Voto de lesões graves às pessoas que correm para ficar à minha frente no multibanco e nas farmácias

É uma situação específica, eu sei. Não se trata propriamente da erradicação do Ébola ou de um grande remix de constitucionalismo, mas é algo que me afecta na primeira pessoa, ao passo que nunca estive numa fila para o Ébola nem para tirar a senha em debates constitucionais.

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Resumindo, é muito simples – Por um lado condeno a atitude de pessoas que, vendo que a passo normal chegarás primeiro que elas ao multibanco ou ao balcão da farmácia, correm ou imitam marchantes fajutos para te baterem aos pontos. Por outro, fico sempre com vontade de correr quando as vejo a fazer isso. essencialmente porque sei que há uma grande probabilidade de serem as pessoas mais chatas e comichosas do mundo, com tarefas complexas pela frente.

No Multibanco é um clássico, chegas em 2º lugar e pessoa à tua frente não quer levantar 20€, nem sequer ver o saldo. Por norma, o karma dita que essa pessoa queira fazer duas transferências internacionais, pagar três contas, renovar o acesso à Via Verde e tentar perceber como se compram bilhetes de comboio ali.

Neste Domingo, numa farmácia que eu sei que está sempre aberta em horário normal e com pouco movimento, pensei eu que iria demorar cinco minutos com um pedido simples e conciso – quero um gel para as gengivas do puto, o melhor da casa, se faz favor.

Estou a cinco metros da porta quando vejo o careca vindo da direita a tentar papar-me na curva com uma aceleração pouco normal. Acelerei ligeiramente o passo, mas o homem vai desvairado e eu quis preservar alguma dignidade no acesso à farmácia. Pensei, de boa fé, ‘deixa-o ir, pode ser uma questão importante (e rápida)’.

Chego lá dentro e, como seria de esperar a um domingo à tarde, duas funcionárias disputam o campeonato do menor entusiasmo no atendimento ao freguês. Uma delas está entretida com uma mãe que pretende saber tudo sobre rações para criança, à outra fica-lhe atribuído o careca, enquanto a mim me resta esperar.

Claro está, o careca tem questões complexas, questiona sugestões da farmacêutica e para sacar de um Tratado da Medicação Moderna para o auxiliar. Tento bloquear a coisa da minha mente e penso na fila para o Ébola – deve estar agradável, soltinha e rápida. O careca não se cala, começa a citar nomes de farmacêuticas, mas de forma pouco artística, para ele a Pfeizer é a ‘Faiza’ e a Boehringer é a ‘Berringa’ – apetece-me transformar um mostrador de produtos Chicco num supositório gigante. A mãe já tem agora oito rações diferentes de criança em cima do balcão, mas se calhar vai só levar uma tetina.

A funcionária do careca está nitidamente a cortar o pulso mentalmente, tudo sem deixar cair o sorriso amarelo – o careca fala-lhe agora certamente de um eczema que teve em 1986 e que ficou para a história. Finalmente a mãe decide – não a farmácia não tem Dentastix, leva só o pack básico que já lá estava há 10 minutos.

Eu avanço. Três minutos, sorrisos, multibanco e número de contribuinte. Adeus até à próxima.
Noutro balcão, o careca sprinter das farmácias evolui agora sobre algo que tanto pode ser o ‘conceito de drogaria’ como ‘uma droga que ria’. Não sei, espero que fique lá para sempre.

Vou-me embora, esta história dos segundos lugares tem de acabar. Pelo menos no multibanco e nas farmácias.

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4 pensamentos sobre “Voto de lesões graves às pessoas que correm para ficar à minha frente no multibanco e nas farmácias

  1. E mais os CTT. Até porque pouco falta para os balcões dos CTT venderem ungentos e cuspirem notas se inserirmos um cartão nas mandíbulas das funcionárias que nos querem impingir o último livro do José Rodrigues dos Santos.

  2. ontem na farmácia do bairro cenário idêntico, mas em vez de um careca tinha uma senhora que estava com um mega dilema sobre que verniz de tratamento e de cor escolher (de entre os 550 vernizes à disposição) para quando tirasse as unhas de gel, que aquilo estava-lhe a fazer muito mal à unha dela (e novidades!!??)
    eu (grávida de 7 meses), sentei-me pacientemente numa das cadeiras disponíveis… eu, que só queria umas míseras saquetas de hidratação para o puto que estava literalmente a borrar-se na cadeira do carro. e o final feliz: aquela farmácia não tinha as ditas saquetas!!!

    • Unhas de gel, um dos maiores flagelos da humanidade dos últimos tempos – há já algum tempo que planeio um estudo sobre isso 😉

      (de resto, tudo a correr bem é o que desejo para essas bandas, sem visitas épicas a farmácias)

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