Dúvidas que vou tendo sobre outras dúvidas que vou vendo

Olhando para uma tendência geracional que tenho vindo a observar, fico na dúvida:

Custará mais procurar por si próprio uma resposta ou ficar à espera que respondam a perguntas deixadas algures na internet e afins? (isto com a camada adicional de ‘e será que a resposta que me deram serve mesmo?’)

Percebo a facilidade de acesso, a dinâmica de comunidade, o valor de muitos sobre o esforço de um mas, a dada altura, fora de questões em que isso tudo é efectivamente válido, vejo gente que se reduz a repolhos mentais preguiçosos que esperam que tudo lhes seja dito, esclarecido e confirmado sem qualquer esforço da sua parte.

E, se juntar o factor internet, a questão continua a ser que as pessoas são muito mais crédulas sobre informação e opiniões recolhidas online do que se fossem confrontadas ao vivo com as mesmas. Mas isso sou eu, que já há vários anos ando online a tentar convencer as pessoas que sou uma barmaid num estabelecimento de diversão nocturna na Bobadela.

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Violaram-me 100€ com uma multa à porta de casa

Levei uma multa e tenho o carro bloqueado.
Tristes e ainda com lágrimas em cima, vejo 100€ a despedirem-se de mim. Parece que afinal não vamos passar mais tempo juntos.
‘Coitadinho, és só mais um de 300 mil gajos a queixarem-se do mesmo’, poderão vocês dizer-me. E eu não nego, mas o que me falta em euros sobra-me em azia, por isso é o que temos.

Vivo em Lisboa, trabalho em Lisboa, não vou de carro para o trabalho, tenho dístico da EMEL para duas zonas, pago a tempo e horas mas, apesar de gostar muito da zona onde moro, tenho a grande infelicidade de morar numa rua de sentido único em que não existem parquímetros.

‘Muita fixe’ dirá o mitra automobilizado ‘Diz lá onde é que é, que eu dá-me jeito não estar sempre a dar de comer à EMEL’. Diria de bom grado, mas parece que não há vagas.

É uma zona próxima de universidades, Metro e de empresas para todos os gostos e feitios, hordas de carros atulham diariamente as ruas ali à volta, fazendo com que os residentes tenham sempre que andar à cata de lugares, tipo Pacman em busca da frutinha escondida.

Podia agora começar com um diagrama a explicar as razões que levaram à multa mas poupo-vos o descritivo.

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O realmente lixado de ser multado à porta de casa é porque isto é um esquema à portuguesa totalmente recorrente e que tem a seguinte moral ‘Bem, enquanto não resolvemos isto como deve de ser, vamos picando o ponto e facturando uns belos cobres’.

A EMEL não tem parquímetros na minha rua. A populaça aproveita e os residentes estrebucham.

A Câmara / Junta podiam usar dois arruamentos não alcatroados para criar melhor estacionamento e torná-los exclusivos para residentes. Não o fazem, a populaça aproveita e os residentes estrebucham enquanto fazem marcha atrás de forma esquisita.

De um lado da rua o estacionamento paralelo é legal, do outro é usual (metade no passeio, metade na estrada) mas ilegal. No entanto, os pilaretes nunca aparecem, porque isso ia deixar uma zona residencial com menos 30% de estacionamento. Só que, por denúncia ou por jackpot instantâneo, regularmente a Polícia Municipal tem aparecido para recolha de ‘donativos’. A populaça foge para a rua seguinte e os residentes acabam a descarregar nos tipos que não têm culpa nenhuma de estar a fazer o seu trabalho.

Não resolvendo nada de forma definitiva, constrói-se a solução do desenrasca, na base de multas que não resolvem problemas mas têm uma base legal, por isso não há como contorná-las.

De bom grado daria 100€ se soubesse que iriam contribuir para bom planeamento e uma solução pensada de um problema que deriva de situações que não existiam há 60 ou 70 anos quando algumas destas ruas foram delineadas. Mas não, foram apenas 100€ que se vão perder no eco de ‘É só mais um gajo lixado com uma multa’.

Odeio perder discussões e a Alanis Morissette pelo meio

Sou daqueles tipos teimosos que resiste a tirar do bolso o smartphone e chamar o Google para acabar com discussões. Logicamente, em dadas ocasiões sujeito-me a levar bordoada à conta disso.

No outro dia, o tema em questão era este.

Insistia eu que a Alanis Morissette tinha uma versão disto, que até devia ser da banda sonora de um filme.
Diziam-me que não.
Dizia eu que até tinha ideia que ela fazia de Deus no filme e tudo.
Diziam-me que não, que não cantava nada disso.

Frustrado, fui à net. E perdi.
POR EXCESSO DE INFORMAÇÃO.

Há confusão na net, fala-se em Alanis e tema, mas não há prova nem registo.
Isto é da Joana, disso não há dúvida.
O tema entra no ‘Bruce Almighty’, mas não é Alanis que canta um excerto. Nem sequer a Joana. É mesmo o Jim Carrey.
A Alanis Morissette faz de Deus, mas é no Dogma. E também canta uma música, mas não é o ‘One of us’. E o Alan Rickman faz de Metatron, já nem me lembrava.

Enfim, é o que temos. E nem sei porque é que me irritam estas coisas, eu nem sequer gosto de Alanis Morissette, acho o ‘One of us’ uma choradeira musical e já vi filmes melhores. Valha-me Deus.

O crush fatal

Acordou com um sabor estranho na boca. Estava tudo às escuras e o ar estava mais abafado que no interior do Metro em hora de ponta. Apercebeu-se de que estava deitado e que, pelo espaço disponível, quase não se conseguia mexer.

Já tinha visto isto em filmes. Estava fechado dentro de um caixão.

Tentou não entrar em pânico, coisa que conseguiu durante menos de um minuto. Enquanto consumia o pouco oxigénio de que dispunha em golfadas sôfregas e pouco avisadas, lembrou-se de outra coisa dos filmes.

Normalmente, junto de quem acordava em situação semelhante à sua, havia sempre um objecto qualquer, tipo uma lanterna, um isqueiro ou um…

Telemóvel.
Bem, pelo que conseguia perceber entre apalpadelas e manuseamento tosco, não era um topo de gama, mas já tinha tamanho de smartphone. Menos mal.
Chegando o ecrã à cara, premiu um botão e fez-se luz. O ecrã de fundo era mauzito, uma daquelas paisagens verdes de sistema mas, pior que isso era o facto de só ter um pauzinho de bateria. E a rede também não estava famosa.

O que fazer primeiro?

Ligar para alguém aos gritos não ia servir de nada. Não sabia onde estava e a história do caixão tirava-lhe qualquer ponto de referência.
Talvez pudesse aceder ao GPS…

Hey, aquilo tinha o Candy Crush no desktop. Não resistiu a clicar e ficou de boca aberta. Quem quer que fosse o Teddy_Boo123, ia num nível muito mais à frente do que já alguma vez tinha visto…Bem, um pauzinho devia dar para jogar um nível, verificar o GPS e fazer uma chamada.

Jogou uma vida.
Duas vidas.
Três vidas.

Bateria fraca.

Quatro vidas.

Bateria crítica.

Sem dar por isso, jogou também a última vida. A sua.
Mas ao menos conseguiu passar de nível.

Há 20 anos eu queria ser um mânfio divertido

Parece que foi em 1996 que saiu o álbum ‘Come Find Yourself’ dos Fun Lovin’ Criminals. E que isto se ouvia a torto e a direito.

Não é uma banda de referência, o pico são 2/3 álbuns no final dos anos 90, com alguns êxitos que ficavam na cabeça. Mas eu gostava do tom, da atitude mânfios de NY, muito melhor do que mânfios de Chelas ou da Trafaria. Quando eles mais tarde deixaram que o Barry White lhes salvasse a vida amorosa enquanto andavam de bike, foi o meu delírio.

Pouco tempo depois deste álbum vieram cá pela primeira vez dar um concerto no Coliseu e eu fui. O curioso é que não me lembro de nenhum momento musical que tenha sido épico, mas recordo-me em detalhe da troca de galhardetes estilo filme do Bronx que o vocalista ia tendo com a audiência. ‘Yo, bring your girlfriend to the stage my friend. But I won’t promise she’ll want to leave with you…

Às vezes é assim, gostamos de bandas mais pelo contexto do que pela música. E em 1996 eu devia ter muitas aspirações a uma carreira de mânfio apreciador de diversão.