Segurar a porta para alguém – sim ou não?

Considero-me uma pessoa educada, mas isso toda a gente se considera até um momento definidor em que esse conceito é posto à prova – por exemplo, quando seguramos uma porta aberta para alguém, que podemos ou não conhecer, para que esta pessoa aproveite o gesto com todo o conforto e comodidade.

De forma a comprovar esta minha teoria, nos últimos anos da minha vida dediquei algum tempo a passar regularmente através de portas, segurando-as sempre que me foi possível e analisando a atitude da pessoa que beneficia do meu gesto. Em função disso, cheguei a dois tipos de desfecho:

A) A pessoa mostra-se merecedora do esforço – nesse caso seguro a porta até à sua passagem ou o controlo da mesma estar estabelecido – PORTA SEGURA.

B) A pessoa mostra-se uma besta ou uma bosta com olhos – nesse caso tento largar a porta no momento certo para causar o máximo dano no menor tempo possível -PORTA NAS TROMBAS.

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Eis um pequeno conjunto de situações em que a sentença PORTA SEGURA ou PORTA NAS TROMBAS foi executada (isto depois de estar reunida uma amostra suficiente para suportar esse conclusão).

 

Mulher bonita não paga, mas também não entra

Um cidadão bota a sua capa de cavalheiro, mas a mulher em causa atribui-lhe um manto de otário invisível e nem ‘obrigado’ nem aquele olhar/aceno de cabeça que, não sendo Parkinson, serve de agradecimento – simplesmente a porta segurou-se sozinha.

Veredicto: PORTA NAS TROMBAS (idealmente no momento em que a senhora vasculha a sua mala ou o seu telemóvel)

Dramas à Avô Cantigas

Idoso(a) tenta atravessar a porta mas a sua locomoção já não é a mesma de 1965. Puxa sempre em vez de empurrar e empurra quando devia puxar. Segurar-lhe a porta é um dever cívico, mesmo que o agradecimento seja em forma de ‘Estas portas modernas são todas uma porcaria’.

Veredicto: PORTA SEGURA (ok, podemos ameaçar que vamos largar a porta, mas só para 2 segundos de gozo à conta de velhinhos).

O Patrão

Empresário ou tipo de fatinho cinzento e atitude a condizer com ar, confunde-nos com o seu motorista ou porteiro do hotel Palácio. Na realidade é ele que nos está a fazer um favor, dando-nos o prazer de lhe segurar a porta a troco de falta de educação. Por vezes, esses dois segundos são óptimos para reunir com um ou dois colegas com a mesma atitude.

Veredicto: PORTA NAS TROMBAS (é notório que, para além do ego, precisam de exercitar os reflexos, é admissível o empurrar da porta para esta ganhar balanço)

Should I stay or should I go

São basicamente indecisos, vão entrar, não vão entrar, pedem para segurar a porta, depois fazem o gesto de ‘deixa estar que eu já lá vou’, correm um segundo, mas depois olham para trás e fazem uma espécie de valsa lenta em torno da porta.

Veredicto: Variável (depende do somar desta fórmula à nossa disposição do dia. Por vezes aviar-lhes a porta é excelente para descomprimir, noutros casos ficar a segurar a porta enquanto se dá uma espécie de dança estranha é relaxante)

Excursionistas

Olham para nós como se fôssemos guias que lhes fossem explicar as razões da existência daquela porta. Contemplam tudo com atenção e são capazes de ler todos os avisos da porta. Deixam-se maravilhar pela arquitectura envolvente e pelo prazer que é poder atravessar uma porta. Parecem no entanto privados da capacidade de falar/agradecer/fazer um gesto que reconhece o nosso esforço.

Veredicto: PORTA NAS TROMBAS (não há pachorra e aquilo não é um museu. A excepção dá-se quando são mesmo turistas e temos um primo taxista que lhes podemos recomendar a seguir e ganhar assim umas massas extra).

Criançada

Aqui a distinção, mais do que comportamental é a nível etário e educacional, por isso é entre crianças/putos estúpidos e o facto de se encontrarem acompanhados pelos pais ou não.

Veredicto: PORTA SEGURA (se forem crianças pequenas que não têm a noção do que se passa – caso se encontrem acompanhadas pelos pais, que não estão nem aí para a coisa, passam as crianças e depois PORTA NAS TROMBAS aos pais, pedindo depois um high-five às crianças). PORTA NAS TROMBAS se forem putos estúpidos (podendo neste caso optar pelo parcial ou total – o total é varrer o grupo com intenção, o parcial é deixar passar um ou dois e depois varrer os restantes, causando risota entre eles e humilhando socialmente parte do grupo. A piscadela de olho é opcional, mas não recomendável se estiverem, por exemplo, no Colombo)

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2 pensamentos sobre “Segurar a porta para alguém – sim ou não?

    • Ahah, acho que tal como para Jack Burton ‘It’s all in the reflexes’, aqui é uma questão de timing e avaliação rápida.

      É certo que poderás falhar alguma vez e atingir um cidadão mais lento, mas traço geral há um intervalo de previsão bastante conciso – é encarar a coisa como um speed-character judging ou então um mero pretexto para enfardar portas na cara de pessoas.

      Eu sou mais adepto da corrente que defende que, quando se tratam de estranhos em que o nosso convívio se resume a esse momento, o agradecimento deve ser expresso previamente (ou a caminho de) ao momento de passagem da porta.

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