O fim da minha gaveta da nostalgia dos anos 90

Comecemos pelo essencial – enquanto crescemos acumulamos muita merda que nos é querida ao coração, mas que racionalmente já não devia estar ali.

Seja a tecnologia, a falta de tempo ou o facto de termos coisas mais interessantes para fazer, tipo crescer e ter um vida adulta (desculpa idiota que os adultos criaram para fazer coisas estúpidas, mas que têm rótulo de coisas adultas), o facto é que vamos escolhendo gavetas, caixas, prateleiras e arrecadações em que vamos colocando pequenos blocos de nostalgia das mais diversas formas, feitios e origens.

Ao longo do tempo, fui tentando impor um pouco de racionalismo ao sentimento nostálgico que nos leva a guardar tralha – ficas só com 10% das revistas de basket que nunca mais vais ler, os artigos e piadolas com que decoraste cadernos na escola ficam, mas as medalhas das corridas vão ter que emagrecer. Entre mudanças de casa e saída de casa dos pais, a falta de arrecadações foi ajudando ao reduzir do capital nostálgico. Mas, qual aldeia de gauleses irredutíveis, uma coutada foi permanecendo intocável.

Até ontem.


Esta era a gaveta em que as grandes mixtapes e cassetes super recheadas de grandes temas dos anos 90 viviam, a par de um exército de cassetes VHS onde as finais da NBA com Jordan, Knicks, Stockton e Malone entre outros, All Star Games ou Dream Teams conviviam com concertos gravados, programas de humor e sketches de eleição. Atenção, aquilo não era a gaveta, era A G-A-V-E-T-A, onde não era para mexer, não era para tirar, eu depois qualquer dia vejo, se calhar ainda converto isso para CD e onde bastava olhar para o que estava escrito em linhas toscas para saber quase de cor todos os pormenores do que estava gravado. E material mais hardcore? Não confirmo, nem desminto, mas a haver alguma coisa, seria certamente pelo cliché pitoresco do mitológico Canal 18.

Mas foi tempo de dizer adeus ao armário e esta gaveta, que terá para sempre lugar no meu coração, deixou de ter espaço em nossa casa. Foi preciso filtrar, com lágrima nos olhos e pano do pó nas mãos. Só ficou o Olimpo do Olimpo, aquilo que de certeza não encontro na net ou que me era pessoalmente mais relevante. Não foi fácil, tanto que o saco com tudo o que vai à vida ainda está lá em casa, à espera da resposta à pergunta ‘Não vamos pôr isto no lixo normal, pois não?’.

Posso estar disposto a abdicar do lado físico de parte do meu capital nostálgico, mas estou longe de estar disposto a fazê-lo para lhe colocar o fim num caixote do lixo normal – A Câmara não tem um aterro de nostalgia algures? Suponho que não, pois a haver seria maior que Portugal inteiro, mas pronto era bonito. E agora vou ali planear o que vou tentar reouvir no único deck de cassetes que sobrevive lá em casa e que já merece um mixtape para limpar a mágoa no coração.

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4 pensamentos sobre “O fim da minha gaveta da nostalgia dos anos 90

    • Não abdiquei de tudo, talvez de 80% – Mas há ali intocáveis e o facto de ainda ter um deck e um leitor de VHS guardado faz com que tenha sempre desculpa para a minha reserva nostálgica 😉

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