Atropelei um velho com um carrinho de bebé e quero mais

Das muitas zonas de calamidade que existem pelo mundo inteiro, os passeios das ruas de Lisboa são muitas vezes injustamente esquecidos.

Para além de toda a gente se estar positivamente a borrifar para regras de circulação e civismo, acrescentem-se buracos, cagalhões e empecilhos diversos e o granel está instalado. E isto ganha efeitos bónus quando ‘conduzes’ um carrinho de bebé, com um espécime a sério lá dentro.

E foi assim que tudo levou ao meu atropelamento de um idoso, que passarei a descrever em linguagem de agente da autoridade:

Foi numa via com plenitude de largura que eu, conduzindo um carrinho de bebé em perfeito funcionamento (tanto o carrinho como o bebé) me vi bloqueado na progressão por um cidadão sénior, vulgo ‘velho’.

A minha velocidade de circulação, sem ser de nível Mad Max, era superior à do velho pelo que tentei ultrapassá-lo.

O velho, alheio a mim e à realidade do mundo à sua volta, entreteve-se nos momentos seguintes a manter uma trajectória totalmente errática – vou pelo meio, desvio-me para a direita, descaio subitamente para a esquerda, volto à forma inicial.

Frustrado, em vez de fazer o mix cantoria de ‘A-E-I-O-U’ misturada com pequenas acelerações com que normalmente vou deliciando o petiz, fiz uma espécie de versão roadster em que acelerava a tentar passar o velho, antes que a rua ficasse estreita e a subir, onde já não teria hipóteses de passar a velharia, perdão, o cidadão vintage enquanto berrava vogais do alfabeto em tom ligeiramente agressivo.

Talvez alertado pela cantiga, o velho encostou à direita e eu avancei sem medo, com o carrinho a desbravar calçada, acelerei pela esquerda. Foi aí que, certamente assustado, por um candeeiro que insistiu em ficar imóvel no lugar onde sempre esteve, que o velho deu uma passada à esquerda.

E o acidente aconteceu.

Levou com a parte frontal inferior do carrinho em cheio na perna e eu não sabia se havia de rir ou tentar acertar-lhe com força noutras zonas do corpo. O bebé ria-se e o velho dançava com uma só perna. Só faltava música daquela trupe do Kusturica.

A primeira reacção do velho foi quase proferir um palavrão, até ver que se tratava de um carrinho de bebé. Aí ficou dividido por não ser uma mãe afável, mas sim um marmanjão a conduzi-lo.
‘Jovem, bem podia ter mais cuidado, especialmente com uma criança’
‘Velho (ok, omiti o termo), eu cuidado tenho, mas vidente não sou e se a criança é também não se acusou’
‘É que eu agora dói-me a perna’
‘Se pudesse dava-lhe boleia, mas o carrinho já vai cheio’ – Sorriso jovial.
‘Já não se pode andar descansado é o que é…’
‘Poder pode, mas é mais fácil em linha recta…’
‘Vá-se lá embora, eu cá me hei-de arranjar…’
‘A tentar ir embora já eu estou, para aí nos últimos 800metros’

O velho afagou a perna, eu fiz um sorriso condescendente e o mini-cidadão portou-se à altura, entretendo-se a tentar arrancar a cabeça a uma lagarta de peluche. E lá arrancámos para a subida, prontos a dizimar qualquer velho no nosso caminho. Ou até mesmo pessoas em geral.

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