Excelente para surpreender crianças, óptimo para fazer sorrir glutões, o gigantismo consiste em pegarmos num bolo de tamanho normal e transformá-lo no Godzilla dos bolos. Um exemplo comum são os queques, mas a coisa não se fica por aqui.
Numa pastelaria que costumo visitar de quando em vez, pela sua proximidade ao meu local de trabalho e pela qualidade do que por lá se vende, de algum tempo para cá têm vindo a surgir deliciosos gigantismos, que vão do pão de Deus ao jesuíta, passando pelo palmier recheado, trança ou o tradicional queque.

Aquilo é magnífico para levar para casa ou para surpreender o empregado dizendo ‘Não embrulhe, é para comer agora’ e depois ver a cara dele. Contudo da última vez que lá fui rebocar um palmier recheado, quem se surpreendeu fui eu ao ler o que dizia o papel de embrulho.

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Primeiro li ‘exótico’, mas depois compreendi a mensagem. É uma nova área de negócio.

Tudo bem, não há nada de errado nisso, mas há uma coisa que me faz alguma confusão. É que se trata de uma pastelaria muito convencional, com empregados de colete e uma senhora mais velha a fazer as nossas contas numa mesa de caixa.

E portanto, o título do post, mais do que uma descrição é uma dúvida – como é que se chega ali e se encomenda um bolo erótico. Devo dirigir-me à senhora e perguntar-lhe, ‘Olhe quero um bolo em forma de mamas’ ou ‘Tenho uma amiga que se vai casa, ao nível de pilas com massa folhada o que é que se arranja de pseudo-divertido e comestível?’.

Fazer o princípio da encomenda é só a ponta do iceberg. Imagino-me sentado a uma mesa a discutir detalhes com um empregado com anos de casa. ‘Então é assim, este bolo não é para mim, mas acha que bico de mama feito de chocolate de leite não é um cliché? É que tenho uma prima que encomendou cá o bolo dela e disse-me que vocês eram perfeccionistas, não só acrescentaram um par de tomates, como os mesmos vinham decorados com fios de caramelo, como se…como se…bem como se de pêlos púbicos comestíveis se tratassem’.

Tudo bem que isto é um convite ao chavascal e na volta o conceito de bolo erótico não se esgota em formas fálicas e mamas açucaradas, mas a questão fica lá perto – haverá catálogo? Ingredientes surpresa? A possibilidade de negociar uma gaja a saltar de dentro do mesmo?

Confesso que sempre desdenhei deste tipo de acepipes, mas a curiosidade do processo é toda uma tentação.