Eu queria muito ser Tóquio Sexual

_86359475_tokyogettyimages

Quanto melhor conheço os nomes dos candidatos à presidência da FIFA, mais me delicio com Tokyo Sexwale. Ter um nome assim e poder dizer que se foi companheiro de prisão de Nelson Mandela, além do facto de Tokyo ser alcunha devido ao entusiasmo por artes marciais é tudo o que um homem precisa para construir a sua própria lenda.

Ainda por cima, basta pesquisar um pouco na net para encontrar momentos épicos como este:

Screen shot 2015-10-30 at 3.35.16 PM

O manancial dos jogos de palavras é superior a qualquer inépcia ou falta de competência para o cargo – se Tóquio Sexual quer, Tóquio Sexual tem.

E bem podem abanar a cabeça, estou certo que os vossos candidatos, chamem-se eles Jerôme Champagne, Prince Ali ou Sheikh Salman, têm potencial, mas nada tem tanta potência como o Tóquio Sexual.

A melhor coisa que aprendi numa cadeira de Economia: Custo de oportunidade

twoways
Custo de oportunidade – assim em traços largos é aquilo que perdemos (na melhor probabilidade), dentro do que podíamos fazer/ter/alcançar, em função da nossa escolha por outra coisa qualquer. É um conceito económico e social.

A piada é que, muitas vezes, acabamos a avaliar o custo de oportunidade depois das coisas terem acontecido e não no momento da decisão, isto é, somos todos um bocado adeptos de chorar sobre leite derramado.

‘Ah fui ao cinema e o filme foi uma bosta, mais valia ter ficado em casa que ainda por cima está a chover’, ‘Epá, fui correr de manhã e bati com os dentes numa árvore, se tivesse ficado a dormir tinha menos sono e mais dentição’, ‘Nunca devia ter investido naquela relação, andei a perder tempo e agora o meu sex-appeal baixou em 25% e sou uma pessoa bem mais cínica perante a realidade. Devia ter investido, ao invés, num curso de bordados’.

Perante cenários reais e fictícios o custo de oportunidade é, não raras vezes, especulativo, pois não sabemos se ficar em casa não tinha dado origem a um curto circuito, se ficar a dormir não podia ter gerado um atraso imperdoável ou se o curso de bordados não ditaria o fim da nossa vida romântica.

Mas o que é verdade é que, perante as nossas inclinações e vontades, no pré-escolha, somos muito mais tendenciosos/descontraídos na avaliação do possível custo de oportunidade. É natural, não somos máquinas analistas inflexíveis e, se calhar, muito do que de bom nos acontece também tem que ver com não pensarmos no que podemos estar a perder, mas sim no que vamos ganhar.

Eu gosto de um meio-meio, ser um bocadinho racional e cínico no pré-escolha, mas não deixar de fazer coisas com base em pressupostos não confirmados. Depois de fazer as coisas, aí sou tão queixinhas como os outros, mas sem sentimentos de culpa. Fica sempre bem um ‘É assim a vida’ acompanhado de um encolher de ombros ou, em situações mais extremas, ‘FODASSSSSEEE, é sempre a mesma merda, se tivesse feito A acontecia B’. Tento apenas não cair no patamar daquela malta que fica a olhar para o boletim do Euromilhões que lhes rendeu 0€ e fica a dizer ‘Eish, eu tinha o 29, saiu o 30, as estrelas ponho sempre estas e só ontem é que mudei…’

No entanto, não tentem ver aqui alguma sabedoria ou conselhos de vida a seguir – Economia foi a cadeira que deixei para trás até ser a última que fiz antes de acabar o curso. Obviamente, esse foi um custo de oportunidade que resultou de escolhas talvez não muito acertadas, mas que me souberam muito bem.

A pressão das séries

Olha que já recomeçou o Walking Dead…
Não eras tu que querias ver o Mad Men do início?
Então, já acabaste o Breaking Bad?
Esta season 2 dos Leftovers promete.
O que rende é ver uma temporada completa do Comedians in cars getting coffee ao computador.
Narcos é potente, amigo…
Mr.Robot rende ver para tirar conclusões
Deixa lá o True Detective season 2, aquilo é tipo pastilha já mastigada.
O Vikings não é um Game of Thrones, mas vai entretendo.
Aquela cena do Jeffrey Tambor vestido de gaja vale a pena.
Como é possível que ainda andes a olhar para o ‘Dead Zone’
Agora há uma espécie de nova abordagem ao universo do Heroes.
Sabias que o Fear the walking dead já tem season 2 garantida?
Não sei se o Modern Family ainda me convence. E a ti?
Nem Downtown Abbey, nem vampiros? Então e o Wilfred ainda segues?

E A TUA VIDA, VAI TENDO RATINGS FIXES? JÁ GARANTIRAM A PRÓXIMA TEMPORADA?

Segurar a porta para alguém – sim ou não?

Considero-me uma pessoa educada, mas isso toda a gente se considera até um momento definidor em que esse conceito é posto à prova – por exemplo, quando seguramos uma porta aberta para alguém, que podemos ou não conhecer, para que esta pessoa aproveite o gesto com todo o conforto e comodidade.

De forma a comprovar esta minha teoria, nos últimos anos da minha vida dediquei algum tempo a passar regularmente através de portas, segurando-as sempre que me foi possível e analisando a atitude da pessoa que beneficia do meu gesto. Em função disso, cheguei a dois tipos de desfecho:

A) A pessoa mostra-se merecedora do esforço – nesse caso seguro a porta até à sua passagem ou o controlo da mesma estar estabelecido – PORTA SEGURA.

B) A pessoa mostra-se uma besta ou uma bosta com olhos – nesse caso tento largar a porta no momento certo para causar o máximo dano no menor tempo possível -PORTA NAS TROMBAS.

George W Bush China Visit

Eis um pequeno conjunto de situações em que a sentença PORTA SEGURA ou PORTA NAS TROMBAS foi executada (isto depois de estar reunida uma amostra suficiente para suportar esse conclusão).

 

Mulher bonita não paga, mas também não entra

Um cidadão bota a sua capa de cavalheiro, mas a mulher em causa atribui-lhe um manto de otário invisível e nem ‘obrigado’ nem aquele olhar/aceno de cabeça que, não sendo Parkinson, serve de agradecimento – simplesmente a porta segurou-se sozinha.

Veredicto: PORTA NAS TROMBAS (idealmente no momento em que a senhora vasculha a sua mala ou o seu telemóvel)

Dramas à Avô Cantigas

Idoso(a) tenta atravessar a porta mas a sua locomoção já não é a mesma de 1965. Puxa sempre em vez de empurrar e empurra quando devia puxar. Segurar-lhe a porta é um dever cívico, mesmo que o agradecimento seja em forma de ‘Estas portas modernas são todas uma porcaria’.

Veredicto: PORTA SEGURA (ok, podemos ameaçar que vamos largar a porta, mas só para 2 segundos de gozo à conta de velhinhos).

O Patrão

Empresário ou tipo de fatinho cinzento e atitude a condizer com ar, confunde-nos com o seu motorista ou porteiro do hotel Palácio. Na realidade é ele que nos está a fazer um favor, dando-nos o prazer de lhe segurar a porta a troco de falta de educação. Por vezes, esses dois segundos são óptimos para reunir com um ou dois colegas com a mesma atitude.

Veredicto: PORTA NAS TROMBAS (é notório que, para além do ego, precisam de exercitar os reflexos, é admissível o empurrar da porta para esta ganhar balanço)

Should I stay or should I go

São basicamente indecisos, vão entrar, não vão entrar, pedem para segurar a porta, depois fazem o gesto de ‘deixa estar que eu já lá vou’, correm um segundo, mas depois olham para trás e fazem uma espécie de valsa lenta em torno da porta.

Veredicto: Variável (depende do somar desta fórmula à nossa disposição do dia. Por vezes aviar-lhes a porta é excelente para descomprimir, noutros casos ficar a segurar a porta enquanto se dá uma espécie de dança estranha é relaxante)

Excursionistas

Olham para nós como se fôssemos guias que lhes fossem explicar as razões da existência daquela porta. Contemplam tudo com atenção e são capazes de ler todos os avisos da porta. Deixam-se maravilhar pela arquitectura envolvente e pelo prazer que é poder atravessar uma porta. Parecem no entanto privados da capacidade de falar/agradecer/fazer um gesto que reconhece o nosso esforço.

Veredicto: PORTA NAS TROMBAS (não há pachorra e aquilo não é um museu. A excepção dá-se quando são mesmo turistas e temos um primo taxista que lhes podemos recomendar a seguir e ganhar assim umas massas extra).

Criançada

Aqui a distinção, mais do que comportamental é a nível etário e educacional, por isso é entre crianças/putos estúpidos e o facto de se encontrarem acompanhados pelos pais ou não.

Veredicto: PORTA SEGURA (se forem crianças pequenas que não têm a noção do que se passa – caso se encontrem acompanhadas pelos pais, que não estão nem aí para a coisa, passam as crianças e depois PORTA NAS TROMBAS aos pais, pedindo depois um high-five às crianças). PORTA NAS TROMBAS se forem putos estúpidos (podendo neste caso optar pelo parcial ou total – o total é varrer o grupo com intenção, o parcial é deixar passar um ou dois e depois varrer os restantes, causando risota entre eles e humilhando socialmente parte do grupo. A piscadela de olho é opcional, mas não recomendável se estiverem, por exemplo, no Colombo)

Os dias não se escolhem

  

Aproveitam-se.
E, a quatro dias de voltar ao trabalho depois de um mês de licença, ou a três de ir fazer uma maratona tipo não maratona ao que tudo indica em registo duche contínuo, este calhou que nem ginjas.

Mas, curioso natural que sou, estranho sempre alguns cenários com que me cruzo quando estou em registo de lazer. Se vou correr a horários não madrugadores e vejo gente que não se enquadra no perfil estudante/reformado a fazer o mesmo fico logo a pensar ‘Serão desempregados? Mas vão com ar demasiado feliz para isso… Na volta estão de férias – mas quem é que tira férias a meio de Outubro? Olha, se calhar estão de licença como eu… mas faltam-lhes olheiras. Será trabalho por turnos ou folga?’
Na maior parte das vezes não chego a conclusão nenhuma, mas é garantido que a especulação pura e dura ajuda a entreter nas folgas de músicas e podcasts.

Como o dia deu margem de manobra, damos um salto à praia e durante cinco minutos dá-se a ilusão de ‘Epá, de campeão era um banhinho de mar’ – ilusão essa que fomos enterrar na areia, dois segundos depois de meter os pés na água. Ainda assim, sou surpreendido novamente com o volume de gente na praia. Depois das minhas teorias, proponho abordar duas ou três pessoas para tirar isso a limpo. A minha proposta é vetada liminarmente pela ala feminina que desconfiou do facto dos potenciais alvos dos meus inquéritos serem sempre mulheres tonificadas que caminhavam junto ao mar ou corriam no paredão. Blasfémias disse eu, dando o assunto por encerrado quando a alternativa proposta era questionar dois pançudos que olhavam para o mar e apontavam com ar sábio para dois cargueiros.

Depois, gozando do prazer mundano que é almoçar numa esplanada, descubro na ementa que o conceito de ‘hamburger gourmet’ continua a mudar – agora parece que para ser gourmet basta ser no prato, por oposição ao não gourmet, que é no pão. A não ser que o pão seja bolo do caco e aí o pão é gourmet, o hamburger talvez. Fico baralhado e resolvo lamber as azeitonas do couvert, negando-me depois a pagar o mesmo.

É bom ter tempo para aproveitar um dia assim. Depois foi só tentar perceber onde é que, ao longo da manhã, nos tínhamos esquecido da criança.

A maratona imprevista que, como previsto, decididamente não será uma maratona

Em termos de corrida, fiz um acordo com o mini-cidadão lá de casa para a segunda metade de 2015 – Muito bem, tu nasces e, sem preocupação de garantias e devoluções, eu vou correndo segundo o plano de não ter planos na segunda metade de 2015. Depois, em 2016, tu hás-de começar a cumprir funções de aguadeiro ou vamos ter problemas.

Ele concordou e até adiantou uma sugestão – Olha, meu cota, e se acrescentássemos uma cena, como geralmente vos dou umas noites pacíficas, que tal se aproveitasses o meu repasto pré-matinal lá por volta das cinco e fosses correr com aquele pessoal que lhe dá nas horas em Monsanto, os Esquilos. Com esse cabedal todo a pastar por casa durante a licença era o mínimo que podias fazer.

Perante um não plano, acedi e lá tenho ido dar umas voltas madrugadoras por Monsanto – já contava com um bom espírito e malta com bom andamento mas, mesmo ainda em versão semi-outsider, é fácil sentir a vontade de voltar e o desfrutar da experiência, coisa que tenho feito (se és uma pessoal normal que gosta de dormir até horas decentes, ignora o último parágrafo).

Eis que pelo meio, surge uma oferta de dorsal para a Maratona de Lisboa, no percurso que em 2013 abominei, pela conjugação calor e atritos de estômago. Honestamente, mesmo indo pelo resultado simpático na meia maratona das Lampas, não estou em forma de Maratona – falta-me o ritmo de longa distância em alcatrão. Mas, face à oportunidade (e à previsão de chuva épica, o que me dá sempre gozo) resolvi transformar esta maratona em treino longo que, por acaso, tem 42,195kms. Sem pressão de paces, se encontrar alguém conhecido (e mais lento) que precise de um reboque, pode ser que a coisa se dê e aproveito para testar umas soluções de nutrição, já que percebi que em ritmos de estrada longos o meu maior problema têm sido as reacções de estômago (em Madrid, para evitar vomitar tive que reduzir drasticamente o ritmo nos últimos 4kms) – é que o resto do corpo não está desgastado ao limite e no dia seguinte às maratonas tenho-me sentido fresco.

Mas pronto, por um lado será estranho ir para uma prova sem o objectivo constante de melhoria, como é normal em estrada, por outro será curioso ver como lidarei com uma experiência diferente, com vista a outros benefícios a médio prazo.

Depois, até final do ano, continuam os não planos. Talvez um trail de 30kms ou coisa parecida, uma São Silvestre para fechar em pleno a festa e pensar num plano de treino para o ano que vem.

Em 2016, abre-se com uma vingança de Fim da Europa (a gripe gripou-me em 2014 e fiz uma subida miserável), põe-se uma Eco Marathon de Monsanto em Junho para celebrar o 1º aniversário de mini cidadão em ‘casa’ e o objectivo de uma ultra de 50-60kms para o primeiro terço do ano, em dose adequada à forma. O resto, entre clássicos e novas experiências, logo se vê.

Depois, só falta planear tudo o resto e gozar com o conceito de ‘tempos livres’.

Apontaram uma aplicação à senhora

Eu à frente, à espera que o meu tabuleiro fosse prendado com o meu repasto e, resistindo à tentação de sacar do smartphone como qualquer pessoa (a)normal a ouvir a conversa com a cliente seguinte.

A cliente seguinte, senhora moderna com parceiro de refeição igualmente moderno falam de temas modernos. O sítio em que se preparam para comer não é assim tão trendy mas pronto, pelo menos é em conta.

De repente, a funcionária interrompe, depois de paga a refeição – Será que a senhora moderna tem a aplicação do estabelecimento. A aplicação do estabelecimento? Sim, a aplicação para o seu telemóvel…daquelas que se acumulam pontos, descontos e refeições, etc e tal.

Horror e desconhecimento – parecia que a miúda lhe tinha perguntado se importava de doar dois dedos para a ciência enquanto aguardava pela refeição. Não sei se foi a conjugação ‘aplicação’ e ‘descontos’, mas a coisa assustou mais do que Instagramar fotos com espinafre nos dentes. A senhora suspirou, renegou o demo da App e, a muito custo, lá ouviu a senhora mais vinte segundos a dizer o que podia encontrar no site.

Apps de fidelização e desconto, o que vão estes pobres inventar a seguir.
Ainda pensei falar-lhe numa possível subscrição do meu podcast, mas o cavalheiro moderno que a acompanhava tinha pinta de quem trabalhava biceps para resolver situações assim, por isso fica para a próxima.

Um sketch vestido de realidade a boiar num rio

Não tenho muito mais a dizer que isto:

Um personagem do Ricardo Araújo Pereira projectou-se no discurso desta senhora.

Para além de tudo o mais, as palavras ‘certezamente’ e ‘descomposto’ não são passíveis de ser utilizadas daquela forma sem propósitos de comédia.

E, no final de tudo, numa situação que mete drama e um cadáver, a obra prima – alguém que, negando ter visto um porco ou uma ovelha, achava mais provável à primeira vista ser ‘um palhaço daqueles que põem no meio do milho’ do que um corpo.

Abençoada realidade, mesmo em situações assim.

 

Sentado no topo do mundo

A vista era deslumbrante, mas o tédio acaba por se apoderar de quem tem tudo o que quer até onde a vista alcança.
Pegou numa pedrinha aos seus pés, tão pequena que cabia perfeitamente entre o seu dedo indicador e o polegar. A sua insignificância era o que a tornava relevante para si.

Olhou lá para baixo e atirou a pedrinha ao ar. Viu-a subir e descer de novo à sua frente, descendo vertiginosamente rumo à normalidade, muitos e muitos metros abaixo de si. Suspirou.

Lá em baixo, ninguém esperava o choque. Noticiários abriram com a notícia, cientistas avançaram explicações e teorias, rapidamente atacadas por outros cientistas com outras explicações e outras teorias. A destruição foi grande, mas a surpresa foi a falta de aviso – os satélites não avisaram, as sondas não responderam e os videntes estavam ocupados a tentar ganhar vida na televisão.

Falava-se até no surgimento de cultos religiosos baseados neste evento tão bizarro, ao passo que outros meteram a fé numa gaveta em casa e foram torrar as poupanças no casino e no que lhes dava mais prazer.

Lá em cima, nem um sorriso ou um acenar de cabeça. Apenas um bocejo denotando a previsibilidade de tudo o que começa por ser imprevisível. E o sabor da sua pastilha elástica estava a desaparecer. Aquilo já não era banana-hortelã há muito tempo.

Tirou cuidadosamente a pastilha da boca, esticando-a num fio conforme ia afastando os braços. Voltou a olhar lá para baixo, enquanto fazia girar o fio de pastilha elástica. O que diriam eles? O que fariam quando dessem por isso?

Bem, pensou, não há outra forma de saber…