A descrença na humanidade movida a likes

Já vi várias imagens do corpo da criança curda que deu à costa. Já li sobre o background da família, do sonho de chegarem ao Canadá. Já desfilei em scroll por dezenas de posts no Facebook, uns mais negros, outros mais ácidos, outros simplesmente espelho da tristeza da realidade que inunda o mundo dos dias de hoje.

Não consigo pôr likes, não consigo sequer comentar pois o nó na garganta ata-se nos dedos. A intenção sempre presente nas redes sociais da viralidade, da partilha, da indignação distante é uma faca de dois gumes – a informação e a consciencialização sobre factos é muito mais rápida e abrangente, mas há muitas vezes uma noção inconsciente semelhante à dos noticiários nacionais.

‘O choque da tragédia com crianças agora, a seguir o futebol, mais tarde as estreias da semana’.

Não sei o que dizer, não sou melhor que os outros, mas há sensações que me custam mais a apagar. A sensação de que é desumano o que está a acontecer em praias, portos e campos de refugiados a centenas e milhares de kms daqui, assim como é desumano o que acontece a 200 metros de nossa casa e simplesmente não sabemos ou não olhamos para lá.
Mas também não sei se creio na humanidade movida a likes. É melhor que nada? É igual a nada? Vai mudar o mundo? Ou apenas muda a forma como nos comportamos perante os outros, nem que seja de forma aparente?

O papel de divulgador/propagador da mensagem, seja ela menos ou mais chocante, é suficiente? Haverá estudos que um dia possam traduzir o impacto de mensagens na acção relativamente a esses mesmos assuntos? Será que as causas mediáticas globais merecem mais a atenção do que aquilo que se passa ao nosso lado, que pode ser banalizado face à avalanche da miséria humana.

Quando é que a nossa consciência dará à costa algures? Ainda terá tempo de ser salva? Será que precisa disso?

Não sei.
Continuarei a tentar nadar por entre as dúvidas.

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3 pensamentos sobre “A descrença na humanidade movida a likes

  1. Não consigo ver nada de errado em sentires um nó na garganta por teres lido uma notícia trágica no Facebook (que é um canal / plataforma tão criticável e útil como a CNN, p.e.x). Como no facto de haver pessoas que se sentem compelidas a escrever sobre isso, que comentam, ou partilham imagens (desde que não digam ou escrevam coisas estúpidas, claro).

    Não percebo bem porque recentemente temos andado tanto a hierarquizar tragédias ou apontar o dedo a pessoas que se procupam; ou porque se deviam preocupar mais, ou porque se deviam preocupar menos, ou porque se deviam preocupar de forma diferente, ou porque se deviam preocupar com outras coisas, ou porque não se deviam preocupar no Facebook (mas no Twitter e nos blogs pode ser?). Já no caso do Leão li algumas coisas desse género.

    Há pessoas a partilhar notícias da tragédia dos refugiados num site que também serve para fazer likes em vídeos de gatos, ok. Há pessoas que compraram o público e depois, uns centimetros ao lado, leram muito curiosos as manchetes da Nova Gente. Eu mesmo, dez minutos depois de depois de ler uma reportagem sobre a criança curda, vi um sketch do Key & Peele e ri-me. O que quer isto dizer?

    Que qualquer pessoa que se diz preocupada ou chocada deve apanhar uma avião para a Síria (não sem antes assegurar-se que não há problemas no seu próprio país), ou então é um hipócrita? Que só devemos notícias deste género em meios de comunicação dedicados exclusivamente a notícias internacionais não sensacionalistas?

    É preciso fotografar-se uma criança de 3 anos morta na praia para nos começarmos a preocupar? Às vezes, e para algumas pessoas, sim. O que é tão absurdo nisto? Estudámos comunicação, sabemos que as coisas têm impactos diferentes conforme as nossa proximidade geográfica, cultural, social, o que seja. É normal, é humano. Aliás, é essencial para o nosso bom funcionamento, porque caso contrário entraríamos numa loucura de “ou te preocupas com tudo de igual forma e intensidade”, ou “não te preocupes com nada, porque não vale a pena”.

    Se as pessoas se preocupam, mesmo que seja à maneira delas, menos mal, o que é bom sinal é que ainda nos preocupamos. Se as pessoas são influenciáveis na forma como se preocupam… bom isto não é grande novidade, é normal, e sempre me faz menos impressão do que andarmos a bombardear as pessoas todos os dias com mensagens do género “compra este carro para sentires que és uma pessoa completa”. Acho que a nossa humanidade está nessas contradições, o que é importante é que – parece – que ainda sentimos alguma coisa.

    ps – já há muitos estudos sobre os impactos das mensagens e suas relações com canais, acções, activismos; há casos práticos interessantes como certos focos da Primavera Árabe, já no campo teórico algumas teorias são pouco conclusivas, mas sabemos que não existem balas mágicas. 😉

    • Acho que, como dizes, nada é errado enquanto acreditarmos/sentirmos que determinada a coisa nos impacta e nos leva a querer partilhar, etc. E eu não me excluo dos comportamentos, também me indignei com o leão e com mais 50 coisas e devo ter feito posts e afins sobre isso.

      A minha questão não tem sequer a ver com a procura dos canais certos para fazer seguir certas mensagens. Ou se o conteúdo de mensagens de choque como o caso da criança é preferível pela realidade crua a mensagens trabalhadas, metaforizadas e afiadas para se apontarem ao coração.

      Vi ainda há pouco um post no Facebook de um rapaz que conheço a dizer que já tinha visto posts suficientes sobre a questão do corpo da criança na praia e, desconfiando ele de muita coisa na Internet, mas querendo à mesma ajudar se lhe podiam dar algumas sugestões de sítios para onde pudesse contribuir financeiramente ou, sendo viável, de outra forma. E as sugestões começaram a surgir.
      Mas este post é uma minoria, usando o conceito social de identificação do problema e procura da solução, independentemente da plataforma em que é feito.

      A grande vaga geral, contribui de facto para a disseminação da informação, para o alerta para determinado aspecto e, por inerência, para a constatação da sensibilidade de cada um perante o que se passa no mundo/na sua rua/na sua cabeça (de uma forma social, pois eu posso preocupar-me imenso com algo e não o demonstrar dessa forma).
      O ‘interessante’, no meu ponto de vista, que obviamente é falível é – até que ponto isso tem continuidade? Ou se, é importante que tenha continuidade? Será que é suficiente fazer RIPs, assinalar injustiças, testemunhar atrocidades só porque agora o podemos fazer comodamente em versão activista de sofá – será que isso é uma perspectiva de que estamos a mudar no sentido em que nos preocupamos e deixamos tocar por mais coisas, mas gravitamos muito mais de assunto para assunto?

      Os estudos que existem não abordam isso, pelo menos de forma extensiva, tendem a focar-se mais (e tu podes desmentir-me se tiveres info que eu não tenho) no efeito de movimentos de massas perante grandes questões e não tanto sobre posicionamento individual social em função dos estímulos a que és exposto em plataformas do género.
      Até porque acho difícil termos estudos muito focalizados em matérias subjectivas como esta. Se tu perguntares se a tua consciência fica tranquila com um like ou com um share (deixo o humor de fora, rir com tragédias a meu ver sempre foi uma forma de lidarmos com as mesmas mantendo a sanidade mental) ou sentes necessidade de fazer algo mais a resposta vai ser sempre ‘sim, quero fazer mais’ ou perto disso.
      Psicologicamente, o efeito de arrastamento é sempre multiplicado pelo número de gente que propaga uma determinada mensagem (assim como o facto de muitos consensos gerarem sempre uma % de detractores dos mesmos, os chamados gajos do ‘contra’).

      Acho que, no sentido positivo, a capacidade das pessoas criarem plataformas, acções, dinâmicas vai sendo maior, pela facilidade de acesso aos meios e acesso a uma propagação/divulgação rápida e de baixo custo via recomendação. Isso significa que somos cada vez menos dependentes de estruturas externas e lentas para responder a determinadas questões/ reagir ao que se passa no mundo.

      No sentido menos positivo em que tanta exposição a causa, problema, drama e horror ganhará contornos de checklist a que se vai acedendo, sentindo pena e caminhando para o assunto seguinte – trocando-se a mais valia das redes sociais, ficando pelo óbvio que é a disseminação da problemática e pouco mais. Isto é, não é a solução o mais importante (à mais ínfima escala do problema que seja), basta fazer ver que se conhece o problema e se sente empatia com o mesmo.

      O balanço final será positivo ou nem por isso? A consciência de amanhã será mais atenta ou nem por isso?
      São tudo questões meio metafísicas e se calhar estou a racionalizar demasiado sobre assuntos que as pessoas abordam com o coração. Afinal de contas, o meu puto ainda nem três meses tem e já quer ter conta no Facebook para protestar contra a regulamentação do seu tempo de mama… 😉

      • Acho que as questões até são bem práticas, e já há bastantes estudos relacionados com isso, que medem a forma como mensagens e acções impactam valores e causas / efeitos, etc, (sorry, não tenho muito tempo agora para ir ao Scholar, mas, em áreas próximas das nossas, mesmo os livros do Ariely, do Kahneman, ou do Chip e do Dan Heath, fazem muitas referência a estudos sobre acção / valores / comunicação). Concordo contigo que seria interssante ver estudos específicos sobre Facebook, mas não creio que seja assim tão diferente, no panorama geral destes fenómenos (o Facebook não ‘criou’ nada de novo na natureza humana, mas explora-a bem). Também acho que não se pode sempre dissociar a “acção em massa” de valores subjectivos, nalguns casos.

        Também acho que estás a subestimar o simples impacto que as coisas têm pelo simples facto de serem noticiadas. Ou seja, o facto de haver 10 mil pessoas que dizem “estou indignado com isto”, pode despoletar (e às vezes assim é) que alguém com responsabilidades faça algo (seja por eleitoralismo, populismo, ou mesmo interesse) – portanto nesse sentido a simples “indignação” produziu efeito.

        De resto acho que acabaste por responder às tuas angústias. 🙂 Não querendo ser excessivamente pessimista, ou optimista, acho que se em 100 mil pessoas houver dez que ficam genuinamente interessadas e movidas a agir, enquanto 99.990 passam para a causa seguinte, o resultado pode ser considerado positivo. Porque na realidade não podemos mesmo ir a todas. Também concordo que o valor de um like é muito pequeno (a maior parte das pessoas não parece discordar), mas também é verdade que muitas vezes fará alguma diferença – i.e. 10 mil likes podem ajuda a mensagem a chegar a 100 pessoas que se querem mesmo comprometer.

        Claro que a banalização da violência, do like, etc, são questões incómodas (e nada novas nem tecnológicas); mas o que acho bizarro é virem pessoas dizer-nos que o que nos devemos preocupar (há assuntos mais importantes! há assuntos mais próximos na nossa rua!), etc.

        Indo agora para o dark side, assusta-me mais a possibilidade de manipulação da consciência do que um putativo desaparecer dessa consciência. Já há quase um século que sabemos como manipular emoções, valores, pensamentos (daí eu dizer que há alguns estudos), e a publicidade é um óptimo exemplo disso (mulheres e tabaco, sexo e carros, etc etc). Vê o caso do Kony, que levou muitos portugueses a achar que fazia mais sentido gastar dinheiro pela causa de um americano lunático do que doar ao Banco Alimentar.O que me assusta aqui não é eles preferirem enviar dinheiro para África, é que eles foram claramente manipulados a fazê-lo por alguém que domina os meios de forma mais eficaz. Enfim, dava para ficarmos aqui a tarde inteira. 🙂

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