Há drama nas novelas portuguesas (apenas não está onde é suposto)

Nunca fui fã de novelas apesar de em criança ter sido exposto a umas boas doses. Ok, não havia TV por cabo, nem sequer vivia numa localidade fronteiriça onde os programas espanhóis, igualmente maus, tinham a aura de ser uma coisa do estrangeiro, merecedora da nossa atenção.

Lembro-me de coisas tipo Vereda Tropical, Guerra dos Sexos, Sassaricando, Roque Santeiro, Araponga, uma com vampiros (Vamp?) e o nome de mais umas quantas se mos soprarem aos ouvidos. Também me lembro de uma certa aura de rebarba à volta do Pantanal mas, por essa altura, o meu foco já era em miúdas a sério e não actrizes brasileiras de bom porte. Do que ainda retenho, apesar de termos sempre variações dos mesmos enredos centrais, é que aquilo tinha ritmo, era descontraído e as pessoas falavam como gente normal (apesar do meu comparativo com a sociedade brasileira so existir mesmo na TV).

Por oposição, as primeiras novelas portuguesas como Vila Faia, Chuva na Areia e por aí em diante eram muito carregadas em teatralidade, muito actor com background clássico de teatro. Do que me recordo (apesar do choque da infâmia que se abateu sobre ‘Caniço’, era tudo muito lento, muito pausado, com a contenção e timing de teatro – traço geral, faziam-me lembrar umas tias-avós chatas, bem intencionadas, cultas e bem formadas mas, ainda assim, chatas.

Depois, conforme crescia, veio uma ou outra produção nacional um pouco mais descontraída (ainda assim, as séries sempre foram melhores que as novelas) – a produção era sempre feita com pouco dinheiro, mas o acting já se aproximava da realidade, um cruzamento mais próximo com conversas e diálogos de pessoas normais – era possivelmente o fruto de mais espaço televisivo para produção nacional e a rotina de mais actores que iam chegando.

Em adulto, traço geral só me cruzo com novelas em zapping ou por motivos profissionais. Dizem-me que a produção melhorou muito, que a escrita para televisão é mais fluída (apesar dos enredos centrais de ‘amores impossíveis’, ‘estranho numa terra estranha’, ‘famílias que se odeiam’ ou ‘um regresso que traz uma vingança’ estarem quase sempre presentes). Dizem-me ainda que há mais gerações de actores em contacto, com muita fornada a vir das séries juvenis estilo Morangos com Açúcar. Apesar deste último facto me parecer preocupante (malta jovem com bom aspecto não dá instantaneamente perfil de bom actor, mesmo que fique bem de bikini ou com uma barba rústico-moderna), como não consumo, dou o benefício da dúvida.

No entanto, calhei recentemente a ver uns bons minutos do produto de prime time tanto da TVI como da SIC e a coisa não me pareceu propriamente animadora, até porque depois vi mais uns bons bocados para alargar a amostra.

Gente vestida sempre de forma demasiado formal ou como se houvesse um cocktail ao virar da esquina, incoerência na acção (se eu quero atingir um tipo e o enredo pretende deixar-me na dúvida se ele morreu ou não, um tiro no meio da testa é sempre menos credível do que um no peito, digo eu), exagero dramático pouco realista em muitas situações, a obsessão com as cenas de classes com a empregada de uniforme ou a governanta continuam, o product placement feito à pazada e, o meu ódio fatal – o uso de calão em sistema de preenchimento de quotas.

Já desde o ‘Riscos’, esse ícone juvenil ao nível de ficção lusitana, que me faz impressão o uso de linguagem informal e/ou calão de forma mais artificial que a cor das delícias do mar. Os dreads têm de ser mil vezes mais dreads do que na realidade. Os insultos têm que ter um selo de aprovação e as formas de expressão são mais moldadas a martelo do que gelatina na cantina da escola. Basta olhar para a realidade para ver que as pessoas não falam assim…a não ser que sejam actores de novela e estejam a fazer assaltos dramáticos.

Não nego que se possa ter evoluído muito mas, com tanto benchmark disponível, ainda continuamos tenrinhos e previsíveis na maior parte dos casos. Resta aguardar cenas dos próximos capítulos

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5 pensamentos sobre “Há drama nas novelas portuguesas (apenas não está onde é suposto)

  1. “se eu quero atingir um tipo e o enredo pretende deixar-me na dúvida se ele morreu ou não, um tiro no meio da testa é sempre menos credível do que um no peito, digo eu”

    Isto é incrível. Aconteceu mesmo assim? Está no YouTube? A pessoa voltou? Com uma cicatriz na testa? 😀

    Essa questão do calão, bem verdade. Mas sempre senti que o problema está (ou estava, não tenho visto ficção portuguesa) quase sempre do lado da escrita e dos actores, não tanto da quantidade. Tinha amigos que eram bem capazes de dizer 5 bués, 3 fonixes e 10 caraças num minuto, mas na televisão, de facto, era impossível que isso parecesse real. Isso e pessoas a dizer “bolas”:

    Epa, e já agora, acho que é a terceira vez no espaço de um mês que leio alguém a escrever “acting” num texto em português. Primeiro foi o correr, e agora o representar, estamos a fazer um outsourcing gradual dos nossos verbos todos, é isso? 😛

    Oops, queria dizer terciarizar. 😉

  2. Sim, foi mesmo à moda antiga do buraco na cabeça, só faltou o ketchup como adereço (e olha que me ‘obrigaste’ a ir a uma coisa chamada TVI player para encontrar o pós-regabofe – http://tviplayer.iol.pt/programa/a-unica-mulher/54f9c2bb0cf242bc65d670fa/video/558f0c030cf2f61b1a7fa5eb).

    No que ao calão diz respeito, acho que é mesmo a ligação entre escrita e interpretação – não sei se é falta de liberdade para colocares lá o que usas no diálogo comum, se são os diálogos que são forçados, mas a falta de ligação é quase sempre evidente.
    Recordo-me agora que no tempo em que, para além de tudo o mais, também fazia figuração em novelas e séries, houve uma série de polícias portuguesa em que entrei um ou dois episódios a fazer de preso numa cela. A dada altura dizem-nos que a cena vai incluir dois detectives a trazerem para a cela ao lado das nossas um tipo que é um reconhecido chibo e que é suposto nós o insultarmos quando ele for a chegar. Ora bem, assim que trazem o tipo eu e o preso da cela ao lado toca de arremeter ‘FDP, chibo da merda, cabrão devias morrer e por aí em diante’ CORTA.
    Então? Epá, insultar sim, mas sem palavrões – então mas…mas os presos falam assim não? – Epá, tudo bem, mas tem de ser soft, usem sinónimos de palavrões. Enfim… Não direi que usámos insultos do género ‘biltre do cocó e filho de uma valente meretriz’, mas a coisa ficou muito sem graça e pouco realista.

    Quanto ao ‘acting’, mea culpa, defeito da publicidade, oiço (e, pelo vistos, repito) esse termo 50 vezes por semana e depois dá nisto. E eu até sou o gajo que goza com essa anglofonização absurda de n termos, incluindo customizar que é um verbo já aceite derivado do inglês e que eu não percebo porque existe quando ‘personalizar’ faz o mesmo trabalho.

    • Obrigado pelo clip, que sucessão incrível de reacções e comportamentos bizarros :D. Nunca tinha pensado nisso, mas as telenovelas portuguesas poderão ser uma fonte inesgotável de reaction gifs – mas nem vou pensar mais nesse assunto, que preciso de ter uma vida.

      Em relação aos estrangeirismos, todos nós temos os nossos momentos de fraqueza, só estava mesmo curioso porque esse me parece relativamente recente. Fico um pouco mais esclarecido sabendo da relação à publicidade, faz sentido pensando nas pessoas que também já vi utilizar.

      O customizar/costumizar não me choca tanto por ser uma ‘naturalização’ (embora, concedo, desnecessária). A minha embirração pessoal é desempenho / performance. 🙂

    • Pois, isso do Product placement dava para uma tese de mestrado, mas eu agora não posso tenho uma excelente perna de borrego das Carnes Lusitanas no meu forno Siemens super eficiente que certamente irá proporcionar um jantar saboroso. 😉

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