Balanço do ano

 

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Técnicas de descompressão profissional

Quando estás metido numa discussão/debate profissional em que já acabou a parte da argumentação e te estás a limitar a ouvir alguém a falar até que se canse, nada alegra o dia como imaginares a cena dobrada em castelhano*.

*Em caso de extrema necessidade de diversão, pode ser castelhano ‘estilo dobragem de filme porno’.

A verdadeira urgência do Natal

Resumindo, noite de Natal e a malta foi jantar lá a casa, afinal de contas quando tens um filho e é o seu primeiro Natal o pessoal facilita e concorda contigo em muitas coisas, desde que saias da frente que o menino é que é a estrela da companhia.

Tudo sentado à mesa, as entradas marcham a bom ritmo e a sesta de mini-cidadão cria uma expectativa ao estilo do ‘o Pai Natal de 67cms está prestes a chegar para distribuir alegria.

O problema surge quando o Pai Natal de 67cms acorda com mais de 39 de febre e tosse de fazer inveja a qualquer estivador no auge do seu catarro pujante. O problema está à vista e a solução também – casacos vestidos, tralhas parentais infanto-juvenis às costas e passagem pela sala para avisar as pessoas. A multidão clama:

‘Ahhhhhhhh, finalmente, O MENINO….Mas, mas, mas, onde vão?’
Explicações dadas, camarões pousados na mesa, alguma consternação e, para além de cuidar da criança, há também que prestar rápidos cuidados emocionais a alguns adultos: ‘Mais vale prevenir do que remediar…’, ‘Nesta noite também não deve haver muita gente a sair de casa…’, ‘Fiquem e comam à vontade, o bacalhau está óptimo e a mousse de manga promete. Nós também prometemos voltar’.

Não fosse o mini-cidadão parecer um pugilista grogue e teria sido engraçado o facto de sairmos de nossa casa, na noite de Natal e deixar a mesa cheia de gente.

O resto é uma história de noite de Natal em hospitais – com o lado positivo do atendimento (embora no privado) não ter corrido mal, o caso não ser extremamente grave e termos sempre o termo comparativo de ‘ah, mesmo quando está doente, o nosso filho comporta-se bem melhor que outros mini-enfermos’, exacerbando o nosso lado parental pacóvio.

Ok, pela envolvência e a novidade a noite foi tecnicamente uma merda mas é também um episódio familiar para contar em noites futuras e cobrar à criança quando ela já tiver idade para responder mal e dizer que não quer isto e aquilo.

Mas teve sempre os seus momentos, como a procura da farmácia de serviço mais próxima, chegar lá à meia noite, tocar e ver surgir o farmacêutico com ar desgrenhado a atender-nos com olhinhos papudos. Minutos mais tarde, enquanto ele junta a encomenda, surge uma jovem farmacêutica a perguntar se queremos que prepare o antibiótico. Digo que sim, enquanto reparo que apesar de se ter tentado compor está também ligeiramente desgrenhada. Naqueles breves segundos, o nosso imaginário voa sobre regabofe inter farmacêuticos na noite de Natal.

Finalmente, chegar a casa e descobrir os sobreviventes do jantar, enquanto o mini-cidadão já dorme o sono do cansaço e das drogas. Também nós queremos dormir, não sem antes contarmos a história que vamos repetir várias vezes nos próximos dias.

Nem nos apetece comer, mas comemos porque há comida a mais, sono a mais e espaço a menos.

Aprende-se muito sobre o que é verdadeiramente o Natal quando não estamos verdadeiramente preocupados com ele.

Atropelei um velho com um carrinho de bebé e quero mais

Das muitas zonas de calamidade que existem pelo mundo inteiro, os passeios das ruas de Lisboa são muitas vezes injustamente esquecidos.

Para além de toda a gente se estar positivamente a borrifar para regras de circulação e civismo, acrescentem-se buracos, cagalhões e empecilhos diversos e o granel está instalado. E isto ganha efeitos bónus quando ‘conduzes’ um carrinho de bebé, com um espécime a sério lá dentro.

E foi assim que tudo levou ao meu atropelamento de um idoso, que passarei a descrever em linguagem de agente da autoridade:

Foi numa via com plenitude de largura que eu, conduzindo um carrinho de bebé em perfeito funcionamento (tanto o carrinho como o bebé) me vi bloqueado na progressão por um cidadão sénior, vulgo ‘velho’.

A minha velocidade de circulação, sem ser de nível Mad Max, era superior à do velho pelo que tentei ultrapassá-lo.

O velho, alheio a mim e à realidade do mundo à sua volta, entreteve-se nos momentos seguintes a manter uma trajectória totalmente errática – vou pelo meio, desvio-me para a direita, descaio subitamente para a esquerda, volto à forma inicial.

Frustrado, em vez de fazer o mix cantoria de ‘A-E-I-O-U’ misturada com pequenas acelerações com que normalmente vou deliciando o petiz, fiz uma espécie de versão roadster em que acelerava a tentar passar o velho, antes que a rua ficasse estreita e a subir, onde já não teria hipóteses de passar a velharia, perdão, o cidadão vintage enquanto berrava vogais do alfabeto em tom ligeiramente agressivo.

Talvez alertado pela cantiga, o velho encostou à direita e eu avancei sem medo, com o carrinho a desbravar calçada, acelerei pela esquerda. Foi aí que, certamente assustado, por um candeeiro que insistiu em ficar imóvel no lugar onde sempre esteve, que o velho deu uma passada à esquerda.

E o acidente aconteceu.

Levou com a parte frontal inferior do carrinho em cheio na perna e eu não sabia se havia de rir ou tentar acertar-lhe com força noutras zonas do corpo. O bebé ria-se e o velho dançava com uma só perna. Só faltava música daquela trupe do Kusturica.

A primeira reacção do velho foi quase proferir um palavrão, até ver que se tratava de um carrinho de bebé. Aí ficou dividido por não ser uma mãe afável, mas sim um marmanjão a conduzi-lo.
‘Jovem, bem podia ter mais cuidado, especialmente com uma criança’
‘Velho (ok, omiti o termo), eu cuidado tenho, mas vidente não sou e se a criança é também não se acusou’
‘É que eu agora dói-me a perna’
‘Se pudesse dava-lhe boleia, mas o carrinho já vai cheio’ – Sorriso jovial.
‘Já não se pode andar descansado é o que é…’
‘Poder pode, mas é mais fácil em linha recta…’
‘Vá-se lá embora, eu cá me hei-de arranjar…’
‘A tentar ir embora já eu estou, para aí nos últimos 800metros’

O velho afagou a perna, eu fiz um sorriso condescendente e o mini-cidadão portou-se à altura, entretendo-se a tentar arrancar a cabeça a uma lagarta de peluche. E lá arrancámos para a subida, prontos a dizimar qualquer velho no nosso caminho. Ou até mesmo pessoas em geral.

A história da história do urso

Por motivos profissionais tive que fazer uma história sobre um urso. Coisa curta, destinada a crianças, para ser narrada em registo história para adormecer.

Lá escrevi a coisa dentro dos parâmetros que eram supostos e, pelos vistos, cumpriu os seus requisitos. Todas as pessoas envolvidas gostaram/aprovaram a dita cuja e lá foi ela para produção. Até aí, foi só mais um processo de trabalho.

O ‘problema’ foi quando decidi voltar a ouvi-la/lê-la uns dias mais tarde. Voltando um pouco atrás, na realidade enquanto a escrevia não pensei muito no sentido geral das coisas, nem numa abordagem racional ao que escrevi – o urso fez o que tinha a fazer de uma forma simpática e fofinha e pronto. Mas, resumindo, vejo agora duas formas de ler a história que fiz.

Versão fofinha infanto juvenil
Há um urso que vive num lugar mágico e, para além de ser simpático com todos à sua volta, tem um bom coração. Surpreendido por alguns objectos mágicos deixados à sua porta, usa-os para fazer o bem e acaba por ajudar muitas crianças para alegria dos seus pais.

Versão hmmm cheira-me a cenas
Há um urso que vive num lugar suspeito, com uma atitude deveras hippie, fala e ouve falar um lote variado de objectos inanimados que lhe dão dicas sobre o que deve fazer na vida. Para além de plantações suspeitas, o urso cria uma rede de distribuição que inclui crianças e pais coniventes. Tudo parece indicar negócios ilícitos,mas o urso diz que está tudo nice.

Sinto-me dividido, mas quero acreditar que o potencial verdadeira está na segunda versão. Farto de ursinhos choninhas está o mundo.

Morte aos jardins de pedra

Se me abstrair de ligações emocionais e tentar fazer uma análise racional ao que é de facto um cemitério, fico sempre no mesmo loop de pensamento:

Por um lado não temos espaço para fazer como em países em que as lápides são apenas pontos no meio da verdura de jardins/prados e coisas que, ainda que bucólicas, respiram uma atmosfera mais ligada à vida do que ao lado pesaroso que faz parte das circunstâncias.

Por outro também não podes convencer toda a gente para a opção cremação, bem mais prática na logísitica e a dar-te a opção simbólica de fazer o que bem entendesses com o factor ‘cinzas’.

Mas será que estamos presos ao conceito deprimente de lápides atrás de lápides, jazigos do mais grotesco ao mais trabalhado, incluindo jazigos de pedra com portas de alumínio (e já as vi douradas) estilo marquise e toda uma atmosfera que respira depressão e exacerba o princípio do sofrimento e da ausência?

Na nossa memória reside aquilo que retivemos dos que já partiram e é aí que estará sempre o foco principal, mas será que o ritual da última morada tem que ser um exercício tétrico de penar sobre o que já é penoso?

Como dizia o outro, não sei qual o melhor caminho, mas sei por onde não quero ir.

Entre as memórias da bruma

Gosto de nevoeiro. Não tanto pelo sebastianismo da coisa, mais talvez pelo Johncarpenterismo do filme ‘The Fog’, que creio ter visto cedo demais para a idade que tinha na altura.

Obviamente, não penso na coisa como uma cortina malévola que oculta marinheiros mortos que procuram vingança mas gosto sempre da cortina mística que nos traz um bom nevoeiro cerrado.

É aquele jogo de sabermos o que há por detrás de uma cortina mas, como ela está lá, podermos imaginar que algo diferente se passa e que só vamos descobrir se o atravessarmos.

  
Ontem tive a oportunidade de testar várias vezes essa noção enquanto corria pela fresquinha em Monsanto. Nem piratas, nem ursos (tirando eu), nem sequer uma imagem fantasmagórica algures. Apenas aquele friozinho da névoa, o silêncio intervalado pelo respirar da mata e a curiosidade de avançar por onde não se vê caminho nenhum.