Deixem-me dizer-vos duas ou três coisas antes do Natal

Não tem andado fácil isto de colocar a escrita em dia mas, mais do que desculpas, há que analisar o que se tem passado na realidade à minha volta, em especial o que há de mais real-surreal. Comecemos:

Pais que ficam tipo stalkers à porta da escola primária.

Salvo imprevistos, todos os dias de manhã eu e o mini cidadão rolamos de carrinho pelas ruas da cidade até ao seu berçário. Quer-se dizer, ele rola e eu empurro, tentando manter um compromisso entre velocidade de cruzeiro e a tentativa de não chegar lá a suar que nem um porco.

Pelo caminho passamos por uma escola primária em que os miúdos ficam a brincar no pátio depois dos pais os deixarem lá e antes de tocar para a entrada. Curiosamente, não é raro encontrar espalhados ao longo do gradeamento três ou quatro mães/pais a olhar de forma intensa para o pátio. O curioso é que nem sequer é um ar preocupado, do género ‘O Joãozinho tem levado arraiais de porrada de um coleguinha e eu quero saber quem é’, é um certo ar vago a monitorizar as acções todas.

Ainda não percebi se são sempre os mesmos ou se vão variando, quais as suas justificações, medos e ansiedades. Também não sei se é uma doença, mas fico preocupado porque passo ali todos os dias – será que qualquer dia serei apanhado a olhar fixamente para os portões do infantário? Se isso acontecer, espero ao menos estar vestido, que o tempo tem andado fresco.

O jardim zoológico das opiniões

Os últimos tempos têm sido muito fortes ao nível do poder opinativo nas redes sociais. Entre política, refugiados, terroristas, desporto e alarvidade geral, debita-se muita coisa por aí. Para alguns é um transtorno, esse chorrilho de opiniões, posições e, não raras vezes, contradições em forma de posts e afins. Para mim é mel, mesmo que isso faça de mim um urso.

Gosto muito de perceber como funciona (ou não) o raciocínio das pessoas e as redes sociais são um óptimo balão de ensaio. Em certos casos, é apenas um desdobramento da realidade, mas noutros é um estoiro exponencial de poder opinativo e/ou verborreia pura e isso constitui a riqueza da análise sociológica da realidade. Desprovidas da inibição de ter alguém à frente para além de um botão de enter, é maravilhoso ver como as pessoas se podem transformar e como outras exploram isso para criar um autêntico fandango digital.

Por mim, é continuar, é o novo entretenimento de proximidade, desde que saibamos que é possível e desejável, poder estar offline com regularidade e perceber que a realidade continua a existir noutros planos.

Homens que dançam

Acho que já abordei isto por aqui, mas a falta de memória é sempre um bom tópico para publicar o mesmo post vezes sem conta. É impressionante, quando vamos a uma cerimónia/evento em que uma parte implica conversa e entrega de prémios/distinções/sejaláoquefor e a outra implica música e dança.

É impressionante o número de homens que foge perante a perspectiva de dançar ou, no limite, abanar o corpo ritmicamente como se o copo que têm na mão fosse o varão de uma casa de strip. Em muitos casos é como se dançar fosse um abanar da sua respeitabilidade e potencial icónico, o que não pode acontecer se querem manter alguma aura mítico-social.

Nunca tive esses problemas, se é para dançar, dança-se, se aquilo que estou efectivamente a fazer é dança ou não, isso é outra história. Sou um freestyler e se não se trata de dança regrada com passos certos, ritmos latinos e outra coisa que implique aulas, lá estarei em pista.

O público feminino estranha, por vezes mas, com 1,85m, não se aplica o velho ditado de ‘Homem pequenino, ou velhaco ou dançarino’ – portanto lá vou exibindo os meus skills, esperando que a velhacaria não seja detectável a partir de uns moves inusitados.

Voto de lesões graves às pessoas que correm para ficar à minha frente no multibanco e nas farmácias

É uma situação específica, eu sei. Não se trata propriamente da erradicação do Ébola ou de um grande remix de constitucionalismo, mas é algo que me afecta na primeira pessoa, ao passo que nunca estive numa fila para o Ébola nem para tirar a senha em debates constitucionais.

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Resumindo, é muito simples – Por um lado condeno a atitude de pessoas que, vendo que a passo normal chegarás primeiro que elas ao multibanco ou ao balcão da farmácia, correm ou imitam marchantes fajutos para te baterem aos pontos. Por outro, fico sempre com vontade de correr quando as vejo a fazer isso. essencialmente porque sei que há uma grande probabilidade de serem as pessoas mais chatas e comichosas do mundo, com tarefas complexas pela frente.

No Multibanco é um clássico, chegas em 2º lugar e pessoa à tua frente não quer levantar 20€, nem sequer ver o saldo. Por norma, o karma dita que essa pessoa queira fazer duas transferências internacionais, pagar três contas, renovar o acesso à Via Verde e tentar perceber como se compram bilhetes de comboio ali.

Neste Domingo, numa farmácia que eu sei que está sempre aberta em horário normal e com pouco movimento, pensei eu que iria demorar cinco minutos com um pedido simples e conciso – quero um gel para as gengivas do puto, o melhor da casa, se faz favor.

Estou a cinco metros da porta quando vejo o careca vindo da direita a tentar papar-me na curva com uma aceleração pouco normal. Acelerei ligeiramente o passo, mas o homem vai desvairado e eu quis preservar alguma dignidade no acesso à farmácia. Pensei, de boa fé, ‘deixa-o ir, pode ser uma questão importante (e rápida)’.

Chego lá dentro e, como seria de esperar a um domingo à tarde, duas funcionárias disputam o campeonato do menor entusiasmo no atendimento ao freguês. Uma delas está entretida com uma mãe que pretende saber tudo sobre rações para criança, à outra fica-lhe atribuído o careca, enquanto a mim me resta esperar.

Claro está, o careca tem questões complexas, questiona sugestões da farmacêutica e para sacar de um Tratado da Medicação Moderna para o auxiliar. Tento bloquear a coisa da minha mente e penso na fila para o Ébola – deve estar agradável, soltinha e rápida. O careca não se cala, começa a citar nomes de farmacêuticas, mas de forma pouco artística, para ele a Pfeizer é a ‘Faiza’ e a Boehringer é a ‘Berringa’ – apetece-me transformar um mostrador de produtos Chicco num supositório gigante. A mãe já tem agora oito rações diferentes de criança em cima do balcão, mas se calhar vai só levar uma tetina.

A funcionária do careca está nitidamente a cortar o pulso mentalmente, tudo sem deixar cair o sorriso amarelo – o careca fala-lhe agora certamente de um eczema que teve em 1986 e que ficou para a história. Finalmente a mãe decide – não a farmácia não tem Dentastix, leva só o pack básico que já lá estava há 10 minutos.

Eu avanço. Três minutos, sorrisos, multibanco e número de contribuinte. Adeus até à próxima.
Noutro balcão, o careca sprinter das farmácias evolui agora sobre algo que tanto pode ser o ‘conceito de drogaria’ como ‘uma droga que ria’. Não sei, espero que fique lá para sempre.

Vou-me embora, esta história dos segundos lugares tem de acabar. Pelo menos no multibanco e nas farmácias.

Fase Patépica

Fisicamente, em função da conjugação de cansaço/horas de sono em falta e ocasional má gestão do tempo, sinto que estou mais ou menos numa fase patépica do meu percurso.

Pausei por uma época o basket porque um homem não é de ferro, a não ser se for um brilhante cientista playboy com tendência para construir armaduras que o tornem ainda mais vistoso.

Tenho tentado gerir melhor os meus esforços desportivos, optando por qualidade quando a quantidade não é viável, mesmo sem um grande plano definido.

Resultado?

Feitos patépicos, coisas que na minha cabeça têm o seu quê de épico mas que, para a realidade do comum mortal, são patéticas quando analisadas à fria luz da racionalidade. No entanto, como eu também me posso definir como um comum mortal a nadar na piscina do medianismo atlético, acho que faz mais sentido juntar as duas palavras num novo conceito – a Fase Patépica.

Não quer isso dizer que vá encostar às boxes nem nada parecido, mas mais ser levado a entender esta fase como algo divertido, mas que só vai dar vontade de rir daqui a algum tempo, quando passar do medianismo ao medianismo gourmet, nem que seja por passar a treinar, correr, fazer desporto, embrulhado em bolo do caco.

Para já estamos assim, patépicos. E a ter cabedal para apreciar a coisa.

O drama de alguém que nunca desmaiou

Nunca desmaiei.

Já me vomitei todo, aliás já vomitei até de dor, já delirei com febre, já vi até episódios de novela da TVI inteiros mas, até agora, nunca desmaiei.

No entanto, já ouvi relatos de muitos desmaios, já vi gente a desmaiar à minha frente, já agarrei até em pessoas que estavam a desfalecer, tendo até o cuidado de não tirar fotografias divertidas aproveitando o seu desmaio. O que não me ajuda a perceber melhor a sensação, já que as descrições são mais ou menos generalistas, mas o efeito não tem propriamente a mesma força quando é descrito.

Nos últimos dias, a propósito de coisas de trabalho, questionei colegas, amigos e até palhaços neste circo que é a vida, para saber se já tinham desmaiado e, se sim, quais as razões na base do evento. Eis as razões mais citadas:

Tensão Baixa / Quebra de Tensão
Eventos traumáticos (choques, acidentes, pancadas, etc)
Coisas relacionadas com sangue (tirar sangue, ver sangue, beber sangue em rituais voodoo, etc)

A melhor resposta fora da média: desmaiar de desgosto
(a coisa foi dita de forma sincera, não dando para a interpretação de ‘a minha avó ofereceu-me meias horríveis pela 124ª vez e eu desmaiei’)

Contudo, já que não desmaio e as motivações principais escapam um pouco ao meu domínio, uma vez que não tenho problemas de tensão, o sangue não me faz impressão e não estou disposto a investir em eventos traumáticos de propósito (nem a solicitar pancada na cabeça a la carte), a minha curiosidade passa a: e que razões comprovadas, como a do desgosto, já terão acontecido factualmente e estiveram na base de desmaios.

É que já que estou excluído da coisa, pelo menos posso maravilhar-me com realidades alheias de cair para o lado.

Papá podcaster – 1 Papá leitor – 0

Não tem sido um duelo fácil. Entre as várias actividades, o tempo disponível insiste em escassear e estamos numa época em que tenho tentado ser bastante espartano em relação ao cumprimento mínimo de horas de sono.

A segunda metade do ano, preenchida em grande pelo mini cidadão não tem sido bondosa para os índices de literatura. Não é que compense, mas tenho tentado bombar em podcasts nos tempos possíveis, não incluindo obviamente ao jantar, sob o risco de poder ler com detalhe o que estás escrito num chinelo de porte feminino que seja arremessado violentamente na minha direcção.

Um dos troços favoráveis a podcasting tem sido o caminho que faço com mini cidadão no carrinho a caminho do seu part time no berçário. Quando não vai a dormitar, o jovem artista vai entretido a ver a paisagem no nosso circuito de 10-15 minutos e chegamos até a trocar sorrisos e algumas palavras, se bem que ele ainda não trabalha bem a sua capacidade de se fazer entendido. Pelo meio, e no percurso posterior até ao trabalho, vão-se despachando uns episódios.

Se tiverem sugestões de podcasts, avancem sem medo, que a livraria tem espaço, se têm sugestões de livros, atirem-mas à cara, é possível que lá mais para o Natal consiga despachar alguns volumes. Até lá, vou começar a tentar segurar livros com os pés.

O fim da minha gaveta da nostalgia dos anos 90

Comecemos pelo essencial – enquanto crescemos acumulamos muita merda que nos é querida ao coração, mas que racionalmente já não devia estar ali.

Seja a tecnologia, a falta de tempo ou o facto de termos coisas mais interessantes para fazer, tipo crescer e ter um vida adulta (desculpa idiota que os adultos criaram para fazer coisas estúpidas, mas que têm rótulo de coisas adultas), o facto é que vamos escolhendo gavetas, caixas, prateleiras e arrecadações em que vamos colocando pequenos blocos de nostalgia das mais diversas formas, feitios e origens.

Ao longo do tempo, fui tentando impor um pouco de racionalismo ao sentimento nostálgico que nos leva a guardar tralha – ficas só com 10% das revistas de basket que nunca mais vais ler, os artigos e piadolas com que decoraste cadernos na escola ficam, mas as medalhas das corridas vão ter que emagrecer. Entre mudanças de casa e saída de casa dos pais, a falta de arrecadações foi ajudando ao reduzir do capital nostálgico. Mas, qual aldeia de gauleses irredutíveis, uma coutada foi permanecendo intocável.

Até ontem.


Esta era a gaveta em que as grandes mixtapes e cassetes super recheadas de grandes temas dos anos 90 viviam, a par de um exército de cassetes VHS onde as finais da NBA com Jordan, Knicks, Stockton e Malone entre outros, All Star Games ou Dream Teams conviviam com concertos gravados, programas de humor e sketches de eleição. Atenção, aquilo não era a gaveta, era A G-A-V-E-T-A, onde não era para mexer, não era para tirar, eu depois qualquer dia vejo, se calhar ainda converto isso para CD e onde bastava olhar para o que estava escrito em linhas toscas para saber quase de cor todos os pormenores do que estava gravado. E material mais hardcore? Não confirmo, nem desminto, mas a haver alguma coisa, seria certamente pelo cliché pitoresco do mitológico Canal 18.

Mas foi tempo de dizer adeus ao armário e esta gaveta, que terá para sempre lugar no meu coração, deixou de ter espaço em nossa casa. Foi preciso filtrar, com lágrima nos olhos e pano do pó nas mãos. Só ficou o Olimpo do Olimpo, aquilo que de certeza não encontro na net ou que me era pessoalmente mais relevante. Não foi fácil, tanto que o saco com tudo o que vai à vida ainda está lá em casa, à espera da resposta à pergunta ‘Não vamos pôr isto no lixo normal, pois não?’.

Posso estar disposto a abdicar do lado físico de parte do meu capital nostálgico, mas estou longe de estar disposto a fazê-lo para lhe colocar o fim num caixote do lixo normal – A Câmara não tem um aterro de nostalgia algures? Suponho que não, pois a haver seria maior que Portugal inteiro, mas pronto era bonito. E agora vou ali planear o que vou tentar reouvir no único deck de cassetes que sobrevive lá em casa e que já merece um mixtape para limpar a mágoa no coração.