Não há registo

Quando se tem um filho creio que se assina um contrato invisível em que, a partir daí, as perguntas serão sempre mais que as respostas. Nesse aspecto, creio que já tinha o mindset sintonizado, apesar de ao início a coisa ser sempre complicada.

Tanto é que a determinada altura,  nos primeiros dias com o mini cidadão lá em casa, os dois adultos presentes usaram a sanidade mental restante para chegar a um acordo – Qualquer pergunta que fizéssemos um ao outro não podia ser respondida com ‘Não sei’ (ou uma das variáveis maravilha ao estilo ‘como é que queres que eu saiba’ ou ‘não faço a mínima ideia’). Isso obviamente não abrangia perguntas realmente fracturantes como ‘Qual é o teu filme favorito?’ ou ‘Se pudesses escolher três sabores de gelado para um abastecimento infinito, quais seriam?’.

Não sendo um sistema perfeito, especialmente quando temos uma criança recém-nascida por perto, pelo menos ajudou a controlar as respostas automáticas disparadas a martelo e obrigou-nos a pensar um bocadinho não só nas questões em si e no estado de espírito de maratonista que é preciso para evitar desgaste rápido, como também a criar formas de raciocínio diferentes. Nada com garantia de sucesso, mas tudo em prol de algo melhor lá mais à frente.

Obviamente, se sairmos deste patamar familiar-parental, só quero dizer uma coisa a nível de registos – abomino o registo de quem saca do telemóvel ao fim de 30 segundos de uma qualquer discussão para ir buscar o veredicto ao Sr. Juiz Google.

Sou fã das novas tecnologias, mas também sou fã da argumentação em abstracto e de puxar pela cabeça. Claro que, se for picado por uma vespa asiática, para além de procurar o auxílio clínico mais próximo também posso usar o Google para ver que medidas posso tomar, enquanto tiro uma selfie, meto os filtros certos e partilho a coisa nas redes sociais com as hashtags do momento. Mas, a bem de uma boa troca de argumentos sobre algo em que a razão factual é incerta, o primeiro a sacar do smartphone, mesmo que ganhe, já perdeu.

(e nem me façam falar do mundo da Internet em relação a questões sobre crianças/bebés. Isso, só por si, é um compêndio sobre os labirintos dos excessos de opiniões e os perigos do fácil acesso à informação, pelo meio de ajudas valiosas e conhecimento importante)

 

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4 pensamentos sobre “Não há registo

  1. Hmm, estou curioso, porque não consigo perceber bem se é aquele ludismo ocasional que às vezes aqui aparece ou outra coisa. 😉 Que tipo de dúvidas abstractas são essas? E se alguém tirar um livro da estante, também perde? Não costumo sacar de telemóveis a meio de conversas, mas frequentemente digo “tenho de investigar” (e consequentemente não chego a nenhuma conclusão).

    • Epá André, já ia para perto de 20 linhas de resposta divertida e até interessante quando se deu a porra de um shutdown eléctrico aqui no cafofo e lá se foi a resposta.

      Estou desolado :S

      Referias-te às discussões em abstracto no geral, certo? (estou a tentar ganhar tempo e coragem para começar de novo) 🙂

      • ahahaha, sim, que tipo de discussão / dúvidas é que contam para uma “não vale ver no google; na vossa perspectiva claro. Se calhar também estou a querer lembrar-me de dilemas dessa fase, a pessoa esquece rápido. 🙂

      • Eu diria que são aquele tipo de coisas que tu sabes que não vais conseguir uma resposta definida, mas se procurares na net de certeza que encontras n respostas/teorias para esse mesmo assunto.

        Coisas do género ‘Porque é que ele agora está a fazer aquele barulho quando está a adormecer à noite?’ / ‘Aquela expressão que ele faz, acho que aquilo quer dizer alguma coisa, não achas?’ / ‘Acho que ele não gosta quando o vestimos a seguir ao banho, haverá alguma forma de lhe darmos a volta?’

        ‘Não sei’ parece uma resposta óbvia e lúcida, mas por vezes há a tentação de ver se há alguma resposta válida algures (neste tipo de coisas acredito piamente que não, já encontrámos noutros aspectos em net/livros coisas muito válidas) – Mas ainda sim, mesmo negando o ‘Não sei’ em favor de algo mais construtivo ir à net em coisas tão abstractas não augura nada de bom 🙂

        Talvez isto não seja bem compreensível, mas quem disse que esta experiência era pautada por lógica abundante? 😉

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